Morte de aluna por professor poderia ter sido evitada, dizem especialistas

Suênia foi ameaçada por muito tempo, mas não registrou ocorrência. Medo e vergonha ainda fazem mulheres evitarem denúncias

Priscilla Borges, iG Brasília |

A morte da estudante de Direito Suênia Sousa de Farias, aos 24 anos, vítima do inconformismo do professor Rendrik Vieira Rodrigues com o relacionamento dos dois poderia ter sido evitada. É o que pensam especialistas que ouviram depoimentos de parentes e amigos da jovem.

Eles contam que as ameaças de Rendrik ocorriam há tempos. Mas Suênia nunca registrou nenhuma queixa contra ele. “As mulheres têm de se conscientizar de que quando elas não denunciam, o homem se fortalece”, afirma a socióloga Lourdes Bandeira, que trabalha na Secretaria Especial de Políticas para Mulheres e professora da Universidade de Brasília (UnB).

Cilene Sousa de Farias, irmã de Suênia, contou que as ameaças ocorriam desde o rompimento da relação entre eles, mais de dois meses atrás. Uma amiga da estudante, que pediu para não ser identificada, afirmou que o professor perseguia Suênia no trabalho, na faculdade e em casa. Além de ter aulas com Rendrik no Centro Universitário de Brasília (Uniceub), Suênia trabalhou com ele na Faculdade Projeção, por cinco meses.

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“Ele que a indicou para um cargo de secretária na faculdade. Logo depois ela resolveu voltar para o companheiro. Ela pediu demissão de lá por conta das perseguições dele. Teve uma vez que ele ficou desde as seis da manhã na porta da casa dela e ninguém o convencia a sair de lá. Muita gente sabia disso. A Suênia dizia que ele era capaz de tudo”, lamenta a amiga.

Assim como a maioria das mulheres ameaçadas, segundo explica a socióloga Lourdes Bandeira, Suênia não teve coragem de registrar uma ocorrência contra Rendrik. Cilene conta que a irmã temia que “a raiva dele aumentasse” e “Suênia não gostava de se expor”.

O medo e a vergonha, segundo Lourdes, são sentimentos comuns a todas as mulheres ameaçadas e chantageadas. Além disso, muitas deixam de oficializar reclamações por falta de testemunhas e porque desacreditam na celeridade e efetividade da polícia. “O descrédito no trabalho da polícia também faz com que muitas mulheres desistam de denunciar. É mais uma prova de que esse tipo de denúncia precisa ser acolhida e trabalhada pelas autoridades policiais. Não é possível que se saiba de uma coisa dessas e não se faça nada”, ressalta.

Para a socióloga, muitas mulheres ainda morrem por causa de sentimentos de posse. “É fundamental a denúncia, porque são casos muito recorrentes ainda”, lamenta. De acordo com a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, 13,2% das mulheres que sofreram violência de companheiros já haviam sido ameaçadas de morte pelo menos uma vez. Os dados são do Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher).

O delegado-chefe da 27ª Delegacia de Polícia do Distrito Federal, Alexandre Dias Nogueira, que cuidou do caso de Suênia, também defende que o medo seja superado “para que não aconteça o pior, que é perder a vida”. Rendrik se apresentou na delegacia com o corpo dentro do carro e confessou o crime. Nogueira finalizou o inquérito nesta segunda-feira.

Acompanhamento

A Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres avisou que vai acompanhar de perto o caso, por determinação da ministra Iriny Lopes, para auxiliar as famílias e garantir punição aos assassinos. Outro caso de violência contra a mulher em Brasília será acompanhado, o da copeira Vanessa Souza Ribeiro Santos, 24 anos, assassinada pelo marido que não queria o fim do casamento.

O Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios decretou a prisão preventiva do professor Rendrik. Na conclusão do inquérito, o delegado Nogueira pede a pena máxima ao acusado, de até 30 anos de prisão, por homicídio duplamente qualificado. O professor confessou que matou a estudante com dois tiros na cabeça e um no tórax na sexta-feira.

Rendrik abordou Suênia quando ela saía da faculdade, de acordo com a polícia. Ela estava no carro que pertencia a seu marido, um Sandero prata, acompanhada de uma amiga, a quem daria uma carona. O professor teria pedido que a amiga deixasse os dois a sós e saído com a moça em direção à Taguatinga.

Segundo relato do companheiro de Suênia, ela ligou em seguida, dizendo que ia pegar suas coisas em casa e que iria viver com o professor. O marido estranhou o tom de voz da esposa, nervosa e confusa, e foi à delegacia de Taguatinga prestar queixa.

Em dado momento do percurso, sem se entenderem, Rendrick atirou três vezes contra Suênia. Depois, ele rodou por horas com o corpo dentro do carro até que, às 18h10 se entregou à 27ª Delegacia de Polícia no Recanto das Emas, cidade-satélite distante 26 quilômetros de Brasília.

Rendrik usou uma pistola .380 para matar a vítima, comprada uma semana antes, de acordo com o delegado. A arma não foi encontrada.

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