RIO DE JANEIRO - O advogado Márcio Frazão, que defende três dos militares do Exército acusados de terem entregado moradores para traficantes do Morro da Mineira, no Rio, afirmou nesta terça-feira que eles contaram, em depoimento, que desceram do caminhão em que estavam quando o veículo já estava cercado por traficantes. Cada um tomou posição para se defender. Um deles ficou atrás de um poste. O Bruno (sargento Bruno Eduardo de Fátima) disse que nunca viu tanto civil armado.


Segundo a versão de Eduardo de Fátima, do sargento Renato de Oliveira Alves e do soldado Sidney de Oliveira Barros, defendidos por Frazão, eles teriam ficado na base do morro, enquanto o tenente Vinícius Ghidetti e o sargento Leandro Maia Bueno negociavam a entrega dos jovens aos traficantes.

Nesta terça, o delegado Ricardo Dominguez, que investiga os assassinatos dos três jovens do Morro da Providência, começou a ouvir nove dos 11 militares acusados. Os traficantes que seqüestraram os três moradores pertencem a uma facção rival à que controla a venda de drogas na Providência. Dominguez pretende estabelecer a participação de cada um no episódio e, segundo Frazão, ele havia decidido indiciar os 11 sob a acusação de seqüestro.

"Em conversa extra-oficial, o delegado confirmou que vai estabelecer a participação de cada um, e que três ou quatro seriam indiciados também sob a acusação de homicídio triplamente qualificado", disse.

Até as 18 horas, Dominguez ainda permanecia no 1º Batalhão de Polícia do Exército (BPE), na Tijuca, zona norte da capital fluminense, e não havia confirmado a informação.

Segundo Frazão, os três militares que prestaram depoimento nesta terça contaram que chegaram ao quartel do Santo Cristo, no sábado, e foram convocados para fazer a guarda de um caminhão do Exército.

No veículo, estavam os três moradores da Providência, detidos por desacato. "O Bruno, que é de Juiz de Fora (MG), ouviu que os rapazes seriam deixados no Sambódromo para que voltassem a pé, como um corretivo. Mas ele percebeu que o caminho tomado foi outro. Ao chegar, percebeu que estava no pé do Moro da Mineira."

'Desdobramentos'

O advogado de Ghidetti, João Carlos Rocha, disse que ele havia levado os rapazes ao morro para uma repreensão "mas não imaginava os desdobramentos". O advogado de Bueno não foi localizado. Antes de tomar os depoimentos, o delegado disse que pretendia pedir a quebra dos sigilos telefônicos dos militares que levaram os rapazes para a Mineira.

Exército não está apto, diz ministro

O Ministro da Justiça, Tarso Genro, admitiu na tarde desta terça-feira que as Forças Armadas não estão aptas para tratar da segurança pública nas cidades. "Isto comprova uma visão que é do presidente, de que as Forças Armadas não estão aptas para tratar da segurança pública".

Ele ressaltou ainda que o ocorrido é absolutamente lamentável. "Este fato é altamente negativo e as Forças Armadas vão tomar todas as providências para punir estes responsáveis".

Exército vai rever ocupação

Após reunião com líderes comunitários do Morro da Providência nesta terça-feira, o Exército informou que vai reduzir o número de militares responsáveis pela segurança das obras do projeto Cimento Social, do Ministério das Cidades.

Agência Estado
General se desculpa por morte de garotos
O Exército também vai decidir, até a próxima quinta-feira, se mantém a ocupação na localidade. Os funcionários da obra, que haviam paralisado as atividades em decorrência da morte de três jovens da comunidade, vão retomar os trabalhos em caráter emergencial.

O anúncio foi feito pelo comandante da 9ª Brigada de Infantaria, general Mauro Cesar Cid - que pediu desculpas às famílias dos jovens assassinados por traficantes do Morro da Mineira, na zona norte.

Militares prestarão depoimento

Oito militares ¿ seis soldados e dois sargentos - serão ouvidos pelo delegado Ricardo Dominguez, nesta terça-feira, no 1ª Batalhão de Polícia do Exército, localizado na Tijuca, zona norte. Eles iriam à unidade policial, mas prestarão depoimento no Exército por medida de segurança. Dominguez espera esclarecer a participação de cada um dos 11 indiciados, que estão presos administrativamente.

O caso

AE/Marcos DPaula
Policiais do Exército e moradores em confronto
Marcos Paulo da Silva, de 17 anos, Wellington Gonzaga Costa, 19, e David Wilson Florença da Silva, 24, moradores do Morro da Providência, na Zona Portuária do Rio, teriam sido entregues no último sábado e mortos, menos de 12 horas depois, por traficantes do Morro da Mineira, no Catumbi.

Em depoimento ao titular da 4ª Delegacia de Polícia, delegado Ricardo Dominguez, alguns dos suspeitos teriam confessado o crime. Os jovens foram detidos pelos militares às 7h30 do sábado, quando voltavam de táxi de um baile funk, por desacato. Porém, o comandante da tropa determinou que eles fossem liberados após serem ouvidos.

Testemunhas afirmam que os rapazes ficaram sob o poder dos militares até as 11h30 e depois foram entregues a traficantes de uma facção rival a do Morro da Providência, onde os rapazes moravam, no Morro da Mineira, onde foram executados. Há denúncias de que as vítimas teriam sido vendidas por R$ 60 mil.

Nesta segunda-feira, após o enterro dos três jovens, moradores do Morro da Providência protestaram em frente à sede do Comando Militar do Leste (CML). Durante a manifestação, policiais do Exército entraram em confronto com os moradores, atirando bombas de efeito moral.

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