Mortos em Niterói passam de 100;segue busca por vítimas em morro

Por Maria Pia Palermo NITERÓI (Reuters) - Familiares e vizinhos observavam angustiados, na quinta-feira, o trabalho intenso de resgate em um cenário de destruição em Niterói, onde até 200 pessoas podem estar soterradas após um deslizamento provocado pela chuva que derrubou dezenas de casas numa área em que existia um lixão desativado.

Reuters |

No Estado, os deslizamentos decorrentes das chuvas, que atingem o Rio de Janeiro desde segunda-feira, deixaram ao menos 180 mortos. Em Niterói, foram 105 vítimas fatais.

Os números da tragédia devem subir, pois dezenas de pessoas ainda estão desaparecidas após o desmoronamento da noite de quarta-feira que atingiu cerca de 50 casas no Morro do Bumba, em Niterói, onde ainda há riscos de desmoronamento.

"Temos que permanentemente vigiar o que está acontecendo na encosta, porque é um trabalho que requer muito cuidado", afirmou o subcomandante-geral do Corpo de Bombeiros do Estado, coronel José Paulo Miranda. Segundo o coronel, a encosta está extremamente vulnerável. "Com a chuva que estamos vivenciando aqui pode acontecer novo deslizamento", disse, ressaltando que chuva e novos deslizes são os maiores desafios.

O coronel afirmou que não há como estimar o número de pessoas que estariam soterradas. Mais cedo, o vice-governador, Luiz Fernando Pezão (PMDB), disse que ali moravam cerca de 200 pessoas. "Mas não temos como estimar quantas estavam no local e podem estar soterradas", afirmou à Reuters o vice-governador, que estava no local do desastre.

No fim da tarde, quando o 12o corpo foi colocado no carro da Defesa Civil, uma mulher que observava os trabalhos perguntou se era homem ou mulher, adulto ou criança. Com ar consternado, o bombeiro disse: "Uma menina."

Especialistas em tragédias afirmam que as chances de sobreviventes são reduzidas quando o desmoronamento é de terra, pois, ao contrário do que ocorre quando há só escombros, as vítimas ficam sem ar.

"Tecnicamente é impossível achar alguém com vida", disse uma fonte envolvida nas operações de resgate. "Se não morreu pelo trauma, foi por sufocamento e pelo efeito do gás (metano do lixo)."

Além de residências, foram soterrados estabelecimentos comerciais, creche e igreja. Treze corpos foram retirados dos escombros até o fim da tarde desta quinta e outras 21 pessoas saíram com vida desde quarta, segundo a Defesa Civil.

A empregada doméstica Solange de Lima, 37, que morava há quatro anos no local, contou que conseguiu escapar da tragédia com seus três filhos e o marido, apesar de ter perdido a casa.

"Saímos correndo com a roupa do corpo e pulamos o muro. Fiquei toda arranhada, mas conseguimos sobreviver", disse Solange, abrigada em uma igreja perto do local. A casa dela ficava na parte baixa do morro, mas seus vizinhos não tiveram a mesma sorte. "Não ficou ninguém dos amigos, nem das casas ao lado", disse emocionada.

A estimativa é de que foram deslocados 600 metros quadrados de terra. Na base do morro, a montanha de terra acumulada chegava à altura aproximada de um prédio vizinho de dois andares logo após o deslize.

As equipes de resgate usavam quatro retroescavadeiras e oito escavadeiras de grande porte incessantemente, mesmo sob a chuva, para retirar o acumulado de terra do local. O trabalho, com mais de 100 homens, tem que ser feito com cuidado e devagar, pois pode haver vítimas em meio à terra.

ATERRO SANITÁRIO

O terreno acidentado onde estavam as casas arrastadas pela terra que desmoronou já abrigou um aterro sanitário. De acordo com o prefeito de Niterói, Jorge Roberto Silveira (PDT), o lixão estava desativado há cerca de 30 anos, mas a população afirma que o local deixou de funcionar há 20 anos.

"Não é hora de questionar o por que de terem permitido as construções, a hora é de solidariedade", disse o governador Sérgio Cabral (PMDB) em visita ao morro.

As chuvas deixaram quase 24 mil desabrigados ou desalojados em áreas da região metropolitana, serrana e na capital, onde 57 pessoas morreram afetadas pelo temporal. Houve mortes também em São Gonçalo, Maricá, Nilópolis, Petrópolis e Magé.

A prefeitura de Niterói decretou estado de calamidade pública e o governo federal anunciou nesta quinta que vai liberar 200 milhões de reais para o Estado. Serão 90 milhões de reais para a capital e 110 milhões de reais a serem destinados aos municípios de Niterói, São Gonçalo e demais cidades atingidas pelas enchentes. O pedido do Rio de Janeiro era por 370 milhões de reais.

SUSPEITA DE ARRASTÃO

Durante a tarde, uma suspeita de arrastão no centro de Niterói levou comerciantes a fecharem suas lojas e causou medo na população que caminhava pelas ruas.

"Houve um boato de que haveria arrastão no centro, em Icaraí e no Fonseca. A população ficou temerosa e o comércio fechou as portas, mas não há nada de concreto", disse o tenente Toledo, da Polícia Militar, que fazia guarda portando um fuzil numa esquina no centro da cidade.

Uma moradora da cidade que identificou-se como Tânia disse que estava na rua quando viu homens com armas e com pedaços de pau invadindo uma loja.

"Vi gente correndo com arma na mão, com pedaço de pau, quebrando carro e invadindo loja. Era uma cena de filme, mais parecia o fim do mundo. Fiquei apavorada e estou tremendo até agora", afirmou ela.

De acordo com a Polícia Militar, supostos traficantes aproveitaram a tragédia e se infiltraram em uma manifestação de moradores de um morro de Niterói para roubar uma loja, o que deu início aos boatos de arrastão e levou comerciantes a abaixarem suas portas.

O temporal que provocou a tragédia no Estado do Rio começou a cair no final da tarde de segunda-feira e levou o caos à capital, que praticamente parou na terça-feira. Segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), somente na terça-feira choveu mais do que o esperado para todo o mês de abril na cidade.

A maioria das mortes aconteceu em regiões de encostas e áreas de risco. Outros deslizamentos menores foram registrados na capital também nesta quinta-feira.

(Reportagem adicional de Pedro Fonseca e Rodrigo Viga Gaier, no Rio)

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