Mostra de São Paulo presta reverência e entrega Troféu Humanidade a Angelopoulos

SÃO PAULO ¿ Reverência. A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo tirou o chapéu, flexionou os joelhos e prestou na noite desta terça-feira (27), no Cine Bombril, uma homenagem que há anos tentava entregar ao cineasta grego Theo Angelopoulos, e por fim conseguiu. O diretor e fundador do evento, Leon Cakoff, passou às mãos do cineasta o Trófeu Humanidade pelo conjunto da obra, prêmio entregue anteriormente a nomes como Manoel de Oliveira, Eduardo Coutinho e Wim Wenders.

Marco Tomazzoni |

Aos 74 anos, Angelopoulos agradeceu intensamente a honraria, sem deixar de lado o bom humor. "Espero que seja o primeiro de muitos", riu, e de fato não vai demorar muito ¿ ao voltar para a Grécia, vai receber outro prêmio pelas mais de quatro décadas de carreira, isso sem contar os outros que já acumula no currículo, como o Leão de Ouro em Veneza por "Alexandre, o Grande" (1980) e a Palma de Ouro por "A Eternidade e o Dia" (1998).

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O diretor grego Theo Angelopoulos veio a São Paulo receber homenagem

O diretor também veio a São Paulo apresentar seu último longa-metragem, "A Poeira do Tempo", uma viagem não-linear pela história da Grécia pós-Segunda Guerra Mundial através de um cineasta (Willem Dafoe) e seus pais, prisioneiros políticos. Trabalho intermediário de uma trilogia, o filme passeia por Berlim, Roma, Nova York, Toronto, Sibéria e Cazaquistão, périplo que de certa forma ilustra o sentimento do personagem de Dafoe: "Minha vida são as histórias que conto; em qualquer outro lugar, me sinto perdido".

Ao contrário de seu longa anterior, "O Vale dos Lamentos", centrado na Grécia, "A Poeira do Tempo" deixa as fronteiras para trás em busca de uma história grega diferente. "A Guerra Civil na Grécia, depois da Segunda Guerra, fez com que 100 mil pessoas fugissem, boa parte para a Rússia. Quis seguir o itinerário daqueles que continuaram a história da Grécia em outros países." Além disso, Angelopoulos explicou que quis lembrar as raízes do socialismo, a "grande aposta do século 20", na qual milhões acreditavam ser a solução para uma vida melhor. "O filme é uma elegia a essas pessoas, a esses sonhos, e o que acontece daqui para a frente."

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O diretor segura o Troféu Humanidade

Quanto às fronteiras, minimizou o que elas significam fisicamente, mas o que de fato representam. "Nos meus filmes, mostro essas fronteiras, mas não só entre países, e sim entre a vida e a morte, a comunicação entre as pessoas. Na verdade, as fronteiras representam um limite, uma barreira que sempre queremos atravessar, para explorar, conhecer mais, e é por isso que nos comunicamos. As fronteiras são antes entre nós."

Se por um lado os filmes de Angelopoulos são conhecidos pela longa duração, repletos de planos sequência e diversos minutos sem diálogo, por outro comovem pela poeticidade e aura onírica. A inspiração, revelou ele, vem espontaneamente. "Não sei como é, apenas trabalho. Tenho a impressão de que meus filmes pré-existem. É como se alguém estivesse me contando essas histórias e elas crescessem dentro de mim. Simplesmente as realizo quando aparecem."

A situação é a mesma, garantiu, quando o texto não é o escrito por ele, como é o caso do roteiro em que está trabalhando agora. "Mesmo contando a história de outro autor, acabo encontrando minha própria dentro dela."

Theo Angelopoulos acompanha nesta quarta-feira (28), às 19h, a última exibição de "A Poeira do Tempo" na Mostra de São Paulo, na FAAP. Após a sessão, o cineasta participará de um debate com o público. Também é possível assistir a uma retrospectiva com os trabalhos mais representantivos do diretor. Consulte a programação no site oficial da Mostra.

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