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Misturando irreverência e bom humor, jornal Meia Hora faz sucesso no Rio de Janeiro

RIO DE JANEIRO ¿ Estação de trem Central do Brasil, às oito da manhã, hora do rush. Milhares de pessoas passam pelo local tendo como destino mais um dia de trabalho. Em meio à correria, um vendedor de jornais repete em alto e bom som chamando a atenção dos que passam: Mau-olhado de ex-mulher amarra as pernas de Obina!. A manchete em questão é do tabloide carioca Meia Hora, um diário popular que nos últimos anos tem movimentado o mercado jornalístico do Rio de Janeiro com irreverência e bom humor.

Anderson Dezan, repórter do Último Segundo no Rio |

Lançado em setembro de 2005, com preço de capa a R$ 0,50 e uma tiragem inicial de 70 mil exemplares, o "Meia Hora" foi criado para ser lido de maneira rápida durante o trajeto ao trabalho ou no horário de almoço por um público que não tem tempo de ver televisão, entrar na internet ou ouvir rádio. O tabloide carioca, publicado pelo Grupo O Dia de Comunicação, responsável pelo jornal "O Dia", o carro-chefe da empresa, foi desenvolvido para disputar um mercado até então dominado pelo "O Globo" e "Extra", ambos das Organizações Globo.

Kaka no jornal Meia Hora

"O 'Meia Hora' foi pensado como uma alternativa de jornal para o Rio de Janeiro. Existia mercado para isso", afirma Henrique Freitas, de 36 anos, editor-executivo do diário e do "O Dia". "Havia o jornal 'O Globo' navegando sozinho para a classe A, os jornais 'O Dia' e 'Extra' lutando pelas classes B e C e não tinha mais ninguém. Todos custando mais ou menos a mesma coisa e não havia jornal gratuito. Se eu faço um jornal relevante, interessante, cobro barato por ele e o distribuo nos lugares certos, eu vou atingir o público que está necessitando dessa publicação. Não deu outra. Em dois meses, chegamos a uma média diária de 100 mil jornais vendidos".

Recheado de matérias sobre futebol, casos policiais, celebridades e serviço, o "Meia Hora" inicialmente tinha como meta ter mais leitores nas classes C e D, mas acabou surpreendendo ao vender mais na B do que na D. Segundo Henrique Freitas, o fato do tabloide não ser do tipo "que espreme e sai sangue" e ter manchetes bem humoradas contribuíram para o sucesso da publicação junto ao público que não era esperado.

Entre as chamadas que mais fizeram sucesso nesses pouco mais de três anos de existência estão: "Brasil pede pra Kaká e sai", quando o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo da Alemanha, "Luana não tem mais Dado em casa", sobre a briga e consequente separação do casal Luana Piovani e Dado Dolabella, "Fidel chama o Raúl", referente ao afastamento de Fidel Castro da presidência de Cuba, ficando em seu lugar o irmão Raúl Castro, e "Araketu morre pulando que nem pipoca", sobre a morte no Rio do traficante conhecido como Araketu.

"O jornal é muito bem humorado. Isso fisga qualquer pessoa, desde o rico até o pobre. A pessoa sabe que pode encontrar no 'Meia Hora' uma maneira diferente e bem humorada de se tratar uma notícia, de se contar uma história. Hoje está associado: jornalismo bem humorado no Rio de Janeiro é feito pelo 'Meia Hora'", diz Henrique Freitas.

Manchetes

Boa parte do sucesso do tabloide carioca pode ser visto no Orkut. No site de relacionamentos é possível encontrar diversas comunidades relacionadas ao diário popular. Entre as mais acessadas estão "Jornal Meia Hora ¿ Oficial, com 3.282 membros, e "Amo as manchetes do Meia Hora", com 960 integrantes. Ambas foram criadas por leitores fãs do jornal.

Lula no jornal Meia Hora

"O 'Meia Hora' é o primeiro jornal de muita gente. A molecada que está querendo se informar e que não tinha um jornal encontrou isso no 'Meia Hora'", analisa Humberto Tziolas, 34 anos, editor do tabloide, que atua como um espécie de fiel escudeiro de Freitas. "O 'Meia Hora' provocou um aumento no número de leitores por dia no Rio de Janeiro. Pessoas que não liam absolutamente nada passaram a ler o 'Meia Hora'."

Humberto Tziolas é o responsável pela famosa manchete do caso entre Luana Piovani e Dado Dolabella. A confusão entre os atores, ocorrida em outubro do ano passado, foi o assunto do dia e todo mundo estava comentando aquilo. Henrique Freitas chegou à redação, abriu o e-mail e tinha uma mensagem de Tziolas para ele somente com a frase "Luana não tem mais Dado em casa".

