Nobel premia narrativa inovadora de escritor francês Le Clézio

Anxo Lamela. Estocolmo, 9 out (EFE).- A Academia Sueca concedeu hoje o Nobel de Literatura de 2008 ao francês Jean-Marie Gustave Le Clézio, reconhecendo sua narrativa inovadora e devolvendo o prêmio a seu país depois de 23 anos.

EFE |

Isto porque o chinês Gao Xingjian, premiado em 2000, tem nacionalidade francesa, mas não escreve nesta língua e, sim, em mandarim.

Desta forma, o último representante das letras francesas premiado tinha sido Claude Simon, em 1985.

Em sua decisão, a Academia Sueca classificou Le Clézio - nascido em Nice, em 1940 - como "autor de novos rumos, da aventura poética e do êxtase sensual" e "explorador da humanidade, dentro e fora da civilização dominante".

Le Clézio foi apontado como maior escritor francês vivo em enquete feita há alguns anos pelos leitores da revista "Lire". Além disso, recebeu prêmios importantes como o Renaudot e o da Academia Francesa.

No entanto, o autor não constava na lista dos principais favoritos este ano - encabeçada pelo italiano Claudio Magris -, como já ocorreu em 2007 com a britânica Doris Lessing e há quatro anos com a austríaca Elfriede Jelinek, uma escolha ainda mais inesperada.

Com Jelinek e Le Clézio há ainda uma outra coincidência: ambos foram reconhecidos com o Nobel no mesmo ano em que receberam o prêmio Stig Dagerman.

O escritor francês receberá esta premiação no próximo dia 25 em Älvkarleby, ao norte de Estocolmo, confirmou hoje a "Rádio da Suécia".

Le Clézio, que se declarou "comovido e agradecido", anunciou que estará em Estocolmo em 10 de dezembro para receber o Nobel.

Sua escolha alimenta ainda a polêmica anterior provocada por declarações do secretário permanente da Academia Sueca, Horace Engdahl, nas quais chamava a literatura dos Estados Unidos de "provinciana" e denunciava seu papel "marginal" nas letras universais.

Engdahl é especialista em literatura francesa e tradutor para o sueco de escritores como Maurice Blanchot e Jacques Derrida.

Le Clézio é autor de cerca de 50 obras, principalmente romances, mas também ensaios e livros infantis, nos quais expôs seu gosto pelas viagens, sua sensibilidade ecológica e seu amor pela cultura ameríndia e pelo México.

Filho de mãe francesa e pai britânico estabelecidos na ilha Mauricio, seus primeiros anos foram marcados por viagens familiares.

Com 7 anos, Le Clézio, bilíngüe em francês e inglês, escreveu seus dois primeiros livros, relatando sua viagem à Nigéria.

Seu primeiro romance, "Le procès-verbal" (1963), causou sensação: partindo das últimas conseqüências do existencialismo e do nouveau roman - movimento literário francês - Le Clézio conseguiu "resgatar as palavras do estado degenerado da linguagem cotidiana e a elas devolveu a força para invocar uma realidade existencial".

O livro, que recebeu o prêmio Renaudot, marcou a linha seguida por obras como "La fièvre" (1965) e "Le déluge" (1966). Mais tarde, a preocupação ecológica ficou evidente em "Terra amata" (1967) e "La guerre" (1970), entre outras.

Sua consagração definitiva veio com "O Deserto" (1980), coleção de imagens sobre uma cultura perdida norte-africana em contraste com a visão da Europa através dos olhos de imigrantes forçados, que valeu a ele o prêmio da Academia Francesa.

A proximidade com o norte da África vem de sua esposa Jemia, de origem marroquina, com quem se casou em 1975.

Suas longas estadias no México e na América Central no começo dos anos 70 marcaram a evolução de sua obra e o levaram a buscar uma nova espiritualidade em contato com os índios, expressada em "Voyage de l'autre côté".

A tradução para o francês de obras como "As profecias de Chilam Balam" e "O sonho mexicano ou o pensamento interrompido" revelam sua fascinação pelo passado do México, objeto de sua tese de doutorado na Universidade de Perpignan (1983).

Seu trabalho acadêmico o levou a lecionar em universidades do México, Bristol, Londres, Perpignan, Bangcoc, Boston, Austin e Alburquerque (Estados Unidos), uma das cidades onde mora, junto com Nice e as ilhas Maurício, há cerca de dez anos.

O sonho do paraíso perdido, neste caso as ilhas do oceano Índico, aparece em outro de seus livros mais famosos, "À procura do ouro" (1985), e se acentua em suas obras seguintes.

Temas como a memória, o exílio, a reorientação da juventude e o conflito cultural correspondem a uma tendência rumo à exploração do mundo da infância e a história de sua própria família, presentes em "Onitsha" (1991), "A quarentena" (1995), "Révolutions" (2003) e "O africano" (2004).

Outros títulos publicados no Brasil são "Diego e Frida" (1994) e "Peixe dourado" (2001). "Ritournelle da faim", livro mais recente, é o último nome a acrescentar em uma extensa produção.

Apesar de não ser considerado o favorito ao Nobel, sua editora sueca, Elisabeth Grate, revelou que tinha comprado champanhe nesta quarta-feira porque achou que poderia ter um motivo de comemoração no dia seguinte. EFE alc/ev/plc

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