¿Movido a desafios¿, Fernando Meirelles promove adaptação de Saramago em São Paulo ao lado de Julianne Moore

SÃO PAULO ¿ Desde que foi lançado, em 1995, o livro ¿Ensaio sobre o Cegueira¿, do português José Saramago, virou best-seller e ajudou o escritor a conquistar o Prêmio Nobel de Literatura. O trabalho para transformá-lo em um longa-metragem, tarefa considerada para muitos impossível, começou quase simultaneamente, e chega na reta final daqui a duas semanas, quando o filme homônimo aterrissa nas telas brasileiras pelas mãos de Fernando Meirelles (¿Cidade de Deus¿, ¿O Jardineiro Fiel¿), o capitão dessa empreitada. Para promover a estréia, agendada para 12 de setembro, o cineasta participou nesta segunda-feira de uma coletiva de imprensa em um hotel da capital paulista, acompanhado das atrizes Julianne Moore e Alice Braga, além de produtores e outros membros da equipe técnica. São Paulo, aliás, serviu, juntamente com Montevidéu e Ontário (Canadá), como locação para diversas das cenas, o que possibilita aos paulistanos a oportunidade de identificar lugares famosos da cidade.

Marco Tomazzoni |

Além de promover o longa de Meirelles, Julianne
Moore tirou férias com os filhos no país / Reprodução

Confiante, aparentemente aliviado, Meirelles respondeu às perguntas com precisão, talvez por acabar, enfim, um projeto complexo ¿ o brasileiro deixou bem claro aos jornalistas que adaptar a obra de Saramago não foi nada fácil. A história, com tintas de fábula, conta como uma inexplicável epidemia de cegueira atinge uma cidade e depois se espalha pelo planeta, trazendo o caos à população. Julianne Moore interpreta a mulher do médico quem primeiro detecta a enfermidade e é a única a não ser infectada, mas que segue junto com o marido para uma quarentena imposta pelo governo para tentar barrar a disseminação da doença. No elenco, Mark Ruffallo, Danny Glover, Gael García Bernal e a dupla de japoneses Yusuke Iseya e Yoshino Kimura. A prova de fogo do roteirista Don McKellar (que também atua no filme) foi tornar palpáveis personagens sem nome, numa trama situada em lugar e tempo indeterminados.

Foi um exercício instigante, resumiu Moore. Simpática e solícita, a atriz norte-americana indicada ao Oscar por As Horas e Longe do Paraíso contou que adora o Brasil, tanto que desta vez veio de férias e passou alguns dias com os filhos na Amazônia. Ao lembrar sua preparação para o papel, além de adiantar que desde o início aceitaria qualquer trabalho que Meirelles lhe oferecesse, disse que ao ler o roteiro e depois o romance percebeu que a narrativa de Saramago se aproxima da vida real, já que os personagens são apresentados ao leitor pelo que fazem, não pelo que pensam ¿ toda a narrativa é feita de forma direta, sem discurso interior. Uma característica de Fernando com o elenco em seus filmes é que ele não vê as pessoas como atores, mas como elas não na realidade, arrematou, traçando um paralelo.

Sempre fui movido a desafios, explicou Meirelles. Fiz na favela um filme que ninguém queria ver [Cidade de Deus, que se tornou uma das maiores bilheterias brasileiras no país e exterior]. Depois, fui filmar na África, dando um passo maior do que podia [O Jardineiro Fiel]. Eram filmes baseados na realidade, quase documentários. E agora acabei de fazer um sobre uma doença que não existe, com base nenhuma, sem personagem, referência de nada. Agora meu próximo filme vai ser bem fácilzinho, uma comédia, brincou.

Um dos problemas do diretor foi ilustrar a cegueira branca, forma como a epidemia ficou conhecida, já que, ao invés da escuridão, os infectados vêem apenas claridade, como se estivessem sob um holofote. Para situar o espectador nesse mundo claro, mas à cegas, Meirelles e o diretor de fotografia César Charlone abusaram de imagens saturadas, fora de foco, planos mal-enquadrados, reflexos e da descontinuidade entre som e imagem.

"Sortudo", como diz, Fernando Meirelles prepara
minissérie para a TV em 2009 / Reprodução

Outro empecilho foram seqüências impactantes, que na transposição para as telas acabaram causando desconforto e até indignação no público em exibições teste. Uma passagem de estupro coletivo, por exemplo, acabou fora da montagem final. Como era muito forte, a cena, ao invés de ajudar, desconectava o espectador da filme e só fazia com ele ficasse contra o diretor, explicou Meirelles. Segundo ele, a versão atual de Ensaio sobre a Cegueira é a décima quarta, diferente até daquela exibida na abertura do último Festival de Cannes, em maio. O diretor já adiantou, no entanto, que os mais de 40 minutos excluídos vão acabar entrando no futuro DVD do filme.

Apesar do longa ter um orçamento de US$ 25 milhões, estratosférico para uma produção nacional, Meirelles deixou claro que trata-se de uma produção independente, não hollywoodiana, com financiamento do Japão, Canadá e até do governo brasileiro, como provam os  logotipos da Ancine e da Lei de Incentivo à Cultura, que aparecem no início da projeção. Questionado sobre se aceitaria voltar a filmar nas estruturas da Meca do cinema, o diretor disse que prefere se manter em projetos menores e, de vez em quando, filmar em português para a televisão, como é o caso da minissérie Som e Fúria, baseada em Shakespeare e prevista para 2009.

Conforme Meirelles, a opção por roteiros diferenciados, socialmente conscientes ou que questionam a moral e a fragilidade da sociedade, como é o caso de Ensaio sobre o Cegueira, são escolhas naturais, não necessariamente premeditadas. Não diria que sou engajado. Me interesso pelo mundo e filmo os assuntos que mexem comigo. Tenho sorte de fazer o que quero. Sou um cara sortudo, sortudo mesmo.

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