SÃO PAULO ¿ A 33ª edição da Mostra Internacional de São Paulo, que acontece de 23 de outubro a 05 de novembro na capital paulista, teve recorde de filmes inscritos: mais de 700 produções procuraram participar da competição, voltada para diretores de todo o mundo com até dois longas no currículo. O número de obras brasileiras também foi recorde, com 92 filmes. Mesmo assim, a Mostra ¿ uma das maiores vitrines de cinema no País, ao lado do Festival do Rio ¿ não tem pretensão de crescer e permanece com as mesmas dimensões, ultrapassando 400 filmes.

Não queremos ser o maior de nada, nem do Brasil ou América Latina, afirmou nesta sexta-feira (09) o diretor e fundador da Mostra, Leon Cakoff, durante coletiva de imprensa. Na verdade, queríamos até fazer menor, para ter controle. Mas a gente não consegue, e todo filme tem sua razão de estar na seleção, prosseguiu Renata de Almeida, que divide com ele a direção do evento.

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Ganhador do Festival de Veneza, "Lebanon", do israelense Samuel Maoz, é destaque

Segundo Cakoff, a tarefa também não fica mais fácil graças à atual produção cinematográfica, numerosa e representativa. Este ano não há crise no cinema mundial, seja criativa ou financeira, disse Cakoff. Escolher é a parte mais difícil; de 700 filmes, ficar com 300, uma tarefa incrível.

Isso sem contar a busca incessante da curadoria pelos melhores filmes, em uma corrida contra o tempo para conseguir as cópias antes do início da Mostra. Nessa hora, o emocional fala mais alto que o racional, é paixão de cinéfilo, contou Renata, garantindo que é por isso que a programação tem um caráter tão atual.

Por esse esforço, estão confirmados, por exemplo, o israelense Lebanon, ganhador do Leão de Ouro em Veneza, no mês passado, e Ela, Uma Chinesa, de Xialou Guo, consagrado no Festival de Locarno. Isso sem contar todos os principais vencedores de Cannes: A Fita Branca, de Michael Haneke, na competição oficial; Dente Canino, de Yorgos Lanthimos, na mostra Un Certain Regard; Sanson & Delilah, de Warwick Thornton, vencedor da Camera DOr; e o melhor filme da Semana da Crítica, Lost Persons Area, de Caroline Strubbe.

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Diretor de fotografia de "A Fita Branca", vencedor da Palma de Ouro, estará em SP

Entre os brasileiros, estão os dois longas que participaram do Festival de Veneza deste ano ¿ Insolação, de Felipe Hirsch e Daniela Thomas, e Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes ¿ e algumas surpresas, caso de Os Famosos e os Duendes da Morte, escolhido na noite de ontem como melhor longa-metragem de ficção do Festival do Rio . Fiquei muito surpreendido com a diversidade do cinema brasileiro. Finalmente o nosso cinema reflete a pluralidade de nosso País, comemorou Cakoff.

Este ano, a novidade fica por conta do Prêmio Itamaraty, que reconhecerá os melhores longas nacionais de ficção, documentário e curta-metragem. Apesar disso, Cakoff fez questão de frisar: Não é um concurso, é uma mostra. Paralelamente, também será concedido o tradicional Troféu Bandeira Paulista, entregue ao melhor filme escolhido pelo júri, seja ele brasileiro ou não. Não separamos porque acreditamos que o cinema nacional pode competir igualmente com qualquer filme internacional, explicou Renata.

Ardant e Angelopoulos no Brasil

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Fanny Ardant: atriz francesa vai mostrar
ao Brasil sua estreia como diretora

Mesmo que este seja o Ano da França do Brasil, a Mostra optou por criar uma programação especial para produções da Suécia, pouco vistas no País. Além de diretores contemporâneos, haverá obras reconhecidas, como a do cineasta Hasse Ekman, que teve seu auge na mesma época de outro colega ilustre, Ingmar Bergman.

Apesar da mudança de enfoque, o grande destaque francês, e talvez de toda a Mostra, é a vinda da atriz Fanny Ardant. Além de apresentar seu primeiro trabalho como diretora, Cinzas e Sangue, Ardant será tema de um ciclo com os filmes mais representativos de sua carreira, como De Repente, num Domingo, A Mulher do Lado e O Jantar. Ela não sabe da homenagem, não gosta, comentou Renata. Ardant fez questão de ser convidada como diretora estreante, o que é a cara da Mostra.

Também desembarca em São Paulo o diretor grego Theo Angelopoulos, um dos mais celebrados cineastas vivos no mundo. Ele será tema de uma retrospectiva e apresentará pessoalmente seu último filme, The Dust of Time. Angelopoulos é um grande mestre que, assim como Wim Wenders no ano passado, era um eterno convidado e finalmente pode vir, disse Cakoff. É o mesmo caso do diretor e produtor italiano Gian Vittorio Baldi, pouco conhecido no Brasil, colaborador de grandes nomes com Pier Paolo Pasolini e Alain Resnais.

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Longa "Os Famosos e os Duendes da Morte" está entre os brasileiros selecionados

Outra presença ilustre é a do diretor de fotografia austríaco Christian Berger, parceiro frequente de Michael Haneke, inclusive no premiado A Fita Branca. Berger vai ministrar oficinas para estudantes e profissionais sobre a nova técnica de iluminação que desenvolveu, sem uso de refletor, o que deixa os atores mais confortáveis e utiliza equipe reduzida, como em A Professora de Piano e Caché.

Neste ano, no total 17 salas vão participar do circuito exibidor da Mostra de São Paulo. As novidades ficam por conta da Matilha Cultural e do Cine Marabá, que vão reforçar a presença do evento no centro da capital. A abertura oficial acontece no dia 23 de outubro, no Auditório Ibirapuera, com a exibição de À Procura de Eric, de Ken Loach. A venda de permanentes e pacotes começa no dia 17 de outubro e a programação completa será divulgada um dia depois, no site oficial da Mostra.

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