O decano dos cineastas do mundo, o português Manoel de Oliveira, comemora nesta sexta-feira seus 100 anos de vida e se declarou muito emocionado com as homenagens que vem recebendo nos últimos dias.

"Estou muito comovido e emocionado. Não sei se mereço isso. Suponho que não, já que não tenho mérito por ter chegado a esta idade. É um capricho da natureza, mas é agradável", declarou o cineasta durante um almoço em Lisboa, onde roda seu próximo filme.

Manoel de Oliveira começou no dia 23 de novembro a filmar seu 46º longa-metragem, "Singularidades de uma rapariga loira", adaptado de um conto do romancista português Eça de Queirós.

Na noite desta sexta-feira, dia "oficial" do aniversário do cineasta - que nasceu em 11 de dezembro de 1908, mas foi registrado no dia seguinte -, uma festa reunirá amigos e colaboradores de Oliveira no Porto, sua cidade natal.

No sábado, o diretor jantarpa com o chefe de Estado português, Aníbal Cavaco Silva, após uma cerimônia na qual será condecorado com a Gran Cruz da Orden do Infante Don Henrique.

"Parar de trabalhar é morrer. Se me tirarem a câmera, morro", declarou recentemente o diretor..

Desde 23 de novembro, entre a pequena rua Anchieta, no antigo bairro lisboeta de Chiado, e um armazém de azulejos antiguos, na mesma região, Manoel de Oliveira anda para cima e para baixo, demonstrando "energia e humor", segundo a atriz principal do filme, Catarina Wallenstein.

"Ele sabe muito bem o que quer, mas como outros diretores tem muitas idéias que chegam durante as filmagens, quando está rodando. Então improvisa", conta à AFP a jovem atriz portuguesa de 22 anos.

No filme, Macario (interpretado por Ricardo Trepa, neto do cineasta) relata a uma desconhecida em um trem seu amor por uma jovem loura.

"'Singularidades de uma rapariga loura'" se baseia na idéia de contar a um desconhecido coisas que não se contam a um amigo, nem à esposa", explicou Oliveira semana passada.

No dia do aniversário, sexta-feira, o cineasta pretende filmar alguns planos em Lisboa.

Oliveira parece ter pressa. Não por uma razão de urgência ligada à idade, e sim porque gostaria que o longa-metragem entrasse na disputa do Festival de Berlim, em fevereiro de 2009.

"Só descanso quando estou rodando", afirma, brincando a respeito de sua vitalidade.

Desde seu primeiro filme em 1931, um documentário mudo sobre o Porto, sua cidade natal, chamado "Douro, trabalho fluvial", o cineasta dirigiu 44 longas-metrages, metade deles depois que completou 80 anos.

Sobre a energia, comenta com simplicidade: "Não tenho nenhum segredo. É um capricho da natureza, que decide e rege tudo isto. Devemos respeitá-la".

Nos últimos 20 anos, o cineasta português dirigiu o mesmo número de filmes, com média de um por ano. A parte essencial de sua obra foi realizada com mais de 60 anos, depois da revolução de 25 de abril de 1974 que acabou com a ditadura salazarista.

No entanto, com o olhar protegido por óculos levemente escuros, afirma que ainda tem dificuldades para obter dinheiro para o próximo filme.

Para continuar trabalhando, o cineasta português, que dirigiu grandes atores (Marcello Mastroianni, Catherine Deneuve, Michel Piccoli, John Malkovich, entre outros), está disposto a reviver as condições de seus primeiros filmes.

"Eu fazia tudo sozinho: produção, direção. Estava atrás da câmera, era responsável pelo som e a imagem. Os atores eu encontrava no local. Transportava todo o necessário em um furgão: projetores, cabos, duas baterias de 24 volts para a iluminação", recorda.

"Pode ser que um dia me veja obrigado a filmar de novo nestas condições se não conseguir financiamento", comenta, levemente apoiado em uma bengala que não parece precisar.

Antes mesmo de concluir as filmagens de "Singularidades...", o cineasta já sonha com "O estranho caso de Angélica", que gostaria de apresentar em maio de 2009 no Festival de Cannes.

"Não acredito que tenha tempo de fazer mais um para Veneza, em setembro", afirma, com falsa decepção e um amplo sorriso.

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