No tratamento para fertilidade, a cabeça é tão importante quanto o corpo Por Cecília Nascimento São Paulo, 28 (AE) - O desejo de superar problemas de fertilidade e ter um filho biológico leva milhares de casais brasileiros a buscar tratamentos em clínicas especializadas. O foco, em geral, está em problemas físicos de ambos que impossibilitam a geração de uma nova vida.

Cresce, porém, a importância do acompanhamento psicológico como coadjuvante rumo à gestação.

A psicóloga Luciana Leis, da Clínica Gera, em São Paulo, explica que fatores de casos concretos de infertilidade estão associados a questões psicológicas. "Daí a importância de ver o corpo como um todo, associado à mente".

A psicóloga fará uma palestra gratuita neste sábado (30), entre 10h e 12h na sede da clínica, (Rua Peixoto Gomide, 515 -conjuntos 11 e 12- bairro Bela Vista), com o tema "Os múltiplos aspectos emocionais envolvidos na infertilidade".

AGÊNCIA ESTADO- O acompanhamento psicológico deve fazer parte do tratamento para fertilidade?
LUCIANA LEIS - Ele não é obrigatório. Os casais que procuram a clínica nem sempre aderem a esse acompanhamento, embora a equipe médica oriente que a ansiedade presente na busca por um filho biológico necessita ser administrada e aí entra o papel dos psicólogos.


AE - Por que há casais que resistem ao acompanhamento?
LUCIANA - Muitos não querem mexer em questões pessoais, bloqueios de infância, como relacionamento conturbado com a família, ou descobrir que há problemas de relacionamento entre o casal que precisam ser resolvidos antes da decisão de ter um filho. Muitas vezes, a criança é desejada como uma tentativa de sanar esses problemas sem exigir reflexão e mudança de atitude do homem e da mulher na relação. Com medo de encarar essa realidade, muitos não aderem ao acompanhamento.


AE - Para aqueles que aderem , quais são as questões trabalhadas?
LUCIANA - A primeira é criar caminhos para que o casal entenda que o tratamento pode ser uma experiência bem ou mal sucedida e que dificilmente a gestação acontece na primeira tentativa. Isso gera frustração. Outra questão é saber como o casal encara o desafio que exige participação mútua. É comum ouvir de muitos homens- "o problema de fertilidade é dela, estou aqui para ajudar, mas é uma questão dela". Daí, o ponto de partida já está errado. Se o desejo pelo filho é dos dois, o problema é dos dois.


AE - Há diferença entre homens e mulheres na aceitação do tratamento?
LUCIANA- Há uma questão cultural muito forte que parte das mulheres de poupar o homem de sua parcela de responsabilidade no processo. Chegam a mentir para a família e para os amigos, dizendo que elas têm dificuldades biológicas para engravidar, quando muitas vezes a questão está com o homem. Elas temem que o companheiro seja visto como infértil, "pouco macho", frágil. E os homens reforçam essa atitude, ao acharem, muitas vezes, que aspectos psicológicos da mulher é que estão pesando para a dificuldade de engravidar. Embora 40% dos casos de infertilidade seja da mulher, 40% dos homens e 20% de problemas combinados entre ambos, a mulher e a sociedade tendem a achar que é um problema predominantemente feminino.


AE - Há muitos casos em que o casal, após várias tentativas de engravidar, desiste do tratamento e acaba engravidando. Como o aspecto psicológico influi nesses casos?
LUCIANA - O que acontece é que o casal muda o foco. Por meses, e até anos, estava colocando toda a energia na tentativa de engravidar. Como é um problema delicado e há muita cobrança social, acaba evitando o convívio com a família e com amigos para não ouvir - "E aí, conseguiram?". Muitas mulheres chegam a se afastar do trabalho acreditando que precisam focar energia na possível gravidez e, nisso, também perdem uma parte da vida social. Quando o casal redistribui a energia para outros aspectos também importantes da vida - a própria convivência como casal, atividades de lazer, o trabalho, a família, os amigos, a tensão diminui e o corpo passa a funcionar melhor para a chegada de uma nova vida.


AE - Quando a gestação não é possível, após várias tentativas, qual do papel do psicólogo?
LUCIANA - Primeiro, acompanhamos a elaboração desse luto, cuja duração vai depender de cada casal. Passada essa fase, procuramos mostrar que a vida oferece vários caminhos. Um deles é a adoção. Procuramos mostrar que o filho adotivo não terá a tão desejada cara do pai e da mãe, não carregará a genética da família como muitos casais desejam quando querem um filho biológico. Porém, será uma criança cuja relação com os pais também estará baseada no amor, na troca de afeto, na transmissão de valores, assim como com os filhos biológicos.


AE - Homens e mulheres tendem a encarar a adoção da mesma maneira?
LUCIANA - As mulheres possuem o instinto de cuidar. É natural. Para elas, pesa menos a questão de transmissão de aspectos hereditários. Para os homens, ainda é importante "disseminar", ou seja, passar adiante seu sêmen para a geração de novas vidas. Há também aí uma dose machista da sociedade. Mas, diante da impossibilidade de isso acontecer, muitos aceitam a realidade e passam a encará-la de forma mais positiva, vendo que ter um filho não-biológico também pode ser gratificante.


SERVIÇO:
Luciana Leis - luciana_leis@hotmail.com
Clínica Gera - www.clinicagera.com.br

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