Micro-ônibus atropela quatro, mata um e causa protesto no ABC, na Grande São Paulo

Um estudante de 15 anos morreu atropelado por um micro-ônibus na noite de segunda-feira na Vila Metalúrgica, em Santo André, no ABC paulista. Ele estava em um bar com mais três pessoas, que também foram atropeladas, mas não correm risco de morte.

Agência Estado |

AE
Manifestantes colocam fogo em micro-ônibus

Manifestantes colocam fogo em micro-ônibus

O motorista do coletivo, identificado como Amarildo Mariano da Silva, de 33 anos, foi preso em flagrante depois de fugir do local do acidente. Ele responderá por homicídio culposo (sem intenção de matar).

Revolta e protesto

Cerca de 150 moradores das imediações se revoltaram com o atropelamento e fizeram um protesto. Eles incendiaram um micro-ônibus e depredaram outro, ambos da empresa Consórcio União Santo André, a mesma do veículo que atropelou as vítimas. Três barricadas foram montadas - duas onde fica o bar e outra nas proximidades do local.

Os manifestantes também atacaram com pedras carros que passavam pelas imediações e incendiaram guaritas de fiscais do transporte público. Houve confronto com a polícia, que chegou ao local no começo desta madrugada. Para responder aos ataques feitos com pedras e pedaços de pau, os policiais militares usaram balas de borracha. Foram enviadas ao local viaturas do 10º Batalhão de Santo André e do 6º Batalhão de São Bernardo do Campo, também no ABC paulista.

Ainda durante a manifestação, os moradores arrastaram o guincho do Consórcio União Santo André, que foi até o local para recolher o coletivo incendiado, e tentaram jogar o veículo no Rio Tamanduateí, na Avenida dos Estados.

O guincho era ocupado por três funcionários. Um deles conseguiu fugir. Os outros dois afirmaram ter sido agredidos pelos manifestantes. "Eu estava puxando o micro-ônibus com o guincho e daí o pessoal começou a quebrar tudo, a bater no vidro. Eu saí, mas voltei para pegar os meus documentos e acabei apanhando", contou o motorista, Francinaldo Tomasini, de 30 anos.

"O povo gritou 'desce, desce' e falava 'bota fogo'. Nós apanhamos adoidado", afirmou o encarregado Afonso Mariano da Silva, de 58 anos. Afonso é pai do motorista que dirigia o micro-ônibus no momento do acidente. Ele não quis comentar o atropelamento. Com medo, o terceiro ocupante do guincho, um eletricista, fugiu do local. Ele foi a pé até a garagem da empresa. "Ele levou mais de meia hora para chegar lá", contou Afonso.

O acidente

O adolescente estava sentado na mesa de um bar na calçada com os ajudantes José Elandio da Cunha, de 33 anos, Adriano da Costa, de 21 anos, e a auxiliar de serviços gerais Maria Aparecida de Lima Araújo, de 44 anos. O motorista do micro-ônibus vinha da Avenida da Paz. O ponto final da linha fica na mesma rua do bar. Ao fazer uma curva à esquerda, o motorista perdeu o controle do veículo, invadiu a calçada e atropelou as quatro vítimas.

O adolescente morreu na hora. Os três feridos foram levados ao Pronto-Socorro (PS) Central da cidade. Cunha sofreu uma fratura exposta na perna direita e passou por cirurgia. Os outros dois feridos foram medicados e liberados.

José Carlos Ferreira da Costa, de 45 anos, dono do bar, afirmou que Amarildo costumava frequentar o local há algum tempo. "Ele veio uns três anos aqui direto e sempre bebia no horário de trabalho, já chegou a ser afastado da empresa. Mas fazia uns três anos que ele não aparecia aqui", disse. Costa estava dentro do bar no momento do acidente, pouco antes das 22 horas. "Ouvi o barulho e daí vim socorrer o pessoal", completou.

Segundo moradores, os motoristas de coletivos costumam dobrar a mesma esquina onde Amarildo perdeu o controle do veículo em alta velocidade. "No último sábado eu vinha do trabalho e ia atravessar a rua em frente ao bar quando veio um micro-ônibus. Tive de dar um passo para trás. Se eu não paro, sou atropelada", afirmou uma auxiliar de serviços gerais, de 27 anos, que preferiu não se identificar. "Eles (os motoristas) não têm responsabilidade, querem andar como se estivessem em um avião, voando", avaliou.

O gerente de estacionamento Velcide Ribeiro da Silva, de 51 anos, pai do adolescente morto, confirmou as declarações. "A velocidade deles (motoristas) é altíssima. Lá é uma curva perigosa e eles não respeitam".

Tragédia

Um menino carinhoso e cheio de sonhos. É assim que o pai do adolescente definiu o filho. "No último fim de semana ele falou que queria fazer faculdade e cursar medicina", contou. "No sábado, ele me pediu um beijo. Parece que sabia o que ia acontecer", disse, emocionado.

Silva contou ter criado o filho dentro da igreja. Ele disse que o adolescente havia saído de casa pouco antes do acidente para comprar um pacote de bolachas. "Ele pediu R$ 2 para a minha esposa e foi, mas acabou perdendo a vida." A família do jovem mora em um apartamento no mesmo prédio onde fica o bar no qual ele foi atropelado. O estudante cursava a 8ª série do ensino fundamental e ajudava o pai no estacionamento há pouco menos de um ano. "Era uma maneira dele ficar do meu lado", explicou o gerente.

Nas horas livres, o adolescente gostava de jogar futebol. "Ele era uma criança maravilhosa", afirmou o pai. "O que aconteceu é uma tragédia, está doendo na alma. É uma dor que ninguém vai apagar", desabafou.

Prisão

O delegado Roberto Von Haydin Júnior, do 2º Distrito Policial (DP), de Santo André, contou que Amarildo disse ter fugido do local do crime com medo de ser linchado. Ele foi localizado pela polícia pouco depois, próximo à empresa onde trabalha, e levado até a delegacia. Conforme o delegado, o motorista alegou que o banco do micro-ônibus se soltou no momento em que ele fez a curva, o que causou a perda de direção do veículo. Mas uma avaliação inicial da perícia não constatou irregularidades no assento.

"Agora será feita uma perícia mais profunda, inclusive com o uso de um boneco com o mesmo peso do motorista", explicou Júnior. Um exame clínico feito em Amarildo não constatou embriaguez. Mas o delegado também solicitou um exame de sangue para verificar uma possível ingestão de álcool. O resultado deve ficar pronto em aproximadamente uma semana. A perícia ainda deve apurar a velocidade em que o motorista fez a curva.

"Ele (Amarildo) foi preso por um crime que não prevê fiança e continuará preso aguardando um parecer da Justiça, que decidirá se ele vai responder ou não pelo crime em liberdade", explicou o delegado. De acordo com ele, a pena para o crime de homicídio culposo na direção de veículo automotor vai de 2 a 4 anos, mas pode ser aumentada em um terço neste caso, porque o motorista estava no exercício da sua profissão, na direção de um veículo que conduz passageiros.

Leia mais sobre acidentes

    Leia tudo sobre: acidentes

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG