Motoboys: "acidentes fazem parte da nossa vida"

A disputa pelo espaço nas vias dos grandes centro é acirrada. E quem quase sempre leva a pior é o motociclista

Daniel Torres, iG São Paulo |

A disputa por espaço no trânsito faz a relação entre motos e carros ser de adversários. Frase como "eles se acham os donos das ruas", "não respeitam as leis de trânsito" e "nunca dão seta quando vão trocar de faixa" são usadas por motociclistas e motoristas quando tentam se referir ao outro. E, pelas características dos veículos, quem quase sempre leva a pior nesse clima de guerra é o motociclista.

André dos Santos, hoje com 25 anos, voltava para casa para comemorar o título de campeão brasileiro do clube do coração, o São Paulo, em novembro de 2006. "Não fui ao jogo do título porque não gosto de ir a jogos muito lotados. Sempre tive medo de confusão". No cruzamento da avenida Professor Luiz Ignácio Anhaia Mello, na zona leste da capital paulista, enquanto reduzia a velocidade da moto em um cruzamento, já vendo que a luz do semáforo estava vermelha, André não poderia imaginar que 3 anos mais tarde daria uma entrevista por telefone sentado em uma cadeira de rodas. "Sabe quando a gente acha que está tudo indo bem na vida, que não tinha muita coisa para reclamar. Só queria comemorar o título do São Paulo".

Mas uma caminhonete, provavelmente sem ver que o farol da avenida já havia fechado, não conseguiu frear antes do cruzamento e acertou a moto e o motociclista. André saiu do hospital cerca de três meses depois, já no começo de 2007, para recomeçar uma nova vida. "Estou me adaptando ainda. Mas só estou aqui porque estava com capacete, que protegeu minha cabeça. Quando ele bateu na moto, também acertou minhas costas e lesionei a coluna".

AE
A faixa exclusiva para motos que vai do centro da capital paulista à região do Ibirapuera, começou a funcionar nesta quarta-feira, às 6 horas
Acostumado
"A gente se acostumou a ver amigos acidentados e sem poder dirigir mais motos. Acidentes fazem parte da nossa vida, infelizmente", diz o motoboy Darli Andrade Reis, 38 anos. Depois de quase 12 anos fazendo todo tipo de entregas nas seis motos que teve, o mineiro já perdeu a conta de quantas vezes se acidentou. "De bobeira, com acidentes pequenos, nem dá para saber mesmo. Mas dois foram mais sérios. E nem foi por culpa de nenhum motorista", conta.

No primeiro acidente mais sério, Darli diz que não andava rápido, mas estava dirigindo entre dois carros, em uma avenida grande, quando o baú (caixa de entregas) da moto da frente se soltou e caiu na pista. "Não tive como desviar. Se desviasse entraria debaixo dos carros. Atropelei a caixa e fomos deslizando: eu, a moto e a caixa. Juro que consegui ver os carros passando e desviando de mim enquanto deslizava. Parece que fica tudo em câmera lenta mesmo. Me ralei todo e ainda quebrei um braço e machuquei o ombro, que até hoje sinto muitas dores".

Darli superou o acidente e algum tempo depois estava de volta à profissão. Com outra moto e entregando pizzas, ficou no mesmo emprego por três anos. Até que em uma noite de chuva, na zona oeste São Paulo, mais uma queda. "Caí sozinho. A chuva e o óleo da pista me derrubaram. Caí e fui arrastando até bater contra a calçada. Na batida, prensei o pé entre o meio-fio e a moto. Quebrei o pé em quatro partes. Não posso nem mais jogar futebol no fim de semana".

Motorista experiente e cauteloso, o presidente da Associação Brasileira de Motociclistas (Abram), Lucas Pimentel, motociclista desde 1988, também já sofreu dois acidentes enquanto conduzia sua moto. "O primeiro foi por causa de um motorista que usou uma contramão para entrar na garagem. No outro, um carro avançou o sinal e me pegou. Mas não me machuquei em nenhum deles. O segredo da moto é a velocidade e eu não estava rápido em nenhum dos casos", afirmou.

"A pessoa que quer andar de moto tem que entender que precisa ter muita atenção e conhecer técnicas de pilotagem defensiva. Sugiro que faça um curso de pilotagem. As aulas obrigatórias para tirar a carteira não são suficientes”, completou.

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