No Maranhão, falta comida para adolescentes presos

Funcionários tem de usar parte do salário para evitar que jovens passem fome. Governo diz que problema é temporário

Wilson Lima, iG Maranhão |

Os adolescentes infratores abrigados no Centro de Juventude Esperança (CJE), na região metropolitana de São Luís, tem vivido um drama. Nas últimas semanas, faltou alimento para refeições básicas, como o café da manhã e o almoço. A direção da unidade, no entanto, afirma que o problema já foi contornado e atribuiu a denúncia a “questões políticas”. No CJE, estão abrigadas aproximadamente 30 adolescentes e jovens de até 21 anos de idade que cometeram crimes em todo o Estado.

Desde o início do ano, conforme denúncias do Conselho Estadual da Criança e do Adolescente (Cedca), os adolescentes enfrentam racionamento na alimentação da unidade. Os lanches matutinos e vespertinos foram cortados. Conforme informações de funcionários do CJE, em um dos dias faltou pão para o café da manhã dos adolescentes. Os próprios funcionários realizaram uma arrecadação improvisada para comprar pão para os internos.

Em outro dia, faltou arroz e, mais uma vez, para complementar o almoço dos internos, os próprios funcionários foram obrigados a fazer uma arrecadação. Houve até servidor que conseguiu doações da comunidade onde está abrigada o CJE. “A situação é insustentável e humilhante. O Estado quer que adolescentes corrijam seus erros, mas mão não se corrige. Os funcionários, em atos de amor e solidariedade humana, estão garantindo a precária alimentação dos adolescentes”, descreveu um funcionário por meio de e-mail que preferiu não se identificar com medo de retaliações.

Um outro funcionário, que também preferiu não se identificar, confirmou. “O mais triste disso tudo é que houve adolescente que reclamou para gente que estava com fome. Até mesmo no almoço a quantidade de comida dada nessa semana foi menor que em outros tempos. Eu não tenho obrigação de manter os adolescentes. Mas, com pena, tirei do meu bolso para garantir ao menos alguma coisa”, disse.

O presidente da Comissão de Direitos Humanos (CDH) da Ordem dos Advogados do Brasil do Maranhão (OAB-MA), Antônio Pedrosa, afirmou que a licitação realizada para fornecimento de alimentos na Funac garante o fornecimento da alimentação em caráter integral até o dia 20 de cada mês. Ele alega que o orçamento da Funac (Fundação da Criança e do Adolescente), entidade responsável pela manutenção do CJE, foi reduzido em aproximadamente 70%.

Representantes do Cedca e de uma outra entidade, o Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente Marcos Passerini (CDMP), visitaram o CJE e confirmaram a escassez de comida no local.

Segundo a presidente do Cedca, Elisângela Correia Cardoso, essa não é a primeira vez que funcionários denunciam falta de comida na unidade para os adolescentes “No ano passado, também houve denúncias de escassez de comida no Centro de Juventude Esperança. Isso é o de menos. Em uma década, 12 internos já morreram lá dentro”, resignou-se. “Existe adolescente que sempre pretende fugir por causa destas péssimas condições de abrigo do CJE”, complementou a coordenadora do CDPM, Maria Ribeiro.

O diretor do CJE, o capitão da Polícia Militar do Maranhão Jorge Araújo, admitiu que houve necessidade de “reforço” na alimentação dos adolescentes, mas negou que algum deles tenham ficado com fome, como descreveram os funcionários. “Estamos em um processo de transição da gestão da Funac, responsável pelo CJE. Por isso enfrentamos algumas dificuldades”, disse.“Houve a necessidade de se cortar os lanches e, depois, precisamos complementar café e almoço. Mas essa questão já foi resolvida. Agora, falar que adolescente passa fome lá é tratar a questão de forma política. Nenhum adolescente está com fome por lá”, atacou Araújo.

Já o Secretário de Desenvolvimento Social do Maranhão do governo de Roseana Sarney (PMDB), Francisco Gomes, alegou, durante reunião realizada na quinta-feira pela noite, que haverá uma revisão dos contratos com a empresa que fornece alimentação para a Funac. No próximo dia 25, haverá uma outra reunião para discutir os problemas denunciados no CJE.

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