Morre aos 94 anos o compositor Dorival Caymmi

RIO DE JANEIRO - O cantor e compositor baiano Dorival Caymmi morreu por volta das 6 horas deste sábado aos 94 anos. Ele estava em seu próprio apartamento, localizado na avenida Nossa Senhora de Copacabana, no Rio de Janeiro. O velório acontece nesta tarde, na Câmara dos Vereadores, no Centro do Rio.

Redação com agências |

    Futura Press
    Dorival Caymmi em foto de 2006

    O velório de Dorival Caymmi é realizado no Cemitério São João Batista, no bairro de Botafogo, na zona sul.

    O compositor sofria de insuficiência renal e, em razão da idade, já não apresentava uma condição cardíaca favorável. Ele permanecia em internação domiciliar desde dezembro de 2007.

    O filho do compositor, Danilo Caymmi, deu à Rádio Nacional do Rio de Janeiro a primeira entrevista sobre a morte do pai, no programa da radialista Dayse Lucidi. De acordo com o ele, a família "tem uma gratidão muito grande à Rádio Nacional, porque foi num show de calouros da emissora que Dorival Caymmi conheceu a mulher e companheira de toda a vida".

    Danilo Caymmi afirmou à rádio que a mãe, Stela Maris, está internada há três meses, em coma. "A família atravessa um momento muito difícil, mas não poderia deixar de falar à Rádio Nacional, em primeira mão, sobre o falecimento de meu pai. Ele morreu tranquilamente, baianamente, como ele dizia", disse Danilo.

    Compositor queria ver o mar

    Caymmi morava no Rio desde 1938, mas somente em dezembro último mudou-se para o sexto andar de um prédio na Av. Nossa Senhora de Copacabana, de onde o compositor, que em tantas canções saudou o mar, conseguia avistá-lo.

    Segundo sua neta, Stella Caymmi, a mulher de Dorival, Stella Mares, venceu o pavor que tinha de elevador para dar ao marido o prazer de ver o oceano de casa. "Eles moravam no primeiro andar de um outro prédio em Copacabana, mas ele sentia necessidade de ver o sol e de ver o mar. Por anos, ele tentou convencê-la a se mudar", disse a neta, que é filha da cantora Nana Caymmi.

    "No réveillon, pela primeira vez viram os fogos de Copacabana", disse. A viúva está internada desde abril com problemas cardíacos e há dez dias entrou em coma. A neta disse que ele ficou muito abalado desde a internação da mulher com quem viveu por 68 anos. "Os últimos dias do meu avô foram muito difíceis, porque minha avó, que ligava para ele todos os dias, parou de ligar e ele percebeu que alguma coisa havia acontecido. Nós decidimos não contar para ele sobre o coma", afirmou.

    Caymmi não sabia do câncer. "Apesar de passar pelos tratamentos, nunca disseram para ele que era câncer. Ele dizia que não queria saber o que era. Era uma atitude", disse a neta. Segundo ela, ele não passou por quimioterapia ou radioterapia. Tratou-se com remédios por quase dez anos e ficou internado algumas vezes. A última foi no início do ano passado. Depois disso, por decisão do compositor, não voltou mais ao hospital e era assistido por um enfermeiro em sua casa.

    No dia 24 de junho, Caymmi completou 70 anos de carreira. Foi a data em que estreou na Rádio Tupi. Para marcar o horário do enterro, a família aguardava a confirmação do horário da chegada de um dos seus filhos, o compositor Dori Caymmi, que mora em Los Angeles. Seus outros filhos são a cantora Nana e o compositor e intérprete Danilo. Dorival deixa ainda sete netos.

    Stella contou que o avô era um músico "silencioso em suas composições". "Minha avó sabia quando ele estava compondo. era quando ele se recolhia, ficava quieto. E ela nos dizia: `deixa o Dorival que ele está compondo'. Ele tinha uma relação muito boa com o tempo. Se uma música precisasse de dez anos para ficar pronta, ele esperava. Isso é uma sabedoria, ele sabia que não tinha como lutar contra o tempo." Caymmi era, segundo Estela, muito ligado à família.

    Ela conta que nos anos 50, quando ele passava as noites cantando em boates, não deixava jamais de tomar café da manhã com os filhos. "Ele chegava às 5h ou 6h, mas só dormia depois do café. Ele tinha um sentimento, que aprendeu dos pais, e que foi transferido para os filhos."

    Poeta popular

    Dorival Caymmi nasceu em Salvador em 30 de abril de 1914. Ele aprendeu a tocar violão sozinho quando ainda era adolescente e aos 22 anos venceu um concurso de músicas para o Carnaval com o samba "A Bahia Também Dá".

    Em 1938, ele mudou-se para o Rio de Janeiro, onde apresentou-se na Rádio Tupi, cantando uma de suas composições mais conhecidas: "O Que é que a Baiana Tem?". A canção foi incluída no filme Banana da Terra, estrelado por Carmen Miranda no memso ano.

    Em seguida, a música "O mar" também foi colocada em um espetáculo promovido pela então primeira-dama Darcy Vargas.

    Entre as composições mais marcantes estão: "A Lenda do Abaeté", "Promessa de Pescador", "É Doce Morrer no Mar", "Marina", "Não Tem Solução", "Maracangalha", "Saudade de Itapoã", "Samba da Minha Terra", "Dora", "Rosa Morena" e "Eu Não Tenho Onde Morar".

    Em mais de 60 anos de carreira, o artista gravou cerca de 20 discos. Além disso, teve inúmeras composições lançadas por outros cantores.

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