Mitos e verdades sobre a pílula anticoncepcional

O presidente da Federação Latino Americana de Mastologia, Diógenes Baségio, provocou polêmica esta semana ao declarar que meninas com menos de 18 anos não devem tomar pílula anticoncepcional. Isso porque as adolescentes que usam contraceptivos teriam um risco maior de desenvolverem câncer de mama após os 40 anos.

Lecticia Maggi, repórter do Último Segundo |

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Pílula tem eficácia de até 99,8%, dizem médicos
Para médicos, a contra-indicação não tem fundamento científico. Acredita-se que o anticoncepcional atuando em uma mama mais imatura pode aumentar o risco de câncer, mas não há dados definitivos e concretos, afirma César Eduardo Fernandes, chefe da Clínica Ginecológica da Faculdade de Medicina do ABC.

A informação sobre os riscos não é concordante em todos os estudos. O risco de engravidar que as adolescentes vão correr não justifica esse temor de forma alguma, completa Luciano de Melo Pompei, ginecologista e professor da Universidade de São Paulo (USP).

Isso não é o que pensa o mastologista Baségio, cuja tese de doutorado avaliou 345 mulheres divididas por faixa etária e consumo. Mulheres que usaram anticoncepcional com até 18 anos apresentaram risco de 10% a 20% maior de terem câncer de mama, afirma ele, que sugere o uso dos preservativos masculinos e femininos em substituição à pílula.

Rogério Dias, professor da Faculdade de Medicina de Botucatu, no interior de São Paulo, defende que o risco é o mesmo em usuárias e não usuárias. Se a menina já tem na família a mãe ou algum ascendente direto com câncer, ela tem potencial de desenvolver, mas não se pode atribuir à pílula, afirma.

Se os especialistas não concordam sobre a relação da pílula com o câncer de mama, são unânimes, porém, em dizer que ela pode proteger contra outros tipos de cânceres, como o do endométrio, ovário e colo de útero, e trazer alguns benefícios, entre eles a diminuição da oleosidade da pele, das cólicas menstruais e até mesmo da famosa TPM (tensão pré-menstrual). 

Abaixo, os especialistas desmitificam algumas das principais dúvidas envolvendo o uso de anticoncepcionais:

Quem pode tomar?

"O fumo não casa com o contraceptivo, ele predispõe ao tromboembolismo"

Segundo o médico Eduardo Fernandes, o ideal seria que a mulher iniciasse o uso da pílula dois anos após a sua primeira menstruação, já que antes deste período o ciclo menstrual costuma ser desregulado. Mas, se ela iniciar a atividade mais cedo, prefiro entrar com a pílula a deixá-la desprotegida, afirma.

As contra-indicações são para pacientes com trombose, embolia pulmonar, Lúpus Eritematoso Sistêmico, diabetes e hipertensão. O seu uso também não é aconselhado para mulheres que ainda estão amamentando, porque diminui a produção de leite, para aquelas que têm mais de 50 anos, já tiveram câncer, acidente vascular cerebral ou algumas doenças das válvulas cárdicas.

O ginecologista Rogério Dias explica que essas contra-indicações estão ligadas principalmente ao componente estrogênio que, de maneira geral, atua na coabilidade sanguínea. Se a usuária tiver predisposição a problemas trombo embólicos, o uso da pílula pode comprometer a circulação sanguínea, provocando inchaço nas pernas e trombose dos membros inferiores. Se for um trombo pulmonar, pode ir para o coração, entupir uma artéria e levar à morte, afirma.

Para as pacientes que tiveram câncer, ela é contra-indicada porque estimula as células neoplásicas e pode provocar a reincidência do tumor. 

A pílula altera os níveis de insulina no organismo, por isso, também não é ministrada em diabéticas. No caso das hipertensas, o problema é a retenção de líquido, que, mesmo em níveis baixos, pode aumentar a pressão sanguínea.

Nas mulheres com Lúpus, além de precipitar alguns episódios da doença, a pílula pode interagir com os medicamentos, diminuindo o potencial deles, principalmente para as que usam corticóides.

Outro grupo que deve passar longe das pílulas são as fumantes com mais de 35 anos ou que fumam mais de 15 cigarros por dia. O fumo não casa com o contraceptivo, ele predispõe ao tromboembolismo, explica Dias.

Qual a eficácia?

"De cada mil mulheres, ao longo de um ano duas vão engravidar"

Fernandes explica que, se tomadas corretamente, a eficácia das pílulas chega a 99,8%. De cada mil mulheres, ao longo de um ano duas vão engravidar. Não é 100%, mas é uma alta proteção, diz. Para isso, é preciso ingeri-las todos os dias e sempre em horários parecidos. Se esquecer de tomar à noite, por exemplo, deve tomar prontamente no outro dia pela manhã. Assim, não há grandes prejuízos. Se passar mais do que 24h, a mulher pode ovular, explica o ginecologista. Nestes casos, a recomendação é associá-la a outro contraceptivo, como o preservativo, durante pelo menos uma semana.

O que corta o efeito?

Alguns antibióticos e anticonvulsivantes podem atenuar a eficácia da pílula e aumentar os riscos de gravidez. Por isso, o conselho dos ginecologistas é de que qualquer nova medicação seja comunicada ao médico. E, enquanto estiver fazendo uso do remédio, a mulher utilize um método extra, como o preservativo. Os analgésicos e antiinflamatórios não interferem no poder da pílula.

Outro mito está relacionado ao consumo de álcool. Se ela exagerar e vomitar é como se não tivesse tomado. Agora, se não vomitar, não tem problema algum, esclarece Pompei.

Posso tomar ininterruptamente?

