Na tragédia de Marcelândia, destroços, cinzas e fumaça

Fogo consome casas, empresas e automóveis, deixando cenário similar ao de um pós-bombardeio

Danilo Fariello, enviado especial a Marcelândia (MT) |

O cenário de Marcelândia, região da Amazônia Legal, no norte do Mato Grosso, se assemelha a uma cidade bombardeada. Uma cortina de fumaça já é vista da estrada de chão por quem chega de Sinop. O município de 26 anos e 15 mil habitantes, famosa por conta das marcenarias que lhe deram o nome, viu boa parte de seu território consumido por conta de um incêndio.

Casas, galpões, carros, máquinas agrícolas, animais e muita plantação foram incendiados em poucas horas no dia 11 de agosto. Centenas de pessoas foram feridas, mas nenhuma gravemente. Ao todo, 96 famílias perderam suas casas e muitas viram seus empregos virar cinzas com as serrarias. O fogo, segundo dizem por aqui, teve início no lixão mantido pelo município, espalhou-se pelo distrito industrial, onde estão as serrarias, em poucas horas.

A cidade foi deixada de lado entre as prioridades da região no combate ao fogo porque, no ano passado, foram apenas 153 focos de calor detectados pelo satélite, no município-gigante, de mais de 12 mil quilômetros quadrados. Mas, em 2007, os incêndios foram tão ou mais elevados do que neste ano.

Marcelândia é uma das cidades do Mato Grosso onde a tragédia dos incêndios foi pior em agosto. O Estado foi o que registrou maior incidência de focos de calor no mês passado, com 27% das localidades do país, segundo levantamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Trabalho e residência em chamas

No dia 11, José Vitor Ribeiro, de 60 anos, viu um barracão de sua chácara desmoronar. Ele perdeu a plantação e só teve tempo de salvar alguns carneiros. Desde 1984 na cidade, Ribeiro já viu algumas queimadas, mas nunca um incêndio igual ao deste ano. Após a tragédia, foi decretada situação de emergência na cidade e instalada uma brigada federal por lá.

O agricultor Ribeiro pode ser considerado até sortudo na cidade, porque o fogo não chegou à sua casa. Pelo distrito industrial de Marcelândia, onde estão principalmente as marcenarias, vê-se que nem todas as casas foram atingidas. O fogo pulou de um lugar para o outro com os fortes ventos, sendo que, entre dois entulhos que mostram o resto de moradia permaneceu em pé uma casa de madeira intacta.

Antonio Pereira da Silva, de 54 anos, teve menos sorte do que Ribeiro. Enquanto trabalhava numa serraria, viu o fogo avançar e, em vão, tentou combatê-lo. Em alguns minutos, o seu local de trabalho desapareceu no meio do carvão. Das 28 madeireiras da cidade, 15 queimaram completamente. Ao dar o trabalho de contenção do fogo com ramas das árvores como encerrado, Silva voltou para casa e viu a mesma pegando fogo. Deu tempo de entrar, pegar uma capanga com seus documentos, e sair novamente, para as chamas tomarem conta. “E quase não consegui sair, porque o fogo estava por toda a volta da casa.”

Silva, como tantos outros marcelandenses, está morando agora de favor na casa de um amigo, muito próximo do local de onde a sua empresa queimou. “Mas nesta casa aqui Deus colocou as duas mãos e impediu que queimasse, porque todas as vizinhas pegaram fogo.” Ele se apóia agora na aposentadoria por invalidez por conta de um reumatismo, que já tinha, para recomeçar a vida de solteiro na meia-idade.

Arte/iG
Marcelândia fica na Amazônia Legal, no norte do Mato Grosso

Castigo da Natureza

“Parece um castigo pelos tantos anos de agressão à terra da Amazônia pelos madeireiros ilegais, mas, infelizmente, ele veio quando o povo da região já começou a tomar consciência da importância da sustentabilidade”, diz Roberto Vizentin, diretor de zoneamento territorial do Ministério do Meio Ambiente. Em assembleia, boa parte da cidade aprovou a adesão ao programa federal Arco Verde, de manejo sustentável da madeira da Amazônia.

Mas Vizentin se refere aos anos anteriores de desmatamento irresponsável da floresta. Por décadas de exploração e comercialização da madeira indiscrimindas, a cidade acumula montanhas de resíduos, o chamado pó-de-serra. Isso é um verdadeiro barril de pólvora na cidade, nas palavras do prefeito e ex-madeireiro, Adalberto Diamante. Semanas após o incêndio, as montanhas de resíduos continuam a flamejar e jogar fumaça na atmosfera.

Oportunidade na adversidade

Mas Marcelândia já começa sua reconstrução. A prefeitura que construir 100 casas para os que as perderam. Mas o primeiro auxílio veio de doações, mais do que suficientes, que chegaram principalmente da capital, Cuiabá, e do mais importante pólo econômico dos arredores, Sinop, onde ainda estão pela rua faixas com o termo “SOS Marcelândia”.

O desafio agora é evitar novos incêndios como o deste ano, porque os resíduos de madeira continuam a queimar e muitos não foram incendiados, o que aponta o risco permanente. A cidade que já começou a plantar árvores para manejo sustentável do solo agora quer se livrar do pó-de-serra.

A Prefeitura debate com os governos do Estado e federal meios de transportar os resíduos para longe e, no longo prazo, criar uma termelétrica para gerar energia pela queima desses resíduos, como existe em cidades exploradoras de papel e celulose do Sul.

Diamante vê o momento de atenções voltadas para a cidade, com as visitas de Defesa Civil, Unicef, ONGs, deputados e integrantes do Ministério do Meio Ambiente, como uma oportunidade para deslanchar projetos e desenvolver Marcelândia. O município torce pela instalação rápida de uma faculdade técnica agrícola, com especialização na integração lavoura-pecuária-floresta, com apoio da Empresas Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). O espaço para a escola já foi doado. A escola daria um passo importante para Marcelândia deixar de ser tão dependente da exploração da madeira.

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