380 pessoas tiveram intoxicação alimentar em apenas um navio. Os casos sinalizam um alerta para os turistas que pretendem embarcar neste tipo de viagem turística, pois significam que uma emergência em alto mar pode acabar em tragédia." / 380 pessoas tiveram intoxicação alimentar em apenas um navio. Os casos sinalizam um alerta para os turistas que pretendem embarcar neste tipo de viagem turística, pois significam que uma emergência em alto mar pode acabar em tragédia." /

Mortes em cruzeiros no Brasil são sinal de alerta aos turistas

SÃO PAULO ¿ Entre os dias 19 de dezembro de 2008 e 24 de janeiro deste ano, cinco passageiros de cruzeiros morreram no litoral brasileiro. No mesmo período, http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2009/01/09/em+navio+380+passageiros+tem+intoxicacao+alimentar+3244324.html target=_top380 pessoas tiveram intoxicação alimentar em apenas um navio. Os casos sinalizam um alerta para os turistas que pretendem embarcar neste tipo de viagem turística, pois significam que uma emergência em alto mar pode acabar em tragédia.

Marina Morena Costa, repórter do Último Segundo |

Reprodução
Jane Botelho, que passou mal em um cruzeiro e morreu três dias depois
Jane morreu após viagem em um Cruzeiro

Uma das vítimas recentes foi a mineira Jane Lúcia Alves Botelho, de 58 anos. A passageira do navio Costa Mediterrânea, da companhia italiana Costa Cruzeiros, passou mal durante o cruzeiro, foi encaminhada para atendimento em terra e morreu três dias após ser internada no Hospital Santa Inês, em Camboriú, litoral de Santa Catarina.

Segundo a família, o atendimento médico foi acionado ainda no navio na madrugada de terça-feira (21), quando Jane reclamou de dores abdominais e diarréia. A primeira coisa que o médico nos falou foi a taxa de consulta, US$ 60 [aproximadamente R$ 138], afirma Alcides Carvalho, genro de Jane que também viajava no cruzeiro. Tivemos muita dificuldade em conversar com o médico, porque ele era italiano, conta Carvalho.

Atualmente, segundo a Associação Brasileira dos Representantes de Cruzeiros Marítimos (Abremar), 14 navios, todos estrangeiros, atuam na costa brasileira. O presidente da Associação Brasileira de Agências de Viagens de São Paulo (ABAV-SP), Edmar Bull, explica que, de acordo com a exigência do Ministério do Trabalho, os navios de cruzeiro contam com no mínimo 25% de funcionários brasileiros na tripulação, os demais são estrangeiros.

A Costa Cruzeiros assevera que segue essa norma nacional e afirma que o médico a bordo vem ao Brasil há vários anos e comunica-se em português. A empresa indica, em caso de necessidade, a solicitação da assistência bilíngue.

"É preciso checar com a sua companhia marítima e com a sua agência de viagens se há um seguro e o que está incluído nele"

Apesar de ter sido medicada ¿ com remédios para dor e para o estômago ¿, o quadro de Jane piorou e a família solicitou atendimento novamente. A resposta do médico foi se eu for aí, vou cobrar outra consulta. Ouvimos este deboche, mas insistimos que era melhor levá-la para a enfermaria. Quando o chefe médico a examinou, houve um tratamento condigno com a situação de emergência. Colocaram um tubo de oxigenação e solicitaram que o comandante acelerasse o navio para chegarmos ao porto, relata Carvalho.

Neste momento, o navio Costa Mediterrânea encontrava-se em fase de navegação, entre Punta del Este (Uruguai) e Porto Belo, em Santa Catarina, distante do porto de atracação e sem possibilidade de desembarque.

Segundo a Costa Cruzeiros, a embarcação conseguiu antecipar em uma hora a chegada no litoral catarinense. Às 7h23, Jane, o marido, a filha e o genro foram removidos de lancha até a cidade, onde uma ambulância os esperava para levar a passageira à clínica Santa Catarina.

Como o caso era grave, Jane foi encaminhada em uma ambulância com UTI para o Hospital Santa Inês, onde passou por uma cirurgia e morreu no sábado (24). A causa da morte foi apontada como infecção generalizada de origem obscura, segundo relatório assinado por Gustavo Deboni, médico-assistente, e pelo coordenador da Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), Nelson Barrichello. Além disso, Jane sofria de cirrose hepática.

A família acredita que o primeiro médico que atendeu Jane não deu a devida importância à paciente e reclama o fato de o cruzeiro ter partido sem comunicá-los. De acordo com Carvalho, todas as despesas médicas em terra e a volta de Santa Catarina para Minas Gerais foram pagas pela família. Em nenhum momento eles nos contataram ou perguntaram como a gente estava. Até hoje, ninguém do navio entrou em contato com a gente. Quem recolheu nossos pertences na cabine foi minha irmã, que estava viajando conosco. Pra mim o descaso é este, afirma Carvalho.

