'O crack é diferente de tudo', diz pesquisador

Para coordenador de instituto, venda pulverizada e alto índice de revendedores-consumidores tornam cadeia de venda da droga letal

Daniel Torres, enviado a Belo Horizonte* |

Divulgação
Seminário em Belo Horizonte discute caminhos para conter o avanço do crack
"Os profissionais da área de saúde e os funcionários de clínicas estão atônitos. O crack é diferentes de todas as outras drogas que conhecemos”. A frase é do do coordenador do Instituto Minas pela Paz e coordenador do Centro de Estudos e Pesquisa em segurança pública da PUC Minas, Dr. Flávio Sapori.

Flávio Sapori é um dos palestrantes do “1º Simpósio Sulamericano de política sobre Drogas: crack e cenários urbanos”, que acontece em Belo Horizonte até sábado e discute os problemas do impacto do consumo de crack na segurança e na saúde pública, a descriminalização de drogas, e as experiências sobre o assunto na América do Sul.

Sapori coordena uma pesquisa que é feita desde dezembro de 2008 sobre o impacto do consumo e venda de droga na região metropolitana de Belo Horizonte.

A pesquisa, que deve ser lançada em agosto desse ano, está na fase de análise dos resultados e entrevistas coletadas, mas já apontam algumas tendências em relação à venda e consumo de crack: o crack, que predomina nas camadas mais pobres e jovens, já atinge as classes mais ricas e os adultos; a chegada do crack coincide com o aumento nos índices de homicídios em muitas regiões metropolitanas; o comércio e o usuário do crack são diferentes do que o de outras drogas; e os índices de violência gerados pelo crack se deve, principalmente, ao comércio da droga e não pelo efeito que ela gera no viciado.

“O crack tem um comércio mais conflituoso que o da cocaína e da maconha. A estrutura da venda tem formas diferentes. O varejo é muito mais pulverizado. Ele é realizado por quadrilhas de jovens. O comércio do crack tem revendedores terceirizados, algo que não vemos na cocaína. O gerente da boca passa a droga para os agentes de revenda, que terceirizam a venda para espécies de free-lancers. É uma cadeia muito fragmentada“, afirma Sapori.

Segundo o pesquisador, é essa venda pulverizada e o alto índice de 'revendedores-consumidores' que acaba tornado a cadeia de venda da droga tão letal. “O vendedor-usuário do crack acaba uma hora ou outra se tornando um devedor. E nessa cadeia, se alguém deve alguma coisa, essa dívida se reproduz nos outros setores de venda. Um vai devendo para o outro. E aí, se ele não paga, não se pode procurar o Procon. É quando entra a força física, a arma de fogo e as mortes. E essa cadeia de venda vira uma cadeia de mortes e de violência”.

O estudo é resultado de entrevistas com cerca de 10 policiais, 20 'comerciantes' de crack, 20 profissionais de clínicas de reabilitação e 40 usuários de crack. Segundo o professor, a pesquisa, que conta com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico CNPq, revela o quanto a situação é grave e precisa de ações rápidas dos governantes. “As medidas precisam ser tomadas já. Os candidatos à Presidência e governadores precisam se posicionar sobre o tema. Estamos vendo que é preciso ser feito algo logo. Ainda há tempo”, afirma.

* a reportagem do iG participa do seminário à convite da organização do evento

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