"Eu respondi na hora. Era genial! Fiquei com aquilo na cabeça. Vou manchetar, pensei. Mas fiquei matutando qual era a melhor maneira de transformar aquilo em manchete. Não queria escrever todas as palavras. Não queria escrever Dado. Não queria dar motivo para alguém falar que eu estava escrevendo o particípio do verbo dar com sentido sexual, relembra Henrique Freitas.

Segundo ele, não havia como escrever a frase já que as manchetes do Meia Hora são em caixa alta. Sendo assim, as letras iniciais dos nomes dos atores, no caso o L e o D, não iriam sobressair. "Cheguei a escrever em caixa alta e baixa, mas não estava satisfeito. Aquilo estava me incomodando e o título era genial demais para não usar".

Para resolver o problema, Freitas recorreu à lembrança de uma edição do jornal "O Povo", um outro diário popular do Rio de Janeiro, só que de menor circulação, que tempos atrás havia feito uma matéria sobre o sonho da casa própria. No título da reportagem, ao invés de escrever a palavra casa, o redator colocou o desenho de uma casa.

Luana e Dado no jornal Meia Hora

"Quando lembrei disso eu pensei, a solução está aí. É usar o rosto dele. Diagramei a página, passei pela redação para ver se as pessoas entendiam, se elas faziam na cabeça delas o duplo sentido. Foi publicado e foi um estouro. Todo mundo comentou aquilo o dia inteiro, a semana inteira. Foi frase da semana do jornal 'O Globo'", diz.

Outra manchete que deu muito o que falar foi a referente à morte do ex-marido da atriz Susana Vieira, Marcelo Silva. Ele morreu de overdose após consumir uma grande quantidade de cocaína e, para noticiar esse fato, o "Meia Hora" deu: "Do pó vieste, pelo pó passaste, ao pó voltarás. Overdose de cocaína mata o ex de Susana Vieira". De acordo com Henrique Freitas, a chamada surgiu no meio de uma conversa informal entre membros da redação.

"Isso surge e não tem como fugir. Você não vai desperdiçar. É pesado, apelativo, cai para o mau gosto ou, nesse caso, você só está usando uma maneira diferente de contar a mesma história? Ele morreu por causa da cocaína. Misturamos uma passagem bíblica e foi comentário geral. Um dia depois, em uma outra matéria, usamos 'Metia o nariz onde não devia desde os 14 anos'", conta.

Marcelo Silva no jornal Meia Hora

Segundo Humberto Tziolas, embora as manchetes com trocadilhos e bem humoradas sejam uma marca do tabloide, nem sempre o assunto possibilita a criação delas. "Tem sempre que ver qual é o assunto que permite fazer uma piada e o que não permite. Você tem que ter sempre essa noção exata na sua cabeça. Se você errar em uma piada, a consequência é grande. As pessoas reclamam, se sentem ofendidas".

Henrique Freitas conta que muitas vezes há uma cobrança de amigos e pessoas próximas sobre o que o "Meia Hora" vai dar de engraçado no dia seguinte. "Nem sempre a gente vai conseguir tirar um coelho da cartola, fazer uma chamada, manchete ou matéria interna que chame a atenção como várias que já saíram. Não somos um 'Pasquim' ou 'Casseta Popular'. Somos um jornal diário, com conteúdo sério, que em alguns momentos consegue extrair bom humor dos fatos. Não fazemos humor, fazemos jornalismo", ressalta, completando que algumas pessoas ficam um pouco frustradas quando visitam a redação do jornal e não encontram uma central de piadas.

Referências e público-alvo

Cerca de 65% do que é publicado no "Meia Hora" é material reescrito vindo da redação do jornal "O Dia". Os repórteres do tabloide, em torno de 20, todos na faixa dos 20 e poucos anos, eliminam tópicos do texto original deixando a matéria mais direta e objetiva. Como boa parte deles não integra o público ao qual o jornal popular se destina, eles precisam ter em mente do que é importante para o leitor que compra o "Meia Hora".

Você precisa saber se dirigir para as pessoas das classes C e D sem parecer pedante, arrogante, forçado. Você tem que entender como essas pessoas se comunicam. Quase 50% dos nossos leitores só têm o primeiro grau", avalia Freitas, ressaltando que no tabloide o leitor encontra somente o fato, ou seja, não há uma análise de especialistas.

Para o editor-executivo, é essencial que a equipe que trabalha no "Meia Hora" tenha referências populares. Segundo ele, o repórter do tabloide não vai entender o mundo do pessoa para quem está escrevendo vendo TV a cabo. Freitas conta que assiste em casa "Zorra Total", o programa do Wagner Montes, "Big Brother", "Pânico" e as novelas da TV Globo e Record.

