MP do Pará investigará vídeo usado em absolvição de fazendeiro

Por Maurício Savarese SÃO PAULO (Reuters) - O Ministério Público do Pará vai investigar como foi produzido e por quem foi financiado um vídeo no qual um dos condenados pelo assassinato da missionária norte-americana Dorothy Stang, morta em 2005, inocenta o fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura da acusação de ser o mandante do crime, disse o promotor Edson de Souza.

Reuters |

O fazendeiro, conhecido como Bida, foi condenado a 30 anos de prisão em um julgamento no ano passado, que foi anulado por questões técnicas. Em nova deliberação na terça-feira, Vitalmiro foi absolvido com a ajuda de um vídeo gravado em 2006 dentro da penitenciária onde está preso Amair Feijoli da Cunha, acusado de contratar os pistoleiros que mataram a freira.

O vídeo foi gravado antes do primeiro julgamento do fazendeiro, durante o qual o mesmo Amair Feijoli da Cunha afirmou que recebeu 50 mil reais de Bida para intermediar o assassinato da freira.

'Estamos instalando um inquérito para saber quem autorizou a entrada dessa equipe de filmagem e qual foi o motivo pelo qual a defesa do Vitalmiro, provavelmente sabendo que esse vídeo existia, não o utilizou no julgamento em que ele foi condenado', disse à Reuters por telefone, nesta quinta-feira, o promotor, que liderou a acusação no julgamento que absolveu Bida.

'Não tem justificativa para que dentro da prisão entrasse uma produtora de vídeo antes do primeiro julgamento para fazer uma entrevista extensa e totalmente contrária ao que disse o Amair no julgamento posterior e isso acontecer à revelia da Justiça, que só tomou conhecimento disso há pouco', completou.

Durante o julgamento desta semana, a defesa do fazendeiro apresentou o vídeo a Amair, que, aos prantos, disse ter sido coagido a apontar o fazendeiro como mandante do crime. O executor da missionária, Rayfran Sales, também isentou o fazendeiro de culpa pelo crime, contradizendo o que declarara anteriormente.

O MP do Pará também investiga a suspeita de que Vitalmiro pagou cerca de 100 mil reais a Amair 'por uma dívida antiga ou para adoçar a boca dele, que foi o intermediário do crime, para voltar atrás no depoimento' que ajudou a condenar Bida em 2007, disse o promotor.

'Como é que estando os dois presos um pagaria dívida com o outro? Ainda mais no caso do Vitalmiro, quando a dívida é exatamente com seu maior acusador?', disse o promotor. 'A suspeita é forte de que o vídeo era uma moeda de troca.'

Vitalmiro ficou preso por mais de 3 anos até ser libertado nesta semana. Amair segue preso, assim como os assassinos da irmã Dorothy --Rayfran e Clodoaldo Carlos Batista.

JULGAMENTO

Em 12 de fevereiro de 2005, a missionária de 73 anos foi morta com seis tiros, perto de Anapu, oeste do Pará.

Naturalizada brasileira, ela morava havia mais de 20 anos na região, ajudando agricultores ameaçados por fazendeiros e madeireiros ilegais.

O promotor se disse contrariado pela decisão da Justiça de libertar Vitalmiro, mas ponderou que respeita a decisão. Já a Comissão Pastoral da Terra (CPT), que tinha vínculos com a missionária, afirmou em nota estar convencida de que Amair foi subornado para ajudar a isentar o fazendeiro.

A CPT afirmou também que pode denunciar o Judiciário brasileiro à Organização dos Estados Americanos (OEA) por aquilo que chama de impunidade com as vítimas de conflitos agrários.

Mais tarde nesta quinta-feira, o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e ministro da Defesa, Nelson Jobim, mostrou reação diferente.

'Absolutamente (não fiquei surpreendido). Tive longas experiências no Tribunal do Júri e sei perfeitamente que essas coisas acontecem. Isso faz parte das instituições democráticas', disse Jobim a jornalistas no Rio de Janeiro.

(Reportagem adicional de Rodrigo Viga Gaier no Rio de Janeiro)

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