Passados 13 anos do massacre de Eldorado dos Carajás (PA), que vitimou dezenove sem-terra em confronto com a Polícia Militar do Estado, a violência no meio rural brasileiro cresceu muito. De acordo com dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), desde a tragédia no Pará, mais de 414 pessoas foram assassinadas em conflitos no campo, sendo que 227 delas eram sem-terra.

Em entrevista à Agência Estado, o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Vanderlei Martini, fez um balanço da trajetória do movimento desde o massacre de Eldorado.

Martini conta que os últimos 13 anos foram marcados por vitórias do movimento e por regressos na distribuição de terras no País. Desde o massacre, 250 mil famílias já foram assentadas em propriedades ocupadas pelo MST ou cedidas pelo governo federal. Na opinião do coordenador, o número é relevante e bastante animador, mas poderia ser maior. "O governo Lula conseguiu ter um resultado pior do que o do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no que concerne à reforma agrária. É um fracasso do governo. Eles prometeram assentar 550 mil famílias no primeiro mandato do presidente e acabaram dando terras só para 163 mil delas. Isso não dá nem 30%", critica.

O coordenador também aponta a expansão do agronegócio como a maior vilã da reforma agrária nos últimos anos. De acordo com ele, são os latifundiários e as grandes empresas do ramo que governam o País, e não os políticos eleitos. Ainda sobre o assunto, Martini emendou: "É só pegar os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ver quem usou dinheiro dessas empresas para a campanha."

Sobre as declarações do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Gilmar Mendes, em fevereiro deste ano, em que classificou a invasão do movimento a propriedades em Pernambuco e São Paulo como ilegal e cobrou ação mais dura do Ministério Público (MP), o coordenador do MST negou que a ação do grupo tenha sido ilegal e acusou o poder do qual Mendes é autoridade máxima de criminoso.

"Os criminosos são os latifundiários e os grandes produtores", acusou, dizendo ainda que o Poder Judiciário não julga e não condena os assassinatos de membros do MST. De acordo com Martini, de 1985 a 2007, foram assassinados 1.493 sem-terra, mas somente 71 pistoleiros foram condenados e 49 absolvidos. "O Abril Vermelho, além de prestar homenagem aos companheiros mortos no massacre de Carajás, serve também para lembrar a morosidade do Judiciário brasileiro", criticou.

Até hoje, último dia de ações do Abril Vermelho, jornada nacional de manifestos pela reforma agrária, já chega a 11 o número de Estados que registram ocupações desde o início de abril, dentre eles Bahia, São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco. Na noite de ontem, membros do MST ocuparam a sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), em Recife. De acordo com Martini, foram programadas em torno de 100 ocupações este ano. Entre elas, latifúndios no Rio Grande do Sul e Mato Grosso, ocupações urbanas em Minas Gerais e invasão a prédios públicos na Bahia. O líder do movimento diz que cada sede estadual do movimento tem autoridade para escolher quais propriedades serão ocupadas durante o mês de invasões.

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