Praça da Savassi, coração cultural de BH, sofre com reforma

Antigo endereço de Tancredo Neves e ponto de encontro de artistas e intelectuais, praça passa por obras e vê movimento despencar

Denise Motta, iG Minas Gerais |

A Praça da Savassi, coração cultural de Belo Horizonte, ganhou uma cratera entre as suas árvores que, aos poucos, está eliminando lojas, livrarias e a aura do ponto mais charmoso da capital mineira. A Prefeitura de Belo Horizonte resolveu reformar a praça, mas o resultado, até agora, é a fuga de frequentadores. É como se abrissem um buraco no Leblon, no Rio de Janeiro, ou no cruzamento da avenida Paulista com a rua Augusta, em São Paulo.

Arquivo pessoal
O ator e diretor Daniel Filho e o escritor Roberto Drummond, em queda de braço na Livraria da Travessa. O escritor, autor de "Hilda Furacão", morreu em 2002
Nas décadas de 1950 e 1960, a praça Diogo de Vasconcelos (historiador e político mineiro do século 19), nome oficial da Savassi, o ex-presidente Tancredo Neves era um dos seus moradores. Tancredo saia frequentemente para, a poucos metros dali, tomar sorvete vaca preta (creme com Coca Cola) no supermercado Serve Bem, pertinho do cruzamento da avenida Cristóvão Colombo com a avenida Getúlio Vargas. Juscelino Kubitscheck, também ex-presidente, costumava frequentar a região para visitar o médico Júlio Soares, seu cunhado, casado com Maria da Conceição, a Naná. E, claro, todos os estudantes e intelectuais da cidade vão para lá. Com a passagem dos anos, o supermercado Serve Bem já não existe mais, os jovens vão para outros lugares e a praça começa a se deteriorar. Adoradores da Savassi, já de cabelos brancos, criam um movimento para revitalizá-la e devolver o glamour do passado. Era o começo dos anos 1990.

Denise Motta/iG
Os buracos na praça da Savassi, em Belo Horizonte

O escritor Roberto Drummond, um “savassinao nato”, como dizem na capital mineira, lançou em 1991 o livro “Hilda Furacão”, que deu origem à minissérie de mesmo nome, exibida pela TV Globo, que tem a praça como centro - e ajudou a devolver parte do glamour. Anos mais tarde, após sua morte, em 2002, Drummond acaba imortalizado naquela praça com uma escultura em bronze, em tamanho natural. A revitalização fora um sucesso e o termo “savassiano” ganhou as esquinas de BH para definir os amantes da região.

Estado de espírito

O nome do bairro vem de um antigo comerciante, Amilcare Savassi, padeiro italiano. Ele tinha uma padaria na década de 1930 na praça. Mas, para os seus frequentadores, Savassi, é outra coisa. "A Savassi é um estado de espírito”, define Juliano Rennó, que acompanhava Drummond pelas frequentes estadas no local. Rennó, hoje proprietário de imobiliária no bairro, criou o movimento Pró-Savassi, na década de 1990, e, como tantos outros amantes da Savassi, está desolado com o buraco na praça, feito pela prefeitura. "Não consultaram as pessoas", diz ele. A prefeitura afirma que fez consultas públicas.

Viajo pelo mundo, mas sempre quero voltar para encontrar a Savassi. O tempo das obras é imenso, pelo menos no meu coração”

Para alguns comerciantes da Savassi, o preço de ver a região histórica recauchutada está sendo alto demais. As obras tiveram início em abril deste ano e estão longe de terminar. A previsão de entrega é abril de 2012. Porém, na metade do prazo previsto, o estrago não se restringe a obras que levam a perfurações das calçadas, causando crateras no coração de quem passa por ali e sempre relembra uma história.

O problema, reclamam os comerciantes, é que as intervenções levaram o comércio a ruir. “O prejuízo pode ter chegado a 50%. Seria cego quem não visse”, afirma Alessandro Runcini, do Clube dos Dirigentes Lojistas da Savassi (CDL).

