RIO (Reuters) - É segredo, mas funcionou. Intrigou e agradou o público a troca de figurinos em plena Sapucaí, como num passe de mágica. Esse foi o primeiro truque do carnavalesco da Unidos da Tijuca, Paulo Barros, logo na abertura do desfile na noite de domingo. Conhecido por seu estilo ousado, o carnavalesco contou alguns dos mistérios da humanidade. E já no primeiro truque, agradou. O troca-troca de roupa surpresa das bailarinas da comissão de frente levantou o público e arrancou aplausos à medida que evoluía pela avenida. Um pano usado para encobri-las (num passe de mágica) revelava imediatamente um novo vestido, e depois outro e mais outro.

"Eu não faço enredo para causar polêmica, eu faço enredo para construir alguma coisa, para as pessoas se divertirem", defendeu-se minutos antes do desfile, cujo enredo simplesmente "É mistério".

Logo depois o público foi surpreendido com fumaça e "fogo". Era o incêndio da Biblioteca da Alexandria, representado no carro abre-alas chamado "E assim nasceram muitos segredos...".

A sucessão de mistérios viajou pelo "Fantasma da Ópera" e super-heróis representados por Batmans descendo em esquis e Homens-Aranha escalando uma imensa rampa. Não faltou o astro pop Michael Jackson, morto no ano passado. O cantor, interpretado por um destaque, estava à frente do carro que representava os contatos com alienígenas.

Na bateria, também houve inovação. O carnavalesco utilizou um elemento cenográfico --um carro típico da década de 30-- que atravessava entre os músicos, fantasiados de mafiosos. "Algumas pessoas até articulam, não vale a pena mexer na bateria ... Vale, sempre vale para fazer um grande espetáculo", afirmou o carnavalesco, que deixou a avenida entusiasmado com o resultado.

Grávida de quase quatro meses, a apresentadora Adriane Galisteu desfilou como dama da máfia. "Uma mulher dos anos 30", disse Adriane, justificando o maiô que substituiu o tradicional estilo duas peças mais ousado das rainhas de bateria. Sobre os cuidados que deveria tomar ao sambar grávida, a apresentadora afirmou: "Meu médico diz que 'mamãe feliz, bebê feliz'".

Em busca de seu primeiro título e de volta à escola tijucana depois de três anos, o carnavalesco disse não temer julgamentos. "As pessoas me chamam de estrategista. Sou estrategista. Eu libertei, eu deixei sair o que me interessava", afirmou emocionado. Reconheceu, no entanto, que fica "muito triste quando algumas pessoas falam que isso não é Carnaval".

CAMPEÃ NÃO EMPOLGA

O Salgueiro, detentor do título de campeão do Carnaval, contou a história da escrita, com personagens famosos de livros como Emília, do "Sítio do Pica-Pau Amarelo" (Monteiro Lobato), e o menino bruxo Harry Potter (J.K. Rowling), mas não empolgou como no ano passado, quando desfilou o enredo sobre o tambor.

A tradicional bateria da agremiação, que teve a rainha Viviane Araújo com seu repique, vestiu a fantasia de "Ali Babá e os 40 Ladrões". A atriz foi Sherazade, a narradora dos contros das "Mil e Uma Noites".

Mais cedo, duas ex-campeãs passaram por dificuldades em seus desfiles e escaparam por pouco de punição por estrapolar o tempo regulamentar. A Imperatriz Leopoldinense, de Max Lopes (carnavalesco) e Luiza Brunet (rainha da bateria aos 48 anos), atravessou a avenida com problemas no primeiro carro, que andava com dificuldade. O enredo "Brasil de todos os Deuses" passou sem vibração na Sapucaí.

A Viradouro, campeã em 1997, também não causou euforia no público, que levantou apenas para assistir à passagem da menina Júlia Lira, de 7 anos, centro de uma polêmica ao ser anunciada rainha da bateria pela agremiação de Niterói.

(Por Maria Pia Palermo, Pedro Fonseca e Hugo Bachega)

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