O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, estreou hoje em grande estilo em uma seara pouco usual em sua agenda, o meio sindical. Atendendo a um convite da União Geral dos Trabalhadores (UGT) - que no início do ano exigia ser recebida por Meirelles para expor suas preocupações com o aumento do desemprego no Brasil e, sem sucesso, chegou a ameaçar invadir a sede do BC - Meirelles conseguiu arrancar dos sindicalistas efusivos aplausos e abraços.

E mais, foi classificado por uma categoria que sempre protestou contra os juros altos de "amigo dos trabalhadores".

O próprio presidente da UGT, Ricardo Patah, foi o porta-voz da mudança de postura da categoria com a autoridade monetária. Ao anunciar o pronunciamento de Meirelles, Patah disse que os sindicalistas precisariam rever as palavras de ordem proferidas contra Meirelles no caminhão de som do sindicato, inclusive as ameaças de invasão ao Banco Central, e elogiou: "Nós vamos ouvir o presidente do Banco Central, nosso companheiro e amigo Meirelles, que agora é amigo dos trabalhadores também. O Meirelles quer emprego pro povo, pessoal."

Meirelles foi convidado para falar, principalmente, sobre as perspectivas do emprego e da evolução da taxa de juros - classificada pelos dirigentes da UGT como o maior inimigo do emprego. Por isso, ainda que a apresentação tenha seguido o roteiro dos encontros que ele mantém com representantes do mercado financeiro, Meirelles deu ênfase especial aos temas de interesse dos trabalhadores, buscando enfatizar os avanços conquistados pelo atual governo nesse quesito, como a criação de 8,650 milhões de empregos formais ao longo do governo Lula. "Dado importante, que dá substância à economia doméstica brasileira, além dos programas sociais", afirmou.

O presidente do BC lembrou também que a massa salarial vem crescendo sistematicamente desde 2003 e, em setembro deste ano, mostrou expansão de 2,5% em termos reais em relação a setembro de 2008, apesar da crise. "Pouquíssimos países do mundo têm a massa salarial crescendo em relação ao ano passado". A renda média - a renda "por trabalhador", como ele explicou -, apesar da crise, teve crescimento real de 2% em setembro deste ano em relação a setembro do ano passado.

Meirelles afirmou que a tendência de longo prazo é de queda. "Existe o ciclo de alta e baixa. Mas a taxa tem tido nos últimos anos uma trajetória cadente. E, na medida em que o Brasil continue com políticas responsáveis, de estabilização, de responsabilidade fiscal, como tem sido mantido nos últimos anos no governo do presidente Lula, de estabilidade também inflacionária, (os juros) têm condições de continuar nessa trajetória no futuro", afirmou.

Nada conservador

Foi nesse ponto que o discurso de Meirelles ganhou um contorno diferenciado das apresentações que ele costuma fazer. O presidente do BC afirmou que o BC não tem sido excessivamente conservador na condução da política monetária - afirmação, no mínimo, pouco usual de se ouvir de qualquer autoridade monetária. E isso pode ser percebido no comportamento da inflação dos últimos anos. Meirelles afirmou que, nos últimos anos, a inflação ficou, na maior parte do tempo, dentro do intervalo superior a meta de inflação (ou seja, entre 4,5% e 6,5%).

"Quando o BC é muito conservador, a inflação fica abaixo da meta, ou no intervalo inferior, o que não aconteceu", afirmou. Outra prova apresentada por Meirelles de que o BC não é excessivamente conservador é a evolução da demanda doméstica, que crescia, em setembro de 2008, início da crise, à taxa de 9,3% ao ano. "Quando o BC é muito conservador, a demanda fica estagnada, como acontecia antes, quando a Selic era de 40%, ou de 20%", afirmou. "Nós vemos a demanda crescer, o que prova que não houve excesso de restrição (pelo BC).

Ao final de sua participação, Meirelles foi questionado por jornalistas sobre a motivação de sua ida ao congresso da UGT. Ele afirmou que, uma das coisas mais importantes em um regime de metas de inflação é fazer esse tipo de palestra a todos os segmentos da sociedade. "É importante que todos tenham acesso às informações sobre os benefícios da estabilidade, sobre o porquê das políticas econômicas e sobre o resultado da política econômica", afirmou. Ele disse que frequentemente fala para diversos tipos de público e que o interesse da UGT em ouvi-lo sobre as perspectivas da economia é bem-vindo.

A receptividade a Meirelles, no entanto, teve limites. O presidente do BC não conseguiu substituir expressões técnicas em muitos momentos de sua apresentação, o que manteve o distanciamento do público com os temas apresentados. Por isso, quando começou a discorrer sobre as condições das reservas cambiais, relação dívida/PIB e índice de Gini, temas frequentes em suas apresentações, parte dos espectadores cochilava.

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