MPF afirma que houve doações a partidos e superfaturamento na Camargo Corrêa

SÃO PAULO - O Ministério Público Federal (MPF) em São Paulo confirmou, nesta quarta-feira, que a Operação Castelo de Areia, da Polícia Federal, tem como objetivo investigar um esquema de remessa ilegal de dinheiro ao exterior operado por funcionários da construtora Camargo Corrêa. A operação, que investiga remessas de pelo menos R$ 20 milhões ao exterior, resultou na prisão de 10 pessoas.

Redação |

Futura Press
Agente chega à sede da Polícia Federal
De acordo com o MPF, o caso começou a ser investigado em 2008, após uma denúncia anônima recebida em janeiro do mesmo ano.

Segundo o MPF, a investigação encontrou registros de pelo menos uma obra superfaturada, a construção de uma refinaria em Pernambuco. Há também doações ilegais (não-declaradas) e ilegais, do grupo empresarial para partidos políticos.

Ainda é necessário apurar quem foram as pessoas ou campanhas políticas supostamente beneficiadas por essas doações, mas Ministério Público Federal afirma que as escutas telefônicas autorizadas pela Justiça indicam que ao menos três partidos receberam doações.

O MPF também cita a constante movimentação dos investigados para ocultar as remessas, que somam pelo menos R$ 20 milhões. Um dos presos é um doleiro que constituiu uma empresa de fachada em uma estrada de terra no Rio de Janeiro.

Para ocultar o conteúdo das conversas, os envolvidos no esquema utilizavam sistemas de interceptação difícil, como o IP Voip e o Skype, além de sistemas telefônicos criptografados.

Um doleiro suíço, naturalizado brasileiro, falava em códigos com os diretores da empresa. Na nota, o MPF diz que, quando não tratavam diretamente com os diretores, os doleiros conversavam sobre as remessas com as secretárias, que eram responsáveis por receber e remeter, por fax, as ordens e instruções de pagamentos via cabo no exterior em favor da Camargo Corrêa. Elas demonstram conhecer os códigos com nomes de animais. Os mais usados eram coelho, camelo, girafa, canguru e gaivota.

Polícia Federal

Já a Polícia Federal (PF) é mais moderada em sua posição oficial. Sobre o possível superfaturamento de obras públicas e doações a partidos políticos, o delegado regional de combate ao crime organizado de São Paulo, José Alberto Iegas, disse que a investigação foi pautada inicialmente em um crime financeiro de evasão de divisas. "Até o momento, não existe nada que ligue a quadrilha a partidos políticos. O que motivou os pedidos de prisões e buscas foi o crime de evasão de divisas e formação de quadrilha, que é um acessório".

A PF informou que vai deixar sob sigilo valores e a quantidade de remessas enviadas a paraísos fiscais, para que não haja nenhuma precipitação, já que os documentos apreendidos ainda serão analisados. Este valor, segundo o Ministério Público Federal, pode ser de R$ 20 milhões.

Durante a operação e o cumprimento de 16 mandados de busca, foram apreendidos documentos, mídias eletrônicas, arquivos de computadores e cofres.

Quando questionado se o crime pode ser atribuído à empresa, o delegado pondera dizendo que os crimes apurados foram cometidos por "pessoas que ocupam altos cargos na empresa. Seria precipitado atribuir qualquer conduta à construtora".

Até o momento, 10 pessoas foram presas, entre eles quatro diretores e duas secretárias da Camargo Corrêa, três doleiros e um articulador, que não teria ligação com a construtora. A prisão de um diretor e das secretárias é temporária e as outras sete pessoas estão presas em caráter preventivo.

"Perplexidade"

Em nota, a construtora Camargo Corrêa manifestou sua "perplexidade" diante dos acontecimentos. De acordo com o texto da empresa, nesta manhã a sua sede em São Paulo foi isolada pela Polícia Federal, que tinha mandado da Justiça. A construtora disse não saber o teor do processo que autorizou a ação da PF e reiterou a confiança nos funcionários do grupo.

Leia íntegra da nota:

"A Camargo Corrêa vem a público manifestar sua perplexidade diante dos fatos ocorridos hoje pela manhã, quando a sua sede em São Paulo foi invadida e isolada pela Polícia Federal, cumprindo mandado da Justiça. Até o momento a empresa não teve acesso ao teor do processo que autoriza essa ação.

A Camargo Corrêa ressalta que cumpre rigorosamente com todas as suas obrigações legais, gerando mais de 60 mil empregos no Brasil e em 20 países em que atua. Em 2008, o Grupo faturou cerca de R$ 16 bilhões, gerando riqueza ao País e às comunidades em que suas empresas estão inseridas.

O Grupo reafirma que confia em seus diretores e funcionários e que repudia a forma como foi constituída a ação, atingindo e constrangendo a comunidade Camargo Corrêa e trazendo incalculáveis prejuízos à imagem de suas empresas."

*Colaboraram Carolina Garcia e Danielle Ferreira

Assista abaixo ao vídeo sobre a operação:


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