Mudar lei a cada novo escândalo é pôr tranca em porta arrombada, diz especialista

Sugerir mudanças na legislação a cada vez que surge um novo escândalo de corrupção é como colocar tranca em uma porta que já foi arrombada. A metáfora é da cientista política Maria Victoria Benevides, professora da Faculdade de Educação da USP e fundadora do PT, partido que criticou duramente durante o escândalo do mensalão e seus desdobramentos.

Ricardo Galhardo, iG São Paulo |

Para ela, bastaria aplicar as leis já existentes. Embora critique as instituições, Maria Victoria lembra que a sociedade brasileira, terreno fértil de uma cultura de corrupção que extrapola a política, também tem culpa pela impunidade.

iG - A criação de novas e mais rigorosas leis ajuda a resolver o problema da corrupção política?

Maria Victoria Benevides ¿ Não. O que precisamos é fazer cumprir a legislação que já existe. Na verdade não precisaríamos de nenhuma lei específica pois os princípios de moralidade pública já estão na legislação que vale para todos os servidores públicos, desde o aquele que está lá embaixo na pirâmide do poder até o presidente da república. O que mais me impressiona é a enorme negligência na aplicação das leis que já existem. Há falta de punição e de controles contínuos. Aí vira aquela coisa de botar tranca numa porta que já está arrombada.

iG ¿ Qual a relação entre a corrupção política e as práticas sociais no Brasil?

Maria Victoria Benevides ¿ Obviamente só podemos falar de corrupção como uma via de mão dupla. Há os que corrompem e os que são corrompidos. Isso envolve a sociedade também. Não é apenas um pecado que atinge o estado ou aqueles que exercem cargos eletivos. É algo que está, infelizmente, na cultura brasileira, na qual permanece com muita força uma visão anti-republicana das relações sociais e da vida pública. Há um desprezo muito grande para a prática cotidiana dos princípios republicanos.

iG ¿ Por que?

Maria Victoria Benevides ¿ A corrupção está na própria essência do capitalismo.

iG ¿ Mas a corrupção não é exclusividade do capitalismo.

Maria Victoria Benevides ¿ Não. Longe disso. Onde falta liberdade também falta controle. Mas a corrupção é intrínseca ao capitalismo que visa acima de tudo a perseguição ao lucro. O que acontece em países capitalistas como os EUA é que lá a cidadania exige punição.

iG ¿ A imprensa brasileira vive denunciando casos de corrupção mas ninguém é punido.

Maria Victoria Benevides ¿ Claro que não. No Brasil há uma desmoralização completa das instituições. E não é só do Executivo mas também do Legislativo e do Judiciário que continua fechado em seu castelo. Mas insisto que esta posição da sociedade diante da corrupção e da falta de ética tem raízes na cultura política brasileira do coronelismo, do clientelismo rural e urbano e principalmente da falta de um associativismo para cobrar. 

iG ¿ O ambiente político está mais deteriorado nos últimos anos?

Maria Victoria Benevides ¿ A corrupção é um fenômeno antiqüíssimo. O que mudou foi a percepção, a divulgação nos meios de comunicação e o impacto que isso provoca. Hoje as coisas estão mais explícitas.

iG ¿ A honestidade está em baixa hoje em dia?

Maria Victoria Benevides ¿ Não. Todas estas pessoas se consideram honestas. Mas permanece uma cultura perversa na qual aquilo que é público não é de ninguém e se não é de ninguém vamos aproveitar enquanto estamos aqui.

iG ¿ O que fazer para melhorar o nível éticos dos políticos?

Maria Victoria Benevides ¿ Participar. Política é como andar de bicicleta, só se aprende na prática.

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