Músico viaja do popular ao erudito em novo trabalho

Aos meia dois anos (ele se nega a dizer 62 anos), Mário Lúcio Marques - que fez o arranjo vencedor da música Mira Ira, de Vanderlei de Castro e Lula Barbosa, no Festival dos Festivais de 1985 -, está em processo de criação de músicas que mesclem o erudito ao popular, compondo para o trio erudito Image, formado por Cecília Guida (violino) Henrique Müller (Viola) e Achille Picchi (piano). Eu tenho algumas coisas que eu gostaria que eles tocassem, mas também estou compondo para eles.

Agência Estado |

Já falei com Cecília e o Henrique e eles ficam loucos para eu terminar logo. Mas estou só no comecinho", explica.

Com a mão esquerda, o som produzido pelo toque de seus dedos nas teclas traz a sensação de uma música erudita, com alguma sutileza na harmonia que ainda não permite saber para onde vai caminhar a emoção. Mas é a performance dos dedos da mão direita que traz, invariavelmente, a sensação de que os mais puros desejos estéticos do erudito se fundem à pulsação da malandragem do jazz. Sorri após ouvir a pergunta: o que é isso? "Chama-se Âmago. É uma música que fiz nos tempos do Placa Luminosa, dentro do ônibus da banda, que nunca foi gravada. Quero fazer alguma coisa com sinfônica, piano solo. Eu penso no Herbie Hancock tocando com a Sinfônica de Berlim. Ele é budista como eu e estamos mais próximos do que podemos imaginar."

"Âmago" foi uma das músicas que o estimulou a compor para o Trio Image. Um desafio que revela muito de um músico que é síntese da miscigenação e da fusão de sons. Em Poté, Minas Gerais, desde cedo brincava com flautas indígenas, descendente que é de índios botocudos e de homem branco. Na década de 70, integrou o Placa Luminosa já com uma forte pegada funk e soul, que o levou a tocar com Raul de Souza, Ney Matogrosso, Erasmo Carlos, Tim Maia, César Camargo Mariano, até explodir com sucessos da MPB como "Mais uma vez", "Neon", "Velho Demais", tema da novela "Sem Lenço Sem Documento" e "Fica Comigo", da novela "Top Model".

É possível ouvir Mário Lúcio em seu sax, sua flauta ou piano num free jazz pedreira, numa balada romântica, num jazz latino, num rock, num choro, em qualquer nota, qualquer ritmo. E agora, também, nessa sutil intersecção entre o erudito e o popular. "Eu não separo uma coisa da outra. Não existe essa coisa de popular e clássico, existe sim coisa bonita e feia. Tem música clássica enjoativa, tem também chorinho feio. Mas tem até axé bonito! As notas musicais são as mesmas, tanto no erudito como no popular."

Ele também não deixa de lado seus amigos Lula Barbosa e Míriam Miràh, que se religaram na banda Tribo Mira Ira com o lançamento do disco "Viajar" em outubro de 2009, após emocionarem o Brasil 25 anos atrás. Nem a música instrumental, cujo mais novo filho é o disco "Monolito", que começou a ser vendido em novembro do ano passado, com a participação especial do guitarrista Tomati na faixa que dá nome ao trabalho, uma música com frases muito simples, com um ótimo swing jazzístico tupiniquim.

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