Com poucos hackers e muitos entusiastas, líderes tentam minimizar bagunça e dar caráter político ao movimento

A não realização do grande ataque hacker anunciado para a última sexta-feira, com direito a uma semana de contagem regressiva, expôs a crise de identidade entre os novos hackativistas brasileiros capitaneados pelo LulzSecBrazil – grupo responsável pela derrubada do site do governo e da Presidência no mês passado .

Com poucos talentos nas ciências da computação e muitos entusiastas com visões diversas de mundo, a cúpula da equipe tenta minimizar a bagunça em que o movimento se transformou e dar a ele um ar mais politizado.

“Seria a LulzSecBrazil realmente jovens apenas querendo diversão?”. A pergunta foi feita pela própria equipe em seu site oficial. Após passarem a semana divulgando um novo ataque, na hora marcada, em vez de divulgar um alvo, postaram em sua página um texto expondo supostos hackers que tentaram vender informações roubadas de caixas de e-mails de políticos para políticos.

De acordo com eles, tais hackers, chamados de ladrões em busca de senhas de banco e clonagem de cartões de crédito, estavam usando o nome da LulzSecBrazil de forma indevida e sendo um impedimento para uma revolução que, ao mostrar as falcatruas do governo para a população, levará o país a ser uma potência.

Os ideais grandiosos, contudo, não aparecem na prática. Até agora os ataques não revelaram nenhum caso de corrupção no Brasil e fez com que os cerca de 300 participantes da sala de bate papo no IRC ( www.irc.org ) passem o dia a pensar em novos sites para derrubar, com uma especial obsessão pela Globo e Record – sempre rechaçada pelos líderes do movimento.

Sem necessidade de conhecimento técnico para sobrecarregar sites (basta entrar numa página feita para testar a capacidade de websites, que faz múltiplas requisições para um endereço que você digitar na barra), entusiastas e aprendizes de hacker muitas vezes conversam com antigos grupos brasileiros, como o Fatal Error Crew ou Havittaja.

Na prática, ninguém se entende. Os grupos citados possuem certo conhecimento técnico, e foram responsáveis inúmeras pichações de sites. Os novos seguidores do LulzSecBrazil, por outro lado, passam boa parte do tempo se xingando, fazendo piadas de mau gosto e discutindo incessantemente os porquês de atacar e de não atacar o site da Globo.

A bagunça causou reações na cúpula do LulzSecBrazil. Em alguma medida pela existência do movimento Anonymous. Mais ideológico, que tenta unir pessoas, e não somente hackers, para expor a corrupção e de alguma forma, com isso, melhorar o mundo – uma vez que o Anonymous é transnacional.

Um usuário com apelido de AnonStreet postou um vídeo fazendo diversas críticas ao LulzSecBrazil , dizendo que o grupo havia virado piada entre os hackers brasileiros. Disse ainda que os Lulz buscavam mais a mídia que as próprias causas, reclamando assim da entrevista que o responsável pelo site www.lulzsecbrazil.net , Bile_Day, concedeu ao programa CQC da Band .

Em meio às brigas e reclamações, a cúpula do movimento divulgou um documento no estilo do “Seria a LulzSecBrazil realmente jovens apenas querendo diversão?”, tentando explicar para os entusiastas as diferenças entre LulzSec e Anonymous.

De acordo com o material, os Lulz são o braço responsável por invasões para chamar a atenção para o movimento maior, o Anonymous, que tem sua revolução social como meta. O material ainda convoca novos seguidores, dizendo que para se transformar num Anonymous o primeiro passo é buscar informação sobre o que está acontecendo em seu país.

Após a sexta-feira do ataque enganação para os próprios seguidores, alguns usuários do chat disseram que não iriam mais participar do grupo, outros, pelo contrário, prometeram reforçar o movimento.

A cúpula ainda não se pronunciou sobre os próximos passos concretos do LulzSecBrazil. Disse apenas que estão na fase dois da operação Brasil e que seguem “navegando”.

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