Mulheres começam a invadir o clube do bolinha do parkour

Mulheres começam a invadir o clube do bolinha do parkour Por Ciça Vallerio São Paulo, 01 (AE) - Há 3 mil homens praticantes de parkour na Grande São Paulo, mas apenas 10 mulheres. São poucas as que têm garra para se aventurar nesse esporte radical, que consiste em peripécias como escalar e saltar de muros e escadarias, se equilibrar em corrimãos de pontes e viadutos, entre muitas outras loucuras.

Agência Estado |

A meta é ultrapassar obstáculos de um determinado trajeto. Isis, Mariana, Natália e Eliane fazem parte dessa pequena tropa de elite e estão realmente empenhadas em se tornarem referências femininas na modalidade.

Se a atuação dos homens já deixa qualquer um de boca aberta, ver uma mulher executando os movimentos típicos de parkour é de cair o queixo. "As pessoas ficam bem admiradas, inclusive os próprios praticantes", confessa Natália Cruz, de 24 anos, que faz faculdade de Moda. "Nos fins de semana, sempre junta um grupo para treinar em algum lugar da cidade, e todos se encantam com o nosso desempenho."

Por serem peças raras, elas fazem muito sucesso. E merecem mesmo ser festejadas, porque o esporte exige muita força, músculos, agilidade, flexibilidade, bom condicionamento físico e, principalmente, coragem. Esses requisitos tornam-se muito mais desafiadores às mulheres, uma vez que a estrutura corporal feminina não tem o mesmo vigor físico da masculina. Por isso, elas sentem muito mais dificuldade para realizar um movimento.


"O que eles conseguem aprender em um mês, precisamos de três", avisa Mariana Ribas, de 18, que faz Educação Física e trabalha como atendente em uma empresa de telefonia. "Por causa dessas limitações, temos de ser muito mais determinadas que os homens para não desistirmos."

Entrar no parkour é fácil, basta acompanhar a comunidade no Orkut para saber onde o grupo vai se encontrar no fim de semana. O difícil mesmo é permanecer no esporte, depois das muitas tentativas frustrantes. O instrutor dessa modalidade, Leonardo Ribeiro, de 25, mais conhecido por Akira, conta que, geralmente, as praticantes só sentem alguma evolução no esporte a partir de cinco meses. Mais cautelosas, as mulheres falam em oito meses. "Elas realmente sofrem muito mais para treinar e conquistar resultados", afirma Akira. "Mas, após esse período, se sentem mais confiantes e estimuladas a continuar."

Desafios não faltam para essas destemidas e obstinadas "traceurs" - corruptela do verbo francês "tracer", que passou a designar "pessoas que se movem livremente por um percurso". A estudante Isis Ribas, de 17 anos, se entusiasmou com o parkour por causa de seu irmão Zico Correa, de 27, fera no esporte e protagonista do curta-metragem Samparkour, visto no YouTube por quase 15 mil pessoas. Ela entrou para a turma, mas dois meses depois parou.

"Há três anos, havia só homem e preconceito", conta Isis. Era comum escutar provocações do tipo "o que essa mina está fazendo aqui?" Até que criou coragem para voltar. Hoje é considerada a melhor praticante feminina e deixa até alguns homens para trás. Agora, a frase que mais ouve é: "Nossa, olha o que essa mina faz!" Dedicada ao extremo, a garota chega a treinar sozinha até durante a madrugada, numa escadaria perto de sua casa, no bairro do Rio Pequeno, zona oeste.

Apesar de a maioria estar na faixa dos 20 e 30 anos, não é impossível encontrar no meio dessa moçada mulheres maduras. Eliane Mendes Navas tem 40 anos, uma filha adolescente e entrou para essa turma estimulada por uma amiga. "Já tinha ouvido falar, mas não sabia do que se tratava", lembra a oficial-dentista da Polícia Militar.

MÚSCULOS - Está certo que ajudou bastante o fato de ela sempre ter praticado esportes, como corrida e ginástica olímpica. No entanto, como explica Eliane, o parkour tem uma dinâmica e exigência física totalmente diferentes. Com isso, ganhou mais agilidade e muito mais disposição - o que, aliás, já era bem acima da média.

O esporte desenvolve rapidamente a musculatura das mulheres. Isis tem 1,60 metro de altura, 60 quilos de puro músculo e já passou por um dia de Incrível Hulk. "Fui abaixar para amarrar o cadarço do tênis e minha camisa navy justinha rasgou bem nos ombros." Natália, que não sai de casa sem maquiagem, estava ficando tão forte que reduziu seus treinos para não ficar "bombada".

Manter o corpo impecável, porém, não é o objetivo dessa mulherada. O que importa é praticar uma atividade divertida e nem um pouco monótona. Durante os treinos coletivos ao ar livre, a turma se conhece e troca experiências, sempre num clima de camaradagem. Mas o maior prazer delas é o sentimento de superação. "Competimos com nós mesmas", avisa Mariana, que incentivou seu namorado a se tornar um "traceur". "E não tem sensação melhor no mundo do que conseguir realizar um movimento e vencer o medo."

Impossível não sentir um frio na barriga de medo ao tentar se equilibrar nas alturas. Afinal, no parkour existe risco de acidentes sérios. Contusões e lesões fazem parte do cotidiano, principalmente entre aqueles sem preparo físico, que se arriscam sem medir consequências. Embora seja raro, morte não está fora de cogitação. Dor, arranhões e hematomas estão sempre presentes. E de tanto usarem as mãos como apoio, calos brotam nas palmas delicadas das traceurs.

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