Mostra de São Paulo exibe ¿Sinédoque, Nova Iorque¿, o universo segundo Charlie Kaufman

NOVA YORK ¿ Charlie Kaufman, diretor de ¿Sinédoque, Nova Iorque¿, não está tentando ser difícil. Entretanto, tendo em conta que ele fez um filme cujo nome pouca gente consegue pronunciar e que gira em torno de uma trama que ninguém ¿ incluindo ele próprio ¿ consegue explicar por completo, talvez ele seja.

New York Times |

Acordo Ortográfico Porém, esta dificuldade nem é tanto a questão do filme, mas um subproduto do tipo de histórias que ele costuma contar. Kaufman tem uma preocupação permanente em relação à verdade. E em Sinédoque ele lida com a flexibilidade do tempo, clona personagens e castiga as expectativas em um esforço para chegar a algo realmente autêntico.

Charlie Kaufman assume direção
pela primeira vez / Divulgação

Como roteirista de dois filmes indicados e um ganhador do Oscar ¿ Quero Ser John Malkovich, Adaptação e Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, respectivamente ¿ Kaufman já conseguiu uma quantidade significante de aclamação. Levado pelo conceito de uma sinédoque ¿ figura de linguagem em que uma parte representa o todo ¿ ele toma o medo da irrelevância de um homem e desdobra o tema através de um vasto panorama de preocupações humanas. Quando escreveu o roteiro deste filme, Kaufman pensou que Spike Jonze, seu colaborador de longa data, iria dirigi-lo. Mas Jonze estava ocupado e Kaufman decidiu ¿ com a aprovação entusiasmada de Jonze ¿ dirigir um filme pela primeira vez.   

Sinédoque não é bem um filme de um estreante, refletindo o trabalho inábil de alguém que se sinta como tal. Depois de assisti-lo no Festival de Cinema de Cannes deste ano, o critico americano A.O. Scott escreveu no New York Times que Kaufman conseguiu criar uma complicada realidade alternativa perfeitamente consistente. De uma perspectiva cinemática, o filme é uma obra realizada com intensidade que servirá de assunto por muitos anos. Sobre o que as pessoas irão falar, dentre outras coisas? Do que mesmo se tratava o filme?

Resumindo em poucas palavras, Sinédoque gira em torno da vida de Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman), diretor de teatro que trabalha com peças prosaicas na cidade de Shenectady, estado de Nova Iorque. Sua esposa Adele (Catherine Keener) o abandona, condenando o pequeno e tímido homem a seguir uma vida sem jamais fazer algo significativo.

Adele se muda para Berlim com a pequena filha do casal e inicia uma carreira de pintora que a leva à aclamação internacional; enquanto isso, Capen desmorona, com uma doença misteriosa. Certo de que está morrendo, ele diz a seu terapeuta: Gostaria de fazer algo importante enquanto ainda estou por aqui.

Bem, mas não é o que todos nós gostaríamos? Na obra de Kaufman, o desejo de fazer algo puro, algo importante, não é uma questão acadêmica, mas uma atividade primária essencial. E há sempre uma membrana tênue entre a luta que se desenvolve na tela e a luta para colocar aquilo na tela. Sinédoque, Nova Iorque mostra peças e engrenagens rangendo por todos os lados.

No caso de Caden, depois de conseguir algum dinheiro ele se muda para Nova Iorque e encontra um galpão onde constrói um extenso simulacro da cidade ¿ ali um grupo de atores revela os fatos tristes e mundanos da condição humana. Neste filme, a autenticidade é geralmente exposta através de truques: casas que pegam fogo por iniciativa própria, anos se passando em um piscar de olhos, e Caden se vendo subordinado ao mundo que está tentando construir, tornando-se, ao mesmo tempo, Deus e vassalo de sua própria criação.

Até que acendam as luzes da sala, camadas de meta-cinema vão se empilhando, como sacos de pipoca espalhados aos pés do espectador (para ter uma pequena prévia do que irá assistir, acesse o site do filme , que captura um pouco do clima geralmente cômico da empreitada).

Significado de "Sinédoque" permanece obscuro mesmo depois da projeção / Divulgação

Vanguarda da nova geração

Em uma entrevista por telefone em São Francisco, pouco antes de embarcar em um vôo noturno para a Espanha, Kaufman se mostrou contente em falar sobre qualquer assunto, exceto sobre o significado de seu novo filme.  Não sou eu quem irá explicar o filme. Quero que Sinédoque seja algo com o qual as pessoas irão interagir pessoalmente, disse ele.

Mais tarde, talvez em um ato solidário à tarefa de um escritor que tenta descrever algo que vai além de sua compreensão, ele me enviou uma mensagem de texto: Não é somente a peça de Caden que se trata de uma sinédoque, mas qualquer trabalho artístico. É impossível transmitir algo em sua totalidade, portanto, qualquer criação artística é, em grande parte, a representação de um aspecto do que está sendo explorado. Em seguida ele completou, talvez intuitivamente: Quanto à parte deste projeto refletido em Caden, posso ver claramente comparações óbvias, mas eu não sou Caden. Talvez ele represente uma parte de mim e, nesse sentido, ele é uma sinédoque de mim.

Não deixa de ser natural envolver Kaufman em sua própria estória: o filme Adaptação, outro trabalho seu sobre o esforço em criar algo artificial que seja também autêntico, traz um roteirista chamado Charlie Kaufman como personagem. Gosto de criar realidades artificiais, realidades falsas. Então, fazer um filme pode ou não ser o mais adequado para mim, mas é isso que eu faço, disse ele na entrevista por telefone.

