Prova do governo de Minas a estudantes associa Lula ao mensalão

Estado suspende aplicação do exame, que era destinado a estudantes do ensino médio

Denise Motta, iG Minas Gerais |

Reprodução
A charge usada na prova do governo de Minas
Uma prova de história para avaliar aprendizagem escolar, aplicada a alunos do ensino médio em Minas Gerais, contém uma charge envolvendo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva diretamente com o mensalão, esquema de pagamento a parlamentares em troca de apoio em votações no Congresso Nacional.

A revelação foi feita pelo bloco de oposição ao governador Antonio Anastasia (PSDB), "Minas sem Censura". O governo admitiu que a prova foi feita pelo Estado. O exame atinge um universo de 721.300 alunos do ensino médio, mas não se sabe ao certo quantos fizeram o teste.

Após a divulgação da questão envolvendo Lula, o processo de avaliação de desempenho em Minas foi suspenso e o governo promete rever as 58 mil questões oferecidas por um banco de dados da Secretaria de Estado de Educação, de onde a pergunta foi extraída.

O bloco divulgou uma das questões da prova, uma charge na qual Lula pergunta a um engravatado: “Isso não te lembra do tempo que distribuíamos boletins em porta de fábrica?”. No desenho também aparece Lula distribuindo dinheiro vivo a engravatados, que seriam parlamentares do Congresso Nacional. Em seguida, a questão indaga a que se refere a charge quando expõe a distribuição de boletins em porta de fábrica. São apresentadas quatro alternativas.

A resposta correta da questão, de acordo com o bloco de oposição, é de que a charge “sugere, ironicamente, uma relação entre os movimentos sindicais do início da década de 1980 e o 'mensalão', refletindo sobre o processo histórico que levou os mesmos personagens de uma luta pela valorização do trabalhador à corrupção política”.

Procurada pelo iG , a assessoria do governo de Minas admitiu que a charge está em um banco de dados com 58 mil questões. Assessores próximos ao governador disseram ao iG que Anastasia, ao saber do caso, considerou o fato gravíssimo e inaceitável. Ele pretende exonerar os envolvidos. A secretaria de Educação disse que este tipo de prova é elaborado por diretores, que possuem acesso a um banco de questões. Ela não explicou como funciona o banco de questões e se há algum tipo de aprovação das provas por alguém da secretaria.

Oposição

O líder do bloco, deputado estadual Rogério Correia (PT), disse que pedirá, por meio de requerimento protocolado na assembleia, uma explicação formal ao governo sobre a aplicação da prova. Ele sugere que Anastasia possa ser enquadrado no crime de improbidade administrativa porque estaria violando os princípios da administração pública de honestidade, imparcialidade e legalidade. “Isso é um desrespeito com o Lula e demonstra que esse clima de cordialidade em Minas não existe”, atacou Correia, que soube da prova porque foi procurado por professores, segundo ele, constrangidos em aplicar o teste.

Deputados estaduais e federais do PT, além do senador Clésio Andrade (PR), presentes nesta quarta-feira (06) em reunião do bloco mineiro pró- Dilma , em Brasília, receberam cópia da questão. O presidente do PT mineiro, deputado federal Reginaldo Lopes, disse que o assunto será tratado em uma reunião da Executiva estadual do partido, no próximo dia 18 e também será encaminhado para o PT Nacional. “É um absurdo, principalmente porque os tucanos reclamam do aparelhamento da máquina pública pelo PT”, afirmou Lopes.

Em nota, o bloco de oposição a Anastasia destaca três pontos sobre o caso. O primeiro diz que “dinheiro público é usado para se fazer luta partidária”. O segundo ponto destaca que “como se trata de conduta caluniosa, a informação veiculada na pergunta e nas respostas, tida como verdade histórica, visa impor uma versão unilateral, improvável, sobre determinados fatos, porque não há nem sequer acusação formal a Lula”.

Já o terceiro ponto diz que “tal fato prova que a suposta cordialidade, polidez institucional e tratamento qualificado que o senador Aécio Neves e Antônio Anastasia dizem dispensar à presidenta Dilma e ao ex-presidente Lula não passam de uma farsa”.

Outro lado

Em nota divulgada nesta quinta, a Secretaria de Estado de Educação informou que há recomendação para que determinados temas sejam evitados em provas de avaliação. Entre eles estão “temas relacionados a preconceito e discriminação”, “abordagens fora do contexto, muito genéricas ou restritivas” e “abordagens de pregação religiosa ou ideológica”.

Também afirmou que a questão sobre Lula faz parte de um banco de questões que não passaram pelo crivo da secretaria, ao contrário de itens incluídos em outros anos. A secretaria ainda informou que a prova foi elaborada por um professor da rede estadual.

“A Secretaria de Estado de Educação considera a inclusão da charge na questão da prova de História totalmente inadequada e condena veemente a elaboração e/ou apropriação de conteúdos que não estejam de acordo com as orientações do Guia de Elaboração e Revisão de Questões e Itens de Múltipla Escolha”, informa também a nota.

    Leia tudo sobre: LulamensalãoeducaçãoprovaAnastasiaDilma

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG