BRASÍLIA (Reuters) - Virtuais opositores na eleição presidencial do ano que vem, Dilma Rousseff (PT), ministra da Casa Civil, e José Serra (PSDB), governador de São Paulo-- dividiram a mesma cerimônia, nesta quarta-feira, na qual um dos ministros do presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a alternância de poder é uma dinâmica saudável para o país. No evento, o governo federal anunciou projeto de lei com o objetivo de facilitar o acesso a documentos públicos, em especial aqueles do período da ditadura militar (1964-1985).

"A ministra Dilma e o governador José Serra juntos. Duas figuras que a imprensa aponta como fortes candidatos à Presidência e que asseguram com sua presença o compromisso de que a caminhada é do Estado brasileiro, não importando a sucessão de partidos e de forças políticas no poder, cuja alternância é sempre saudável na vida democrática", afirmou o ministro da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, na cerimônia.

A declaração arrancou sorrisos do tucano e da petista, além do próprio presidente Lula, que estava sentado entre os dois no Palácio Itamaraty.

Muito à vontade no evento, quando discursou depois de Dilma, na entrevista Serra não só se negou a falar da eleição do ano que vem como não quis opinar sobre a pré-candidatura de Dilma.

"Antecipar campanha eleitoral não é bom para o Brasil", afirmou a jornalistas, dizendo que tem muito a fazer ao cuidar do governo paulista.

No discurso, Lula mandou recado aos militares, ausentes na cerimônia, afirmando que "ninguém veja isto como um revanchismo" e colocando os arquivos de seu governo à disposição de seus sucessores.

"Porque daqui a um ano em meio eu deixarei o governo e o que eu fizer de errado, quem vier depois de mim tem mais é que dizer as coisas que eu fiz de errado. E eu não posso achar que a pessoa está me perseguindo", disse.

SERRA SOVIÉTICO?

Na solenidade, enquanto Dilma se concentrou na explanação sobre as ações do governo para facilitar o acesso à informação, com direito a elogios ao governo paulista por já ter aberto os arquivos, Serra optou por um relato descontraído do registro de seu passado político pelos órgãos de repressão da ditadura, apontando erros do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), a polícia política do regime militar.

Tanto Dilma quanto Serra foram militantes de movimentos de combate à ditadura. Serra foi exilado enquanto a ministra ficou presa por três anos, após tortura.

Serra ironizou a veracidade das informações do Dops citando que, entre as 1,4 milhão de fichas do departamento, há registros sobre o papa João Paulo 2o, sobre um doente mental e ainda de uma cadela.

Relatou que em sua ficha consta que teria chorado em uma cerimônia em homenagem ao cosmonauta Yuri Gagarin, nos anos 60, ao lado do embaixador soviético. "Eu não tinha a menor simpatia pela União Soviética", reagiu.

Também tratou de corrigir os agentes do Dops ao informar que seu exílio começou em 1964 pela Bolívia e não pelo Chile, para onde foi em seguida, após atuar no movimento Ação Popular (AP), a chamada esquerda cristã.

Serra e Dilma já tinham estado frente a frente em um seminário sobre a crise econômica realizado em São Bernardo do Campo (SP), quando tiveram um comportamento bem menos amistoso do que nesta tarde.

(Reportagem de Natuza Nery; Edição de Carmen Munari)

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