Morre Solzhenitsin, o escritor que desafiou a URSS

O escritor russo Alexander Solzhenitsin, grande figura da dissidência soviética, morreu na noite deste domingo, aos 89 anos, informou a agência russa Itar-Tass citando seu filho Stepan.

AFP |

Solzhenitsin faleceu "por uma insuficiência cardíaca aguda", às 23H45 de Moscou (16H45 Brasília), revelou Stepan.

O escritor, com problemas de saúde há vários anos, quase não aparecia em público e preso a uma cadeira de rodas, pouco saía de sua casa em Troitse-Lykovo, a noroeste de Moscou.

Alexander Solzhenitsin revelou ao mundo a realidade do sistema soviético de campos de trabalhos forçados em livros como "O primeiro círculo" e "Arquipélago Gulag".

Prêmio Nobel de Literatura em 1970, o autor perdeu a nacionalidade soviética em 1974 e foi expulso da URSS. Solzhenitsin viveu então na Alemanha, na Suíça e nos Estados Unidos, antes de voltar à Rússia, em 1994, após o fim da União Soviética.

O presidente russo, Dimitri Medvedev, já transmitiu suas condolências à família do escritor, informou a porta-voz Natalia Timakova, citada pela Itar-Tass.

"Ao final de minha vida, me atrevo a esperar que o material histórico (...) que recolhi entre na consciência e na memória de meus compatriotas", disse Solzhenitsin em 2007, quando recebeu do presidente Vladimir Putin o Prêmio de Estado russo.

"Nossa amarga experiência nacional contribuirá, no caso de novas condições sociais instáveis, para nos prevenir contra outros fracassos", destacou o escritor.

O escritor apoiava as idéias de Vladimir Putin, presidente entre 2000 e 2008 e agora primeiro-ministro, para uma Rússia forte e orgulhosa de si mesma, apesar do passado de Putin na KGB.

"Putin recebeu como herança um país saqueado e de joelhos, com a maior parte da população desmoralizada e na miséria, e iniciou a reconstrução (...) pouco a pouco, lentamente. Estes esforços não têm sido destacados ou apreciados", disse em abril passado sobre o atual premier.

Em 2006, Solzhenitsin acusou a Otan de preparar o "cerco total da Rússia e a perda de sua soberania, ao reforçar metodicamente e com persistência sua máquina militar no leste da Europa".

Putin visitou o escritor em 12 de junho de 2007, para entregar o Prêmio de Estado, a quem "dedicou sua vida à pátria".

"Milhões de pessoas no mundo vinculam o nome e as obras de Alexandre Isáyevich Solzhenitsin ao destino da própria Rússia. Tal como ele disse: A Rússia somos nós. Nós somos sua carne, seu sangue, seu povo", lembrou Putin.

Patriota conhecido por sua força profética e por uma enorme determinação, que lhe permitiu vencer um câncer, o escritor dedicou sua vida à luta contra o totalitarismo comunista.

Solzhenitsin combateu valorosamente como artilheiro contra as tropas alemãs que invadiram a União Soviética, em 1941, mas criticou a competência militar de Stalin em uma carta a um amigo, o que lhe custou oito anos em um campo de prisioneiros, em 1945.

A experiência marca para sempre o escritor, que é solto em 1953, semanas antes da morte de Stalin, e se exila na Ásia central para escrever, antes de morar em Riazan, 200 km de Moscou, onde trabalha como professor.

O novo líder da URSS, Nikita Kruschov, autoriza a publicação, na revista literária inconformista Novy Mir, de "Um dia na vida de Ivan Denisovich", um relato sobre um preso comum do Gulag.

O tabu é quebrado, uma onda de choque atinge a União Soviética e abala os meios pró-soviéticos de todo o mundo, mas a abertura não dura, enquanto o Gulag segue existindo.

Solzhenitsin escreve "Pavilhão dos cancerosos" e "O primeiro círculo", que chegam ao Ocidente em edições clandestinas, com grande sucesso.

A envergadura do homem ainda o protege, mas quando recebe o Nobel de Literatura, em 1970, nega-se a viajar a Estocolmo por medo de não poder voltar à URSS de Leonid Brejnev.

A grande obra do escritor, "Arquipélago Gulag", é publicada em Paris, em 1973, e provoca um novo eco em todo o planeta.

O Kremlin diz basta e expulsa Solzhenitsin para o Ocidente, que descobre que o homem que desafiou a URSS é um conservador ortodoxo, crítico da sociedade de consumo.

Em 1994, vive um regresso triunfal à nova Rússia, mas encontra uma nova realidade, pós-comunista, que critica enquanto defende a volta dos valores morais tradicionais.

via/LR

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