Por Roberto Samora SÃO PAULO (Reuters) - O plantio de milho transgênico dará um salto na próxima safra (2009/10) para cerca de metade da área semeada em alguns Estados do Brasil, o que colocará pressão nas indústrias alimentícias, que não trabalham com produtos modificados geneticamente.

Na safra de verão anterior, apenas cerca de 5 por cento da área de cultivo foi transgênica.

Entenda-se aqui por indústria alimentícia aquela que processa o milho que segue diretamente para o consumo humano e não as fábricas que esmagam o cereal para destiná-lo à ração de frangos e suínos.

A avicultura e a suinocultura, os dois setores que mais consomem milho no Brasil, abocanham anualmente mais de 60 por cento da safra do cereal do país, de cerca de 50 milhões de toneladas, em 2008/09.

Já a indústria alimentícia fica com menos de 10 por cento da produção nacional do grão, mas mesmo assim já começa a sentir-se pressionada, especialmente porque as condições de segregação do produto convencional no país são consideradas deficitárias.

Além disso, há risco de contaminação por transgênico em lavouras convencionais até pela polinização, que pode ocorrer pelo vento, se não for respeitada uma distância mínima entre as plantações.

"No próximo verão, sentimos que o transgênico vai para mais de 50 por cento na média (da área plantada)... Então para 2010 é complicado, somente quem pagar um plus para o produtor terá segregação especial", afirmou Aldo Alves, gerente da Integrada Cooperativa Industrial, em Andirá (PR), que trabalha somente com o grão convencional.

Entre os fatores para o crescimento do milho transgênico, além do fato de o produtor estar experimentando uma lavoura que pode lhe render mais e ser menos custosa, está o ainda nascente mercado de prêmio pelo cereal não-transgênico, que até agora foi pouco estimulante.

Mas, de acordo com Alves, na próxima safra, com o plantio começando em outubro e novembro, é possível que no Paraná (maior produtor nacional) aquele agricultor que conseguir segregar conseguirá um prêmio de 12 a 15 por cento em relação ao valor de mercado.

Embora o gerente da cooperativa avalie ser bastante provável o pagamento de prêmio ao produtor de convencional, ele ainda tem dúvidas de como o consumidor final, no supermercado, vai reagir, se vai aceitar a pagar um "plus" pelo produto feito a partir de grãos não-transgênicos.

"Eu vou pagar 15 por cento para o produtor, mas vou jogar 15 por cento para o óleo de milho bruto. Mas temos dúvidas, não sei se o mercado vai me remunerar, é uma dúvida muito grande para nós transformadores", acrescentou.

Os processadores de milho para o setor de alimentos vendem seus produtos para empresas do setor cervejeiro, além de produtoras de salgadinhos e cereais matinais, muitas delas multinacionais que preferem não ver suas marcas relacionadas a transgênicos.

OUTRO LADO

Se há algumas companhias que não usam o produto geneticamente modificado, há outras que não veem nenhum problema.

As indústrias de rações, cujos principais clientes são as produtoras e processadoras de carnes, seguirão usando milho e farelo de soja transgênicos, pois a "ciência ainda não divulga nenhum episódio deletério à saúde de pessoas que consumiram grãos ou cereais modificados", disse Ariovaldo Zanni, diretor-executivo do Sindirações.

Ele disse ainda que o comprador da carne brasileira não tem se manifestado contrário à alimentação animal com produtos geneticamente modificados, até porque cientistas já concluíram que a modificação genética não é identificada nos tecidos animais.

"Eu interajo com os principais executivos do setor, e não há pressão externa", completou ele, lembrando que os estrangeiros estão mais preocupados se o Brasil está desmatando suas florestas do que se utiliza transgênicos.

Zanni explicou ainda que a biotecnologia é a única forma de aumentar a produção, por meio de ganhos de produtividade, sem abrir novas áreas para plantações. "O uso dos organismos geneticamente modificados seguros e aprovados é uma necessidade, é uma nova etapa da humanidade, para termos garantias de suprimentos. Serão 9 bilhões de bocas para serem alimentadas já em 2030", afirmou.

MERCADO ESPECIAL

Para Ricardo de Souza, diretor-executivo da Associação Brasileira de Produtores de Grãos Não Geneticamente Modificados (Abrange), embora o mercado europeu, um dos mais importantes para a carne de frango do Brasil, não exija rotulagem de carnes produzidas a partir de transgênicos, o país deveria estimular o produto convencional.

"A pessoa que compra o não-transgênico provavelmente está focada em um mercado especial", disse ele, observando que o Brasil poderia se diferenciar de outros países, oferecendo um produto que poderia ter maior valor agregado.

Isso para não falar na hipótese de mudança nas legislações no exterior. De acordo com o executivo da Abrange, há um movimento para que se mude a regra europeia e carnes produzidas a partir de transgênico sejam rotuladas.

Tal norma funcionaria como a atual legislação brasileira, que o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) não acredita estar sendo cumprida plenamente, apesar de associações do setor produtivo, como a UBA (União Brasileira da Avicultura), afirmarem seguir.

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