RIO DE JANEIRO ¿ O médico infectologista José Cerbino Neto, do Instituto de Pesquisas Evandro Chagas (Ipec), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), disse nesta quarta-feira que não há motivo para alarme em relação ao caso do sul-africano que morreu ontem no Rio vítima de febre hemorrágica. Segundo o especialista, existe a suspeita de que a morte do estrangeiro tenha sido causada por um vírus da família arenavírus, mas as hipóteses de leptospirose, hantavirorse e hepatite viral não foram descartadas. Os resultados preliminares dos exames que estão sendo feitos na Fiocruz com as amostras de sangue da vítima devem ser divulgados dentro de quatro dias.

Acordo Ortográfico

De acordo com o Ministério da Saúde, o empresário sul-africano, de 53 anos, chegou ao Brasil no dia 23 de novembro para ministrar um treinamento em um hotel no Rio. No dia 25, ele apresentou os primeiros sintomas de doença febril hemorrágica e, na última sexta-feira, o empresário procurou o Hospital Barra D´or, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, e, logo depois, a Casa de Saúde São José, no Humaitá, zona sul da cidade. O Ministério da Saúde informou que o paciente apresentava um quadro clínico de febre, calafrios, vômitos, sangue na urina, aumento do fígado e pequenas erupções na pele.

Peter ilicciev

"Não há motivo para alarme", diz médico

Para Cerbino Neto, as suspeitas de dengue, malária e ebola já foram descartadas. Segundo o infectologista, a literatura científica mundial registra 16 relatos de infecção por arenavírus. Todos os casos foram importados da África, ou seja, os indivíduos infectados viajaram do continente africano para outros lugares. O médico chamou a atenção para o fato de que nas localidades para onde foram esses pacientes, não houve registro de transmissão da doença.

"Temos 16 casos na literatura internacional de arenavírus fora da África, todos de pessoas que vinham do continente africano. Em nenhum deles houve transmissão inter-humana. Por isso não se justifica o pânico", afirmou Cerbino Neto, completando que as infecções por arenavírus são casos isolados e, portanto, não representam risco real de epidemia.

Arenavírus

Infecções por vírus da família arenavírus são raras e produzem um quadro febril hemorrágico, em geral, com evolução rápida e grave. Essa infecções podem levar a óbito de sete a dez dias após o aparecimento dos sintomas. De acordo com Cerbino Neto, não há motivo para alarde porque a transmissão não se dá pelo ar. Ela ocorre por contato com secreções ¿ urina, fezes, vômito e saliva ¿ de roedores, animais que funcionam como reservatórios dos arenavírus.

Dentro da família dos arenavírus, aquele que provoca o maior número de casos de infecção é responsável por uma doença conhecida como febre de Lassa e verificada na África. No entanto, os arenavírus não são originários apenas do continente africano. Pesquisas mostram que existem representantes dessa família de microorganismos na América do Sul, em países como Venezuela, Bolívia e Argentina. No Brasil, anos atrás, em uma ocorrência no Norte do País, foi descoberto um representante dessa família e que recebeu o nome de vírus Sabiá.

Para Cerbino Neto, a suspeita de que a morte do sul-africano tenha sido causada por um arenavírus se deve ao fato de que existe uma história que pode ligar este caso a outros relacionados a esta família de vírus. Há informações de que o sul-africano foi submetido a uma cirurgia ortopédica num hospital da África do Sul, recentemente, onde houve ocorrência de infecções provocadas por arenavírus. O primeiro caso foi o de um trabalhador proveniente da área rural da Zâmbia, seguido por quatro profissionais de saúde que o atenderam na África do Sul e adoeceram após esse contato. Três deles morreram.

"Seria esse o vínculo epidemiológico e por isso suspeitamos que essa tenha sido a causa de sua morte, embora o resultado dos exames preliminares só fique pronto dentro de quatro dias, declarou o especialista.

Transmissão

Segundo o médico, a transmissão do arenavírus entre seres humanos é menos comum, mas pode ocorrer também por contato com as secreções das pessoas doentes. Ele lembrou, entretanto, que uma pessoa infectada só transmite o vírus se ela apresentar sintomas. O infectologista explicou que os passageiros que estavam no mesmo vôo do sul-africano não correram risco, pois, durante as viagens, ele ainda não apresentava sintomas. Da mesma forma, os pacientes que estiveram nos mesmos hospitais onde o empresário foi atendido também não foram expostos a riscos.

Para o especialista da Fiocruz, só é necessário o monitoramento dos indivíduos que possam ter tido contato direto com as secreções do sul-africano, como os profissionais de saúde que cuidaram dele. Esses já estão recebendo o devido acompanhamento das autoridades de saúde.

O corpo do sul-africano permanece numa área isolada da Casa de Saúde São José lacrado em um caixão de zinco. O Consulado da África do Sul aguarda as impressões digitais e uma cópia do passaporte empresário para localizar a família da vítima. Só então será decidido se o corpo será cremado aqui no Brasil ou levado de volta à África do Sul.

Veja também:

Leia mais sobre: febre hemorrágica


    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.