Na periferia de SP, Mautner é herói da Virada Cultural

No palco do CEU Azul da Cor do Mar, de fundos para a Avenida Jacu-Pêssego, na Cidade A. E. Carvalho, uma espécie de oásis no meio de uma região conflagrada, Jorge Mautner iniciou ontem, às 18h30, um show para uma platéia de 300 pessoas, cuja média de idade estava entre os sete e os dez anos (os adultos não passavam de dez pessoas).

Agência Estado |

A 45 quilômetros do centro de São Paulo, a meia centena de quilômetros dos indies, dos manos, dos eruditos, dos turistas e das meninas de piercing no nariz, o cantor, compositor, escritor e filósofo Jorge Mautner fez um insólito show nesta Virada Cultural.

Mautner, 67 anos, guru tropicalista, não se fez de rogado. De violino em punho, acompanhado pelo violonista Nelson Jacobina, conversou com seu público normalmente, falou do positivismo de Augusto Comte e do niilismo de Nietzsche e tocou de tudo, incluindo Lamartine Babo e Assis Valente. Foi freneticamente aplaudido quando tocou 'O Vampiro' e 'Maracatu Atômico'.

Do disco que fez com Caetano Veloso, ele tocou 'Homem-Bomba', 'Eu não Peço Desculpas' e 'Hino do Carnaval Brasileiro' (Lamartine Babo). "Os garotos não saem do CEU, seu refúgio, em geral, de um ambiente familiar em ruínas", disse a coordenadora de Cultura da unidade, Isabela Oliveira. "Não tem como dizer pra eles 'não venham'. O CEU é deles", disse.

"Foi sublime, superdivino, maravilhoso. Tudo eles acompanharam. Uma alegria, eles se identificam", afirmou o veterano cantor após o show. Mautner contou que mudou o repertório para seu público especial, incluindo canções mais lúdicas, como 'Sapo Cururu', 'Manjar de Reis' e 'Samba dos Animais'.

Na periferia, a Virada Cultural foi feita de atitudes heróicas e profissionais, como essa de Mautner, que tirou de letra uma situação quase de motim no início: parecia que os aviõezinhos de papel iam inundar a sala.

Outro maldito da MPB, Jards Macal, também foi exilado do centro expandido e dos cachês mais polpudos e foi escalado para tocar às 19 horas no CEU São Mateus, no Parque Boa Esperança.

Vanguart

No Centro, entre dois quarteirões de música eletrônica, no Pátio do Colégio, a noite era dos indies. O palco dos independentes atraiu os garotos do rock indie em massa à região, que esperava com ansiedade por uma banda, os mato-grossenses do Vanguart.

Incrível como eles já se tornaram adorados por esse público, que cantou a plenos pulmões o refrão de seu maior hit, 'Semáforo': "Todos meus amigos fumam, todos meus amigos querem morrer". Eles fizeram um show curto, mas certamente o mais vibrante até o início da noite.

Os doidos de pedra do centro, sem-teto e desdentados em geral se misturaram ao público ultrabonito e jovem. O catador de latas dançou com os garotos de calça muito apertada e tênis All Star. O boteco cujo vaso sanitário não tem descarga vendeu todo seu estoque de cerveja.

A Guarda Civil Metropolitana fazia blitze surpresa para apanhar os ambulantes que tentavam montar suas bancas nas imediações do Centro Cultural Banco do Brasil.

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