Conforme os especialistas consultados, não há problema algum em tomar as pílulas sem realizar pausa entre elas. Existem, inclusive, algumas recomendações médicas de uso ininterrupto, como para pacientes que sofrem de cólica. Hoje está claro que você pode emendar cartelas. Do ponto de vista metabólico e de segurança, não há problema, afirma Fernandes.

Dias, porém, pondera que o máximo de cartelas que costuma receitar para suas clientes tomarem sem pausa são quatro, totalizando 84 dias, e apenas para casos específicos. São para pacientes com suspeita de endometriose (doença caracterizada pela presença de tecido endometrial, que reveste o útero internamente, fora da cavidade uterina), sangramento intenso que leva a anemia e cólica que não passa com medicação, afirma.

São raras as pacientes que me procuram e dizem que não querem menstruar. Pelo contrário, tem mulher que entra em pane se não menstrua todo mês, acha que está grávida, acrescenta.

Terei a fertilidade prejudicada?

              "Em geral, a fertilidade volta                entre 45 e 60 dias"

Uma questão recorrente nos consultórios é a volta da fertilidade após a interrupção da pílula. Segundo os médicos, não há motivo para preocupação. Em geral, a fertilidade volta entre 45 e 60 dias, afirma o professor Dias. Porém, segundo ele, entre 1,5% e 3% das mulheres apresentam um quadro de amenorréia, em que a menstruação para. Nestes casos, a ovulação pode demorar até um ano para voltar ao normal e é aconselhável procurar um ginecologista.

Quais são os efeitos colaterais?

Em algumas pacientes o uso da pílula pode provocar dores de cabeça, náuseas, vômitos e irritabilidade. Foi o que aconteceu com a estudante Maria Laura, de 21 anos: meu namorado quase surtou com o meu mau humor. Além disso, a estudante afirma que teve dores de cabeça fortíssimas, enjoos, inchaços e dores nos seios durante a primeira cartela. Sofri horrores, conta.

De acordo com Dias, os sintomas apresentados por Maria são normais e tendem a desaparecer em alguns meses, com a acomodação do medicamento no organismo. Tranquilizamos a paciente e dizemos que vai passar em 4 ou 5 meses. Se não melhorar, pensamos em trocar a pílula, diz.

Em Maria o desconforto desapareceu em menos de três meses. Na segunda cartela os enjoos e o mau humor sumiram, mas eu continuava inchada e com dores de cabeça. Depois, nunca mais senti nada, diz ela, que toma anticoncepcional há um ano.

Pílula engorda?

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Yasmin é uma das pílulas de última geração
O ganho de peso em pacientes que tomam anticoncepcionais, principalmente os de maior dosagem hormonal, está relacionado à retenção de líquido pelo organismo. Hoje, alguns estudos mostram que ao longo de um ano as usuárias ganham um quilo, diz Fernandes.

No entanto, não são todas as pílulas que provocam este aumento. Segundo os especialistas, algumas, de última geração, retém menos líquido, como é o caso de Yasmin e Yaz, da Shering, e Belara, da Janssen-Cilag.  O preço delas, porém, chega ao dobro do cobrado pelos demais anticoncepcionais.

Para Dias, o ganho de peso é usado como desculpa para algumas pacientes abandonarem o método. O que engorda é a falta de exercício físico, alimentação inadequada, mas, não, a pílula, afirma.

Prejudica o crescimento?

Um dos grandes mitos envolvendo os anticoncepcionais é de que eles poderiam afetar o crescimento. Conforme Fernandes, as pessoas têm essa sensação porque após a menstruação as meninas crescem muito pouco. Em geral, de 5 a 7 centímetros. Mas este desenvolvimento não tem relação ao uso da pílula. A quantidade de hormônio é muito pequena e a qualidade é boa. Não interfere, completa o médico Rogério Dias.

Diminui as cólicas e a TPM?

"É um excelente tratamento para a cólica.  Cerca de 80% das pacientes melhoram"

Para quem sofre com cólicas, a pílula pode ser uma importante aliada. É um excelente tratamento. Cerca de 80% das pacientes melhoram, afirma Luciano Pompei. Alguns anticoncepcionais auxiliam, inclusive, no combate à tensão pré-menstrual. Para isso, conforme Pompei, é importante que eles tenham o componente Drospirerona, que provoca uma ação diurética leve.

Dá acne?

Ao contrário. Segundo Fernandes, as pílulas comuns são compostas por estrogênio e progestagênio e, em geral, ajudam a melhorar a oleosidade da pele. Isso porque elas diminuem os níveis de testosterona no organismo ¿ hormônio que estimula as glândulas sebáceas e provoca cravos e espinhas.

A secretária A.R.S., de 18 anos, começou a tomar a pílula Level por indicação de uma amiga há cerca de um ano e quatro meses e, desde então, tem notado melhoras em sua pele. A oleosidade diminui, conta.

Faz mal para o cabelo?

Algumas usuárias acreditam que tomar pílula enfraquecerá os cabelos. Para o professor Dias, isso é uma grande bobagem. O que faz mal é não lavar, brinca.

Diminui a libido sexual?

     "Estava morta sexualmente. Isso          acabou com meu relacionamento

A secretária Valeska Biazin, de 28 anos, tomou pílula durante um ano e parou há cerca de um mês. Sua queixa: perda da libido sexual. Estava morta sexualmente. Isso acabou com meu relacionamento, conta ela, que notou perda do desejo após dois meses de uso. Agora, diz que irá utilizar preservativos e não pensa em voltar ao anticoncepcionais orais.

Segundo Dias, não existe comprovação científica. Porém, isso não significa que não ocorra. Tem paciente que toma pílula e o desejo vai lá em cima, na estratosfera, e, em outras, diminui. Na hora que entra no campo da sexualidade existem outros fatores externos atuando, pondera. 

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