Arquivo pessoal
Danilo Caymmi, filho de Dorival Caymmi e irmão de Nana Caymmi, em apresentação musical na Praça da Savassi
O cálculo dele, infelizmente, pode estar errado. “Meu faturamento caiu 80%”, lamenta o proprietário do tradicional Café da Travessa, Fábio Soares Campos. É praticamente uma unanimidade entre os comerciantes que Campos foi o maior prejudicado com as obras. Ele dependia da praça para apresentações artísticas e culturais. Muitas delas memoráveis. No final da década de 1990, Danilo Caymmi, filho de Dorival Caymmi e irmão de Nana Caymmi, deu uma “canja” ao ar livre, bem em frente à antiga Livraria da Travessa, hoje Café. “De 28 funcionários, demiti seis e outros cinco pediram para sair, porque as comissões não estavam compensando. Para piorar, existe uma certa morosidade na obra. Eles começam e param. Parece que há falta de mão de obra”, relata Campos.

As obras

A Prefeitura de Belo Horizonte nega problemas no cronograma das obras e afirma que os transtornos são temporários para melhorias permanentes. Ao todo serão investidos R$ 10,4 milhões, grande parte da iniciativa privada. Quem vai entrar com R$ 7,58 milhões dos recursos é um shopping localizado na avenida Cristóvão Colombo, na esquina com a avenida do Contorno.

Denise Motta/iG
Frente de loja na Savassi: faturamento caiu 80% em algumas lojas
A assessoria de imprensa da Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap) informou ao iG que o prazo para término das obras é o primeiro semestre de 2012. Entre as intervenções estão alargamento de travessias, drenagem e revitalização de ruas além de novos pisos e postes de iluminação. Tudo em trechos de apenas quatro vias no entorno da Praça da Savassi (ruas Antônio de Albuquerque e Pernambuco, avenidas Getúlio Vargas e Cristóvão Colombo).

O CDL encaminhou pedido de isenções de tributos ao poder público para tentar minimizar os impactos das quedas nos faturamentos dos comerciantes, mas não há, ainda, sinal positivo da prefeitura. Há quem defenda responsabilizar a prefeitura pelo prejuízo. Um deles é David Malamud, comerciante há 30 anos na Savassi. Após tanto tempo, ele confessa: pensa em desistir de continuar no local. Para ele, o grande problema será a falta de vagas de estacionamento, já que após as obras cerca de 200 serão extintas.

“Na minha opinião, esta obra não tinha motivo. Existem outras coisas prioritárias na cidade. Nunca fomos consultados em época nenhuma. Não teve opinião da comunidade. Estão enfeitando a Savassi, passando batom nela. Esta obra só trouxe prejuízo e quebradeira, teve muita demissão. Dispensei 30% dos funcionários”, reclama ele, que possui uma tradicional loja de roupas infantis na avenida Getúlio Vargas onde, hoje, há moradores de rua dormindo sob as marquises.

Com a falta de movimento, a região ficou mais perigosa. “Aumentaram os assaltos e todo mundo acredita que seja, principalmente, pelo caos junto com as obras, algum pedaço de rua interditado, com tapume, inibe visibilidade, facilita ações deste tipo”, diz Runcini, do CDL.

Estão enfeitando a Savassi, passando batom nela. Esta obra só trouxe prejuízo e quebradeira, teve muita demissão. Dispensei 30% dos funcionários”, diz comerciante

A reportagem do iG passou alguns dias entre as obras e viu apenas dois guardas municipais e um policial militar no local. Questionados, eles disseram que estão focados apenas no trânsito, que sofre frequentemente mudanças de direções nas vias do entorno da praça principal.

O iG apurou ainda que a Polícia Militar vem agindo para coibir assaltos e outros crimes na região, além do uso de drogas, mas não foi informado pela prefeitura se há um planejamento para reforçar a segurança, durante e após as obras. A Polícia Militar foi procurada, mas alegou que não fornece dados estatísticos da violência por bairros da capital. “Sobre as questões de segurança, falta de vagas e isenção de tributos, extrapolam o empreendimento e devem ser tratados em outros setores da municipalidade”, informou por meio de nota a assessoria de imprensa da secretaria municipal de obras.

Do passado saudoso ao presente incerto, o que se espera da Savassi é um futuro melhor. “Viajo pelo mundo, mas sempre quero voltar para encontrar a Savassi. O tempo das obras é imenso, pelo menos no meu coração”, conclui Juliano Rennó.

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