Tropa de Elite no jornal Meia Hora

"É importante estar antenado para assimilar esse tipo de conteúdo. Cultura pop. O popular é pop. Nós somos populares até a última gota. Nós queremos ser populares. Nós gostamos de ser populares. Eu adoro isso", diz. "Podemos usar uma manchete fazendo referência ao filme 'Tropa de Elite' ou 'Batman'. No entanto, a gente nunca vai fazer uma manchete com referência ao filme 'Os camelos também choram' ou 'A culpa é do Fidel'. Nós gostamos, mas as pessoas não iam entender nada."

Tanto Freitas quanto Tziolas se formaram na Universidade Federal Fluminense (UFF) na década de 90. O primeiro torce para o Botafogo, trabalhou como repórter do jornal "O Globo" e foi subeditor do "Extra" antes de ir para o grupo O Dia de Comunicação. Já Tziolas é flamenguista e, antes de assumir a editoria do "Meia Hora", foi subeditor de Polícia do jornal "O Dia", onde também atuou como repórter. Teve passagens ainda pelo portal Globo.com e o jornal "O Fluminense". Os dois possuem referências culturais parecidas, como "O Pasquim", "TV Pirata" e o jornal "Notícias Populares" de São Paulo, que, segundo eles, ajudam a fazer o tabloide.

"Quando existe a possibilidade de imprimir nossa marca num produto que estamos fazendo, levamos muito da nossa história", avalia Freitas. "Nós temos noção de que estamos fazendo um jornalismo diferente, único no Rio de Janeiro e talvez único no Brasil. Está chamando a atenção, está sendo relevante e está construindo uma coisa que, para esse momento, é bastante diferente".

Gata da hora

Uma das seções mais comentadas do "Meia Hora" é a coluna "A Gata da Hora", que conta com uma foto de uma torcedora de futebol, geralmente de um dos quatro clubes grandes do Rio, de biquíni ou lingerie e em poses sensuais. A coluna ficava no caderno de esportes do jornal "O Dia", mas, com o lançamento do "Meia Hora", passou para o tabloide. As candidatas mandam as fotos para um endereço de e-mail citado no jornal e cabe ao jornalista Giuseppe Amato, de 54 anos, selecionar as que serão publicadas.

"Eu recebo fotos de muitas barangas, mas estou sempre peneirando. Não posso ter preconceito. Aqui é um jornal democrático. A gente pede no jornal para elas mandarem a foto então tem que colocar de tudo, não pode discriminar. Tem que sair de todos os times, preta, branca, amarela, empregada, da comunidade", revela.

Ele abre um e-mail que acabou de chegar e reclama. "Já começou errada. Não mandou telefone". No corpo do texto, a seguinte mensagem: "Gostaria muito de fazer um ensaio para o jornal 'Meia Hora'. No momento só posso mandar essa foto, pois não tenho de biquíni".

Amato abre as fotos e avalia. "Vamos ver a baranga que é. [Expressão de aprovação] Até que é bonitinha. De biquíni deve ser magrinha, mas não são fotos assim que publicamos. Vou responder o e-mail dela. Tenho aqui dicas para as gatas. Texto semi-pronto. Explico que a gente não cobra e nem paga. Tem que mandar nome, idade, bairro e time para que torce. Tem que ter também uma autorização, questão de burocracia".

A caixa de e-mails ainda tem mais duas mensagens referentes à coluna mais popular do "Meia Hora". Em uma das mensagens, o seguinte texto: "Obrigada por ter colocado minha foto! Adorei a agilidade do serviço! Aqui na minha rua o jornal acabou em menos de uma hora! Gostaria de ter outra foto minha no jornal novamente no futuro". Ele fica feliz com o retorno e diz que ela pode sair novamente, mas daqui a algum tempo.

Amato resolve abrir o último e-mail que falta. A candidata em questão pede para sua foto ser publicada em março, no dia do seu aniversário. "Tem essas coisas também. Se der eu coloco". O jornalista resolve ligar para a postulante ao posto de Gata da Hora.

"Alô! Eu quero falar com a Suellen. É você minha querida? [Silêncio e expressão confusa] Deixa ver se eu entendi... Esse telefone é da rua? Entendi. É convencional manual e a senhora está na rua. Aqui é do jornal 'O Dia' querida. [Silêncio] Tá bom então. Tchau. [Desliga o telefone] Foi a avó dela que atendeu! Tá vendo essas coisas também acontecem".

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