Aos 50 anos, Kaufman leva a sério o que faz, talvez porque aos 30 anos ele se encontrava, de uma forma ou de outra, condenado a uma vida prosaica. Depois de fazer diversos curtas-metragens na Universidade de Nova Iorque (NYU), ele se estabeleceu em Minneapolis, onde trabalhou no departamento de circulação do jornal The Star Tribune. As pessoas para quem trabalhei eram legais, mas eu tinha que chegar bem cedo para atender telefonemas de assinantes cujos jornais tinham chegado molhados, ou simplesmente não tinham chegado. Fazia frio, eu tinha de pegar ônibus e eu já estava chegando na idade que talvez o que estivesse fazendo na época seria o que continuaria fazendo para sempre.

Ele decidiu fazer uma tentativa bastante séria de se tornar roteirista de televisão. Em 1990, se mudou para Los Angeles e conseguiu um emprego no programa Get a Life. Enquanto trabalhava na TV também escreveu Quero Ser John Malkovich, que teve a direção de Jonze e recebeu três indicações ao Oscar. A reputação de Kaufman como roteirista incrivelmente criativo estava garantida. Porém, Sinédoque, Nova Iorque irá testar o público de uma maneira diferente de todos seus outros filmes.

Tom Bernard, co-presidente da Sony Pictures Classics, concordou que o novo filme não será para todo mundo, mas disse também que Kaufman tem algumas vantagens em relação à bilheteria. Os críticos irão gostar, assim como o público jovem, que vê Charlie Kaufman como o diretor de vanguarda da geração deles ¿ uma versão atual de Wenders e Fassbinder, afirmou o executivo. Além disso, o filme está cheio de astros do cinema.

Michelle Williams é uma das estrelas
do filme de Kaufman / Divulgação

Troca de papéis

A transição de roteirista para diretor muitas vezes pode ser um passo intimidante, principalmente em um set estrelado por alguns dos melhores atores do momento ¿ além de Hoffman e Keener, fazem parte do elenco Michelle Williams, Dianne Wiest, Jennifer Jason Leigh, Emily Watson e Samantha Morton. Kaufman tem uma desconfiança reflexiva em relação às celebridades: Eles são famosos, e eu sou apenas eu mesmo. Porém, quando chegou o momento de escolher as pessoas para contar sua estória complicada, ele se divertiu em cada minuto do processo.

Levo meu trabalho muito a sério, e tem este sistema estúpido que sugere que o diretor é o autor da obra, enquanto o roteirista não passa de uma figura secundária, disse ele. A questão mais importante não é tentar fazer sucesso, mas apenas dizer que sou um cara esperto, que tem uma boa idéia e conhece o script melhor do que ninguém; então vou seguir adiante com este filme. Poderia até ter sido um fracasso, mas essa realmente não era minha preocupação. 

O produtor do filme Anthony Bregman disse que não tinha dúvidas sobre a capacidade de Kaufman para a direção.  Charlie tem um jeito tímido e quieto, mas é uma pessoa formidável, disse o produtor. Nunca o vi recuar diante de uma briga ou uma controvérsia.

Jonze, outro produtor do filme, não duvidava que seu amigo e colaborador de longa data iria se destacar como diretor. Charlie estudou cinema, disse Jonze, fazendo referência à temporada de Kaufman na NYU. Mas, o que realmente importa é que, quando ele entrava no set e começava a fazer perguntas, ele sabia que tinha as respostas. Para os atores, ele escreve sobre coisas gerais de maneiras muito específicas, criando personagens reais e possíveis, e eles adoram trabalhar em seus filmes.

Hoffman comentou, em uma entrevista por telefone: Certa vez estávamos jantando e ele começou a me contar sobre esse cara chamado Caden, que tinha acabado de fazer 40 anos e tinha um filho, e percebeu que de repente a vida estava passando rápido demais. Eu estava sentado ali, tinha acabado de fazer 40 anos e tinha um filho pequeno¿ Não tive nenhuma dificuldade em me conectar com o que ele estava falando. Ele é um escritor de verdade, alguém que tem a compaixão e a verdade para nunca se acomodar, nunca parar de fazer perguntas.

Envelhecidos, atores passaram por extensas sessões de maquiagem / Divulgação

Um mundo complicado

Historicamente, Kaufman criou estórias que exploram espaços interiores em sua profundidade, geralmente aqueles espaços que separam as duas orelhas. Em Quero Ser John Malkovich, testou idéias sobre identidades ao mergulhar dentro do cérebro de um homem. Em Adaptação, permitiu que a luta solitária de um escritor se desprendesse das páginas e saísse explorando o mundo. Em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, criou um mundo no qual as experiências que nos marcam podem ser apagadas.

Sinédoque, Nova Iorque se afasta significantemente daqueles filmes nos quais o caos da mente é exteriorizado através da arte de Caden ¿ partes da qual vêm a apossar-se dele. Ele acaba se vendo na estranha posição de ter de escalar alguém para viver ele próprio e então encontra Sammy (Tom Noonan), um homem que o vem perseguindo silenciosamente por décadas. Contrate-me e você verá quem você é de verdade, sugeriu Sammy. E quando parece que Caden, e talvez Kaufman também, irá acabar se enterrando em auto-análises, Millicent Weems (representado com magnificência por Wiest) assume o papel de diretor e toma posse de sua obra.

Esse é o tipo de filme no qual os atores não somente precisam saber onde se posicionar e que direção seguir, mas também onde se encontram no tempo e no espaço em um mundo completamente alternativo. Soa complicado e, de fato, é.  Mas, como descreveu Keener, que também estrelou em Quero Ser John Malkovich: Era como fazer parte de um segredo bonito e visceral.

Próximo ao final do filme, Caden é confrontado por um mar de anotações em post-its que se estendem em direção ao horizonte, cada um significando uma parte de um grande todo. Ele percebe a magnitude da questão dizendo, não sei por que complico tanto.

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