Musa de Bergman, Liv Ullman vem ao Brasil para mostra e lançamento de livro

SÃO PAULO ¿ Não lembro de jamais ter usado aquele chapéu. Foi a primeira coisa que Liv Ullman, atriz norueguesa famosa por seus trabalhos com Ingmar Bergman, disse na entrevista coletiva realizada na tarde desta quarta-feira em São Paulo. Ela veio à cidade para prestigiar o relançamento de sua autobiografia, Mutações, e também uma retrospectiva de seus trabalhos no cinema. O chapéu que tanto a incomodou é o que ela usa na foto que está no cartaz da mostra de filmes. É uma foto de muitos anos atrás, atualmente estou muito diferente. Mas, no mundo atual, envelhecer não é considerado apropriado, refletiu. Aos 69 anos ¿ completa 70 no início de dezembro ¿, a atriz garantiu estar muito orgulhosa de sua idade.

Carlos Augusto Gomes |

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Sua autobiografia "Mutações" foi lançada em 1975 e chegou ao Brasil três anos depois. Desde então, jamais ganhou nova edição no país. Segundo Ullman, o livro, mesmo mais de trinta anos depois, ainda é um bom retrato de como ela é. "Hoje talvez escrevesse de uma maneira diferente, mas aquela ainda sou eu. Nós não mudamos tanto assim, afinal", afirmou. O livro a transformou num símbolo feminista em todo o planeta, mas ela garante que esse jamais foi seu objetivo. "Jamais soube que era feminista. Só acho que qualquer pessoa, homem ou mulher, deve ter direitos iguais. E que mulheres devem ser livres para ser mulheres, sem precisar copiar os homens", declarou.

Além do livro, Ullman também comentou os filmes que serão exibidos na mostra em cartaz na Cinemateca. Dos nove títulos, quatro são amostras de seu trabalho atrás das câmeras. É que, apesar de mais conhecida como atriz, Liv tem um trabalho consistente como diretora. Seu maior sucesso, "Infiel" (2000), foi exibido na mostra competitiva do Festival de Cannes. O filme tem roteiro de Ingmar Bergman, diretor com quem ela foi casada e estrelou onze filmes. Seus olhos brilham ao falar do cineasta, morto em 2006. "Ele costumava se sentar ao lado da câmera, para nos ver e escutar. Era como ser observada por alguém que nos ama. Ele era o melhor dos públicos", elogiou.

Não é por acaso que Bergman declarou, há alguns anos, que Liv Ullman era "o seu Stradivarius", numa referência ao instrumento que é considerado o melhor violino do mundo. "Ele realmente disse isso", relembra a atriz. "Outras pessoas garantem que ele também disse isso a elas, mas ele falou para mim", conta. Dos onze filmes do cineasta que ela estrelou, três estão na mostra que começa nesta quinta: "Persona" (1966), "Gritos e Sussurros" (1972) e "Cenas de um Casamento" (1974). Completam a programação o documentário "Liv Ullman - Cenas de uma Vida" (1997) e o raro "An-Magritt" (1969), do diretor Arne Skouen.

Curiosamente, os filmes que Ullman considera seus favoritos não foram dirigidos por Bergman. "Gosto muito de 'Os Emigrantes' e 'A Nova Terra'", revelou, referindo-se aos dois longas que Jan Tröell fez na década de 70. Os filmes contam a história de uma família sueca que emigra para os Estados Unidos. Neles, Liv interpreta uma mãe de família. "Quando era jovem, pensava que podia levar uma vida assim, dedicando-me a apenas um homem, cuidando da casa. Mas hoje sei que isso é impossível", contou. Ela tem certeza que só sabe se expressar através da arte. "Fora dela, sou uma pessoa tímida, desajeitada", confessou.

Liv ainda vai ministrar duas oficinas com estudantes de cinema, na quinta e na sexta. Ela garante que ainda não sabe sobre o que vai falar. "Filmes, diretores, atores. O resto vai depender do que as pessoas perguntarem", brincou. O cinema, ela crê, tem o poder de mudar a vida das pessoas. "Pena que hoje em dia a maior dos filmes fale à parte mais preguiçosa das pessoas. Nós vivemos num mundo muito triste, e o cinema tem que falar sobre isso", disse. Segundo ela, o Brasil é uma das exceções neste panorama preguiçoso. "'Central do Brasil' e 'Cidade de Deus' refletem o mundo em que vivemos. Isso é importante", sentenciou.

A tarde de autógrafos de "Mutações" acontece nesta quinta-feira (09), na Livraria Saraiva do Shopping Ibirapuera, das 17h30 às 19h30. Após a sessão, será exibido o filme "Sonata de Outono", dirigido por Bergman e estrelado por Liv. Já a mostra "Liv Ullman - a atriz, a diretora e seus filmes" começa nesta quinta-feira (09) na Cinemateca Brasileira (Largo Senador Raul Cardoso, 207, Vila Mariana) e vai até o dia 18. Confira a programação completa aqui .

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