A proposta de oficializar a Frei Caneca, na área central da capital paulista, como a primeira rua gay do País provocou reação contrária de moradores, comerciantes e até mesmo de ativistas do movimento gay de São Paulo. A Associação Casarão Brasil, idealizadora do projeto, atribui a má repercussão ao preconceito e ao desconhecimento das melhorias que a tematização da rua traria.

O presidente da associação, Douglas Drummond, explicou que a oficialização prevê a abertura de um concurso de projetos arquitetônicos para revitalizar a rua. Além disso, ele já está reformando o imóvel onde ficará a sede do Casarão - um centro para receber gays de todo o Brasil que oferecerá serviços gratuitos de agenciamento de emprego, internet, fax, atendimento médico, cursos, centro cultural e outros.

A associação, segundo Drummond, já preparou material para detalhar as propostas e vai iniciar na segunda-feira um levantamento em toda a rua para apontar quem é favorável ou contrário à medida - uma exigência da Câmara e da Prefeitura de São Paulo para discutir a viabilidade da implementação da rua gay na Frei Caneca.

Surpreendida, a Sociedade dos Amigos e Moradores do Bairro de Cerqueira César (Samorcc) convocou reunião na terça-feira na Paróquia Divino Espírito Santo - vizinha de parede do Casarão - para discutir o assunto com síndicos.

"Ninguém está gostando dessa história", lançou a diretora da subárea da Consolação da Samorcc, Mara Palla. "Vai criar uma estigmatização, é querer criar artificialmente uma coisa que não existe. É querer impingir a uma área algo que só vai criar uma situação de comentários", disse Mara. Ela fez questão de ressaltar que sua posição e a de moradores que reclamam do projeto "não é de preconceito". "Temos gays no bairro e não é de hoje. Convivemos e respeitamos, tem muito morador gay. Mas como estão fazendo é até uma forma de estimular a segregação."

Zona de exclusão

Mesmo a Associação da Parada do Orgulho Gay mostrou-se desfavorável à idéia, por entender que criaria ali um gueto. "Nossa posição não é contrária, mas a de que não podemos aceitar mais guetos. Queremos ter o direito de ir e vir em qualquer lugar, como qualquer outro indivíduo. Não queremos uma zona de exclusão", disse Alexandre Santos, presidente da Parada, maior evento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais), que neste ano reuniu 3,4 milhões de pessoas em São Paulo. "Mas foi bom por levantar a discussão."

Comerciantes e síndicos próximos ao imóvel do Casarão criticaram duramente a idéia de oficializar a rua gay. "Já chamam de Frei Boneca ou Gay Caneca, mas virar um ícone oficial, aprovado pela Câmara, aí, não dá", protestou Ronaldo Cainelli, de 46 anos, proprietário de um bar na esquina com a Rua Mathias Aires. "O Raul Seixas bebia aqui, tem de pensar na história do próprio Frei Caneca, não pode", opinou Cainelli.

Drummond rebateu as manifestações contrárias, classificando-as como "preconceituosas". "A idéia é segregar mesmo. Hoje eu não consigo andar de mão dada com meu companheiro onde quer que seja; é preciso um espaço onde nos respeitem e nos sintamos seguros pra ser o que somos." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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