Niemeyer desiste de projeto de praça na Esplanada

SÃO PAULO - Após a polêmica sobre a construção da Praça da Soberania na Esplanada dos Ministérios, o arquiteto Oscar Niemeyer escreveu um artigo em que se propõe a encerrar a questão e colocar de lado o projeto.

Redação com Agência Estado |

O texto, publicado nesta quarta-feira pelo jornal "Correio Braziliense", é o quarto escrito pelo arquiteto sobre o assunto nos últimos 14 dias.

Na semana passada, o Ministério Público Federal deu prazo de dez dias para que o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM), e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) expliquem em detalhes o projeto da Praça da Soberania, inicialmente prevista para ser construída na Esplanada dos Ministérios, um local proibido para edificações pelo decreto de tombamento da cidade.

Anunciado com estardalhaço pelo governo local, o projeto, desenhado por Niemeyer, construtor da cidade, previa, além da praça, um obelisco triangular de cem metros de altura, o mais alto de Brasília, e um estacionamento subterrâneo para 3 mil veículos.

AP
Projeto da Praça da Soberania feito por Oscar Niemeyer

A obra foi duramente criticada por arquitetos, insatisfeitos com a exclusividade de Niemeyer nas obras de Brasília e por segmentos da cidade, que temem a introdução de obstáculo visual num dos principais cartões postais da cidade, o Congresso Nacional.

No artigo desta quarta-feira, Niemeyer reforça a importância da praça, mas acata a falta de dinheiro alegada pelo governador para não prosseguir com o projeto. Leia o texto na íntegra:

"Dois ou três dias atrás era com entusiasmo que eu acompanhava, nos jornais, as discussões surgidas em torno da possibilidade de se inserir em Brasília a nova praça que projetei. Uma praça monumental, tão bonita que, acreditávamos, daria ao Plano Piloto a importância desejada.

Sabíamos que essa obra em nada prejudicaria o Plano Piloto, que, ao contrário, garantiria a esta capital o estacionamento para 3.000 carros que faltava. E parecia-nos ver a praça já construída, tendo, de um lado, o prédio baixo e sinuoso correspondente ao Memorial dos Presidentes, e, no centro, um grande triângulo destinado a uma exposição permanente sobre o progresso de nosso país triângulo que, pouco a pouco, se ia transformando no monumento principal da cidade.

E foi com a apresentação desse projeto que há várias semanas uma polêmica se estendeu, ocupando os jornais. Confesso que eu não esperava tanto apoio dos que sobre a questão se manifestaram. Na verdade, alguns dos mais conhecidos arquitetos que atuaram em Brasília acorreram a me prestigiar, inclusive Lelé, que para mim telefonou esta manhã dizendo: Oscar, estou doente, febril. Mas, se você precisar de mim, é só me ligar.

E foi diante dessas provas de grande amizade que li nos jornais que o governador José Roberto Arruda, por falta de verba e de tempo, reconhecia ser agora impossível realizar a construção da praça que tanto desejava.

Com pesar nos reunimos, eu e meus companheiros de Brasília, para avaliar o que se passava. E chegamos à conclusão de que o governador do Distrito Federal não teria, como nos comunicou, condições para executar aquele projeto que tanto o empolgava.

O que fazer? O único pensamento que nos ocorria era, compreensivos, agradecer o apoio que o governador, com inegável interesse, nos dera e pôr de lado provisoriamente a idéia que muito nos entusiasmara. O projeto continuaria a ser desenvolvido normalmente, na esperança, quem sabe, de um dia a sua realização tornar a ser cogitada.

Confesso que, ao tomar esta decisão, alguns dos meus companheiros pareceram magoados, embora sentisse em todos e em mim mesmo um certo alívio em pôr um ponto final a essa celeuma que tanto nos ocupara.

E compreendi que esta noite, mais tranquilo, voltaria à leitura de A viagem do elefante, que Saramago, esse grande escritor português, tão gentilmente me enviou. E amanhã, terça-feira [ontem], vou assistir com os meus amigos às aulas de cosmologia e filosofia que há cinco anos o físico Luiz Alberto Oliveira ministra para nós, fazendo-nos sentir que o que mais importa não são as tarefas que às vezes com sucesso realizamos, mas sim a luta por um mundo mais justo e solidário que nos ocupa, e que um dia, mais próximo do que imaginamos, se tornará realidade."

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