Segundo maior colégio eleitoral do País com 14 milhões de eleitores, 10% do total nacional, Minas Gerais sempre teve peso decisivo nas eleições presidenciais. Em 2010, no entanto, o papel do estado vai além da questão meramente quantitativa. As chaves da disputa presidencial (ou os nós, conforme o ponto de vista) tanto para José Serra (PSDB) quanto para Dilma Rousseff (PT) estão nas alterosas.


Por um lado a cúpula tucana ainda acalenta a esperança de que o governador de Minas, Aécio Neves, aceite ser o vice de Serra formando a sonhada chapa puro-sangue. Além disso, a composição do arco de alianças em torno do vice-governador, Antonio Anastasia, pode impactar a disputa nacional.

Já Dilma e o PT assistem com preocupação a disputa interna entre os dois pré-candidatos petistas ao governo mineiro, o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel e o ministro do Combate à Fome, Patrus Ananias. O PT teme que a disputa rache o partido em um estado decisivo e inviabilize a aliança nacional com o PMDB, que espera apoio petista ao ministro das Comunicações, Helio Costa, líder nas pesquisas.

"Entendemos que o candidato da base do presidente Lula em Minas é o ministro Helio Costa. Não tem o que discutir. Não se resolve o problema nacional sem resolver Minas Gerais. Se o PT não nos apoiar o acordo nacional está rompido", disse o deputado Antonio Andrade (PMDB), presidente do partido em Minas.
Ele se refere ao acordo firmado no final do ano passado entre as cúpulas do PMDB e PT por uma aliança formal em torno de Dilma. Pelo acordo, ambos os partidos se comprometeram a apoiar nos estados o candidato que tiver mais chances de vitória, seja de qual partido for.

A indefinição do lado petista congela as negociações e coloca o acordo na berlinda. Há ainda o risco de a disputa ser decidida em uma prévia. Além da chance de racha no partido, a prévia pode dificultar o entendimento com o PMDB. "A prévia consolidaria a ideia da candidatura própria e ficaria difícil convencer a base a apoiar o candidato sde outro partido", disse Pimentel.

O sonho dos petistas é uma solução na qual Helio Costa seria vice de Dilma, Pimentel assumisse um cargo na coordenação da campanha da ministra - de quem é amigo desde a adolescência -e Patrus ficasse livre para disputar o governo. O próprio Lula chegou a sugerir, em dezembro, que o PMDB faça uma lista tríplice de candidatos a vice e Costa já disse que se for convidado, aceita.

A saída, no entanto, esbarra no presidente nacional do PMDB, Michel Temer, que não abre mão de ser o vice de Dilma. "Só falta combinar com os russos", ironizou o vice-prefeito de Belo Horizonte, Roberto Carvalho (PT).

No decorrer da semana, várias outras hipóteses foram aventadas. Uma delas é criar uma comissão de deputados formada por PT, PMDB e PRB para avaliar, com base em critérios objetivos que vão além das pesquisas, qual o candidato com mais chances.Uma saída mais dura é a aprovação de uma resolução política no Congresso Nacional do PT, que acontece entre os dias 18 e 21 de fevereiro. A terceira e mais possível opção seria a entrada de Lula em campo para arbitrar a disputa.

No final da semana surgiram comentários sobre a possibilidade de o vice-presidente José Alencar (PRB) se lançar candidato, colocando fim à disputa.

Em entrevista ao iG na sexta-feira, Alencar admitiu a possibilidade de concorrer mas isso depende de  uma avaliação médica sobre o estado de saúde do vice que, embora tenha se recuperado surpreendentemente, ainda inspira cuidados. De acordo com fontes petistas, a opção Alencar tem as digitais de Lula, que prefere não se envolver diretamente na disputa.

No lado tucano, todas as atenções estão voltadas para Aécio. Desde que anunciou a desistência da pré-candidatura, em dezembro, o governador é alvo de especulações sobre a possibilidade de ser o vice de Serra, o que negou de forma inequívoca. A derrota para Serra na disputa interna ainda não foi completamente digerida pelos tucanos mineiros. Agora, eles reclamam da demora do governador paulista em anunciar a candidatura. Isso tem atrapalhado a articulação de alianças e elaboração de uma agenda. "Para fazermos a agenda é preciso que a candidatura exista", disse o presidente do PSDB mineiro, Nárcio Rodrigues.

Questionado se a demora de Serra atrapalha as articulações no estado, ele respondeu: "temos que respeitar... a visão do governador Serra destoa da nossa visão".

Petistas levantam ainda a hipótese de que o fenômeno "lulécio" (quando muitos eleitores de Aécio votaram em Lula em vez do tucano Geraldo Alckmin em 2006) se repita. O motivo é a possível presença do PSB e do PDT na coligação que vai sustentar a candidatura de Anastasia. Seria o fenômeno "dilmasia". "Além de um mau gosto terrível, isso é de um oportunismo absurdo", reagiu Rodrigues.

Outra peculiaridade é que a eleição mineira parece uma espécie de negativo em proporção reduzida da disputa nacional já que Dilma e Anastasia tëm perfis semelhantes, assim como seus adversários. Tanto a ministra como o vice-governador são técnicos, nunca disputaram eleições e contam com o apoio de governantes altamente populares. Já seus adversários são políticos eleitoralmente experimentados, vêm de partidos fortes e passaram por desgastantes disputas internas.

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