Na Flip, Tom Stoppard celebra amor aos palcos e censura programação dos teatros

PARATY ¿ Uma das principais atrações da 6ª edição da Flip, o dramaturgo britânico Tom Stoppard falou sobre sua maior paixão no final da manhã desta quinta-feira (03), por sinal, seu aniversário: o teatro. Aos 71 anos, descontraído, sem nenhuma obra para promover na festa a não ser seu legado, fumou na maior parte do tempo da conversa com a imprensa e discorreu sobre suas impressões da arte nos palcos, além de lamentar o papel da economia na febre dos musicais que varre o mundo.

Marco Tomazzoni |

Antes de mais nada, Stoppard esclareceu que, apesar de estar em uma evento literário, nunca escreveu uma peça pensando no leitor. "O teatro é um animal", definiu. "Você está descrevendo um evento que ainda não aconteceu e então uma coisa estranha acontece: ele deixa a mesa do escritor e passa a acontecer, a ser encenado para um grande grupo."

"Entretanto, o texto que chega aos palcos nunca é o mesmo que entreguei ao diretor", continuou. "É uma construção tão íntima quanto a poesia, mas, quando termina, ganha outra conotação. E é justamente isso que eu gosto no teatro, ele adentra um mundo pragmático."

Unanimidade nos países de língua inglesa, Stoppard é mais conhecido no exterior pelos roteiros em que trabalhou, como "Império do Sol", "Brazil" e o oscarizado "Shakespeare apaixonado". Suas peças em geral são sucesso de público e surpreendem por trazer referências à alta cultura, caso da filosofia de Hegel e do novelista russo Ivan Turgenev em "The Cost of Utopia", trilogia sobre idéias radicais do século 19, encenada recentemente em Nova York.

Questionado sobre a dificuldade dos espectadores em perceberem essas citações, Stoppard disse que isso não o incomoda. "Só um maluco cogitaria escrever algo que o público não entenderia. Minhas peças têm referências que nem todas as pessoas captam, mas são suficientes em si. Quando 'The Cost of Utopia' estreou, o New York Times publicou uma lista de 12 livros necessários para entender a peça. Não gostei nada disso. Era uma lista boa, mas talvez para ler depois de assistir à peça."

Economia dita a programação

Sobre a nova geração de escritores, o dramaturgo apontou que, pelo menos na Grã-Bretanha e no Estados Unidos, os jovens autores ainda procuram produzir almejando os teatros. Como exemplo, citou a demanda dos palcos londrinos. Segundo ele, em sua época existiam seis salas marginais, pequenas. Hoje, no entanto, arriscou dizer que esse número passa de 60.

Apesar disso, lamentou a mudança na programação dos espaços teatrais da capital britânica. "A grande tragédia é que a economia está contra o bom teatro e tem definido sua forma, de forma bem literal. Em Londres está ocorrendo agora uma mudança nas grandes salas, como aconteceu em Nova York, que, por motivos econômicos, optam por exibir musicais. Não acredito em hierarquias ¿ um bom musical é tão valioso quanto qualquer outra coisa ¿, mas, para meu gosto, falta espaço para o drama, e até para comédias mais sérias."

Atualmente, Stoppard afirmou que está trabalhando em traduções e, embora quisesse, no momento não está escrevendo nenhuma peça. "No teatro, não basta ter uma opinião. Se esse fosse o caso, eu poderia ter uma coluna em um jornal ou revista ao invés dos palcos e escrever uma peça hoje mesmo. Há uma contradição: por um lado, existe a realidade concreta, que se passa em uma estrada, cozinha, qualquer lugar, que é a parte difícil. A parte fácil é achar o tema da conversa, que pode ser qualquer coisa, o Iraque ou o aquecimento global. A magia do teatro é como essa realidade lida metafisicamente com esses assuntos."

Atração da noite de sábado, às 19h, na Tenda dos Debates, quando falará um pouco sobre sua vasta trajetória, Stoppard também estará na mesa de encerramento da Flip, em que convidados lêem trechos de suas obras favoritas. O autor já adiantou que lerá trechos de "In Our Time", coletânea de contos e vinhetas de Ernest Hemingway, porque consegue imaginar as frases do norte-americano "atravessando a fronteira para uma outra língua e perdendo muito pouco".

Quanto à idade e ao aniversário, falou sobre os filhos e usou a televisão para exemplificar como lida com o tempo agora que está "um ano mais perto da morte". Stoppard comentou que, apesar de admirar alguns trabalhos feitos para a tevê, se limita a assistir aos programas em DVD. "Minha rotina se divide entre trabalho e família. Para ter tempo, tenho que cortar alguma coisa e, em geral, é a TV. Se eu lesse dez horas por dia até o fim da minha vida, não chegaria a um centésimo dos livros que tenho em casa que gostaria de ler. Por que, então, ver televisão?".

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