Procurada pela reportagem, a Costa Cruzeiros lamentou em nota oficial a morte da passageira e informou que adotou todas as medidas necessárias ao ágil atendimento e remoção da passageira. A companhia afirma ainda que seu agente portuário, como representante da empresa, acompanhou o processo de remoção até a clínica Santa Catarina, em Porto Belo. Segundo a Costa Cruzeiros, quando a companhia soube da morte de Jane, manifestou seu pesar por meio de mensagem enviada à família.

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Taxas e atendimentos

Além dos gastos em terra, a família Botelho afirma ter recebido uma cobrança de US$ 483 [aproximadamente R$ 1.110] no cartão de crédito, referentes ao atendimento médico prestado à Jane. De acordo com a Costa Cruzeiros, o atendimento médico a bordo é gratuito apenas em caso de acidentes ou ferimentos ¿ se um passageiro escorrega no chão molhado e sofre uma queda, por exemplo. Em todos os outros casos o cliente paga pela assistência, diz a companhia marítima, alegando que a informação consta no contrato.

O presidente da ABAV-SP alerta para as questões relacionadas à saúde na hora de escolher um cruzeiro: as condições do atendimento médico constam nas cláusulas do contrato e devem ser observadas. Na opinião de Bull, todos os viajantes devem contratar um seguro de saúde complementar para evitar despesas inesperadas. É preciso checar com a sua companhia marítima e com a sua agência de viagens se há um seguro e o que está incluído nele. Algumas bandeiras de cartão de crédito também oferecem seguros saúde. No entanto, é importante estar sempre atento ao que está incluído e o que não está.

Segundo informações da Costa Cruzeiros, consta nos registros da empresa que Jane Botelho estava coberta por um seguro deste tipo.

O presidente da Abremar, Eduardo Nascimento, explica que cada navio tem uma tabela diferente para os atendimentos médicos. Os valores dependem naturalmente do tratamento que deva ser aplicado, do mais corriqueiro ao mais complexo, como hemodiálises e uso de desfibrilador [aparelho eletrônico usado em casos de parada cardíaca]. Nascimento afirma que todos os cruzeiros têm atendimento 24 horas e seguem exigências de organismos internacionais, mas não especifica quais.

De acordo com informações da Anvisa, os cruzeiros seguem normas da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT), mas os certificados variam conforme a nacionalidade dos navios. A Costa Cruzeiros, por exemplo, informa que sua equipe médica possui as seguintes qualificações: Médicos de Navios, do Ministério de Saúde italiano; Apoio Vital Básico (B.L.S.); e Apoio Vital Cardíaco Avançado.

O presidente do Sindicato Nacional dos Oficiais da Marinha Mercante (Sindmar), Severino Almeida Filho, reforça a obrigatoriedade do plantão do atendimento médico: Como o médico viaja com a tripulação o atendimento é 24 horas. Se alguém disser que o horário do atendimento é estipulado, ou a pessoa não está falando a verdade, ou a administração do navio enlouqueceu. O que pode é haver um horário de funcionamento administrativo, explica Filho.

"Se alguém disser que o horário do atendimento [médico] é estipulado, ou a pessoa não está falando a verdade, ou a administração do navio enlouqueceu"

Legislação

Segundo o Ministério do Turismo, não há uma legislação nacional específica para este setor ascendente no Brasil. A previsão para a temporada de 2008/2009 é de que 500 mil turistas embarquem nos 14 cruzeiros que percorrem a costa brasileira ¿ 100 mil a mais do que na temporada passada (2007/2008). A temporada de 2006/2007, que durou de outubro de 2006 a abril de 2007, teve 300 mil passageiros a bordo de onze navios.

Atualmente, os cruzeiros são submetidos apenas às fiscalizações sanitárias da Anvisa, ao controle alfandegário e de imigração, feitos pela Polícia Federal, Receita Federal e a Marinha, e à fiscalização técnica das embarcações, por meio da Capitania dos Portos.

Quando foi regulamentado o transporte aquaviário na lei 9432, de janeiro de 1997, por lobby, os cruzeiros marítimos não foram incluídos. Deveriam fazer parte, mas não fizeram, afirma Filho. Segundo o presidente do Sindmar, não há uma lei que regulamente a entrada dos navios em águas brasileiras. Isto está proporcionando uma situação de risco a bordo. E nada vai melhorar enquanto não fizermos uma regulamentação, diz.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informa que sua atuação se restringe à verificação das condições sanitárias dos alimentos, materiais médicos e medicamentos a bordo. São inspecionados prazos de validade, limpeza e condição dos locais de armazenamento e a lista de remédios básicos presentes. No entanto, a avaliação dos profissionais de saúde e da estrutura básica dos hospitais de bordo das embarcações não é de competência da agência e segue sem fiscalização.

Com a regulamentação da Lei Geral do Turismo, prevista para março deste ano, o Ministério do Turismo afirma que terá poderes de supervisão dos destinos a serem percorridos pelos navios e a fiscalização dos serviços prestados a bordo, como hotelaria e lazer ¿ o que não é feito por nenhuma instância no atual momento. De acordo com o governo, a fiscalização sobre este segmento do turismo brasileiro que cresce vertiginosamente irá aumentar. Até lá, a fiscalização segue cheia de lacunas.

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