O consumismo que mata o Planeta a cada dia Por Giuliana Reginatto e Cecilia Nascimento São Paulo, 18 (AE) - Para que o Planeta Terra e, dentro dele, o Brasil, continuem a ser habitáveis para as próximas gerações, é preciso abandonar valores externos, que servem a outras nações mas ferem a individualidade nacional. O principal deles, segundo especialistas em meio ambiente, é o padrão de consumismo aprendido há décadas com os EUA.

Em suaves prestações, a conta dessa dependência cultural começa a ser paga: modos de vida que o País é incapaz de sustentar sem depredar os próprios recursos.

"No Brasil, o consumo está relacionado ao status, faz o sujeito se identificar com a classe média. Isso reflete a baixa auto-estima do brasileiro. É uma noção de bastardia, um complexo de povo colonizado que se arrasta desde os tempos da Metrópole portuguesa", analisa o sociólogo e antropólogo Maurício Waldman, doutor em geografia.

Waldman trabalha diante do computador, mora perto da Avenida Paulista, centro financeiro de São Paulo, e adora carne - embora tenha reduzido o consumo: não pairam sobre ele imagens sempre associadas a ambientalistas importantes: ‘bicho-grilo’, vegetariano ou habitante de alguma vila paradisíaca do Nordeste. "Preservar a natureza não é ser ‘ecochato’. Simplesmente não há Planeta para criar tanto boi, não há espaço para descartar tanto lixo. As pessoas terão de rever os padrões de consumo. Não basta só se engajar em movimentos a favor dos golfinhos."

Sem carro há nove anos, Waldman alterna passeios a pé e de bicicleta. "Quando é necessário uso o transporte público, não sou radical, mas venho diminuindo o impacto ambiental que mais um automóvel provocaria na cidade. O Denatran calcula que em 2050 serão 5 bilhões de carros. A Terra tem 6 bilhões de pessoas, será uma situação insustentável, não há ar que resista. E não se faz ecologia só com boas intenções."

Para facilitar seu cotidiano em São Paulo , Waldman optou por trabalhar em casa. Assim, controla melhor o fluxo de produtos consumidos pela família: da compra ao descarte. "O Brasil responde por 6,89% do lixo domiciliar mundial, quase o dobro do aceitável. Nosso agravante é cultural: há uma falsa idéia de fartura, de recursos abundantes, como se nada fosse terminar. São observações simplórias sobre o assunto. Não basta fechar a torneira para economizar água. É preciso escolher alimentos que consumam pouca água na fabricação. Um quilo de carne vermelha consome 100 litros, o suficiente para se tomar banho por quatro anos e meio."

Diretora técnica do Programa USP Recicla, a geógrafa Beth Lima também enfatiza a idéia de co-responsabilização do cidadão pelo impacto que ele provoca no ambiente. "É preciso trabalhar os costumes. Historicamente, sempre foi delegado a alguém cuidar do lixo: do gari que varre ao caminhão que coleta. Ninguém parece sentir-se responsável pelo destino final do produto comprado. Observa-se só a praticidade e as facilidades do produto, mas a responsabilidade do consumidor deveria se estender da compra até o descarte de seus resíduos. Essa é uma percepção a ser trabalhada com as novas gerações ", diz.

Infância ecológica

"Fecha a torneira, não vai ter água quando eu crescer!" Quem pede é Pedro, de três anos, um representante dessa nova geração que começa a olhar diferente para a natureza que há em volta. "Sempre que vê a torneira aberta ele diz isso. Também aprendeu a limpar o lixo: lava os potinhos e coloca no reciclado.

Recentemente, ganhou um kit de jardinagem e agora brinca de escolher ervas culinárias na chácara do avô para plantarmos em nosso apartamento", conta a mãe dele, Elisabete Giomo, 36 anos. Consumir alimentos cultivados em casa e outras práticas comuns no passado, como usar fraldas de pano e fabricar sabão à base de óleo, encontram resistência no Brasil apesar de conquistarem grande público na Europa. Não é à toa que certas alternativas ecológicas, como os coletores menstruais de silicone, reutilizáveis por dois anos, nem existem por aqui.

Na Internet, o inglês MoonCup (www.mooncup.co.uk/) e o finlandês Lunette (www.lunette.fi/english_index.html), são algumas das marcas disponíveis. Pode parecer idéia do tempo da vovozinha, mas é também daquela época um Rio Tietê, famoso no Brasil inteiro pelo mau cheiro atualmente, no qual se podia nadar e um céu menos cinza nos dias de verão.

Boxe:
POR QUE ELES AMEAÇAM O MEIO AMBIENTE?

ÓLEO
De acordo com Sabesp, 1 litro de óleo de cozinha é capaz de poluir 1 milhão de litros de água. Antes de jogá-lo ralo abaixo, saiba que é um dos principais responsáveis por entupimentos. De volta aos rios, por ser mais leve, fica na superfície, impedindo a oxigenação da água e causando a morte dos peixes. O melhor é reservá-lo em garrafas pet. Na Grande São Paulo, o Instituto Triângulo recolhe óleo gratuitamente. Basta ligar: (11) 4991-1112.

PLÁSTICO
O material em plástico pode levar até 100 anos para se degradar na natureza e acaba poluindo as águas. Um dos produtos preocupantes é a sacolinha plástica: em São Paulo, os ambientalistas estimam que elas correspondam a 18% das 15 mil toneladas de lixo produzidas diariamente. Em 2007, a Prefeitura de São Paulo criou a campanha ‘Eu não sou de plástico’, para promover o uso das sacolas de pano. Em alguns países, como o Canadá, as sacolas de plástico já são proibidas.

CARNE
Produzir uma libra de proteína de carne requer até 16 vezes mais água do que produzir a quantidade equivalente de proteína vegetal. Além de contribuir para a escassez de água, a pecuária estimula o desmatamento e o efeito estufa. Quase a metade da massa de terra do Globo é usada como pasto. Segundo a ONU, a produção de carne pode agravar a fome no mundo ao desviar grãos e terras férteis para sustentar gado ao invés de pessoas.

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