Minas Gerais desarticula Cracolândia com atendimento aos usuários

Secretaria de Políticas Antidrogas do Estado diz que ação tem como objetivo diferenciar usuários de traficantes

Denise Motta, iG Minas Gerais |

Herbert Mitraud/Divulgação
Cracolândia de BH fica próxima a um conjunto de prédios tombado pelo patrimônio
Há um ano, dezenas de pessoas tomavam as ruas da Cracolândia de Minas Gerais. Assim como em São Paulo, usuários de drogas perambulavam pelos arredores do IAPI, conjunto habitacional de Belo Horizonte, construído na década de 1940, durante a gestão de Juscelino Kubitschek.

No último dia 17, no entanto, o iG presenciou apenas dois usuários nesta região. Diferentemente do que ocorre em São Paulo, os usuários não foram afastados pela Polícia Militar. Eles estão sendo abordados por assistentes sociais do governo e alguns toparam enfrentar um tratamento.

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No segundo semestre do ano passado, o governo estadual e a Prefeitura de Belo Horizonte implementaram atendimento de saúde itinerante para os usuários de drogas.

O primeiro foco do trabalho foi justamente nos arredores do Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários, o IAPI, que ficou conhecido como a Cracolândia da capital mineira, no dia 3 de agosto. O local fica no Bairro São Cristóvão, região noroeste da capital.

Herbert Mitraud/ Divulgação
Conjunto IAPI foi construído na gestão de JK prefeito e seus arredores foram tomados por usuários de drogas

O subsecretário de Políticas Antidrogas do governo estadual, Cloves Benevides, conta que as ações do poder público têm como característica diferenciar usuários de traficantes. Questionado sobre a ação do poder público em São Paulo para dar fim à Cracolândia paulista, Benevides classificou a medida como “confusa”.

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“É preciso um planejamento antecipado. Não consigo precisar o que falhou em São Paulo, mas o caso é grave, tem um dimensão que não existe similar no Brasil. É preciso ter em mente que uma ação deste tipo é uma ação de saúde, não apenas de abordagem policial", diz o subsecretário.

Tratamento

Um dos usuários acolhidos nos arredores do IAPI foi Natal Pereira de Souza, de 22 anos. Há seis meses ele faz tratamento para se livrar do vício. “Com o crack, eu não tinha força para mais nada, só pensava na morte. Estava morando na rua quando resolvi aceitar ajuda. Olhava carro e pedia dinheiro para comprar a droga. Fumava umas 20 pedras por dia e, quando não tinha, bebia. Nem consigo descrever a sensação da bebida. Era horrível”, conta.

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Usuários de drogas da Cracolândia de BH recebem atendimento em programa do governo estadual
Vivendo na rua, sem comer e tomar banho, o rapaz se agarrou à oportunidade de largar o vício que mantinha desde os 16 anos. Tudo começou com maconha, passou pelo loló e cocaína até chegar no crack.

O atendimento de Natal começou pela manhã. Antes de conversar com psicólogo, ele tomou banho, almoçou e cortou os cabelos.

Natal é atendido pelo projeto chamado Rua Livre, uma iniciativa itinerante do governo estadual para abordar usuários nas ruas e oferecer ajuda.

Levantamento divulgado pelo governo indica que 86% dos usuários abordados desde agosto aceitaram ajuda. Ao todo, foram 207 usuários abordados. Destes, 178 aceitaram tratamento na capital e cidades da Grande BH (Santa Luzia, Contagem, Jaboticatubas e Lagoa da Prata). A taxa de permanência no tratamento foi de 63%, de agosto a dezembro de 2011.

Conforme levantamento da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), em 717 de um total dos 853 municípios mineiros foram identificados consumo de algum tipo de drogas, ou seja 84%. A circulação de crack atinge 511 cidades, 60% do total .

Confederação Nacional dos Municípios / Observatório do Crack
Mapa do crack de Minas Gerais

Planos emergenciais para combate ao uso de drogas e atendimento aos usuários foram criados por meio de decretos em Minas Gerais, em 2009, 2010 e 2011, consumindo recursos superiores a R$ 117 milhões.

Além disso, o governador Antonio Anastasia (PSDB) determinou, por meio de decreto, que 1% do orçamento de cada secretaria e órgão estadual seja para programas de prevenção ao uso e combate às drogas. Só em 2011, dentro desta perspectiva, foram R$ 70 milhões.

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Minas Gerais também integra plano do governo federal de combate ao crack. Serão criados 218 novos leitos e qualificados 75, totalizando 293, em enfermarias especializadas de atendimento às pessoas que sofrem com a dependência de álcool e outras drogas. Outras 43 unidades de acolhimento, sendo 31 para adultos e 12 para crianças e adolescentes também estão nos planos do Governo Federal, em um esforço que consumirá R$ 157,2 milhões.

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Usuários de drogas da Cracolândia de BH recebem atendimento em programa do governo estadual
A assistente social Iris Lourdes Campos Silva, de 53 anos, conta que a recaída é normal entre os usuários de crack e que é preciso muita forma de vontade para deixar o vício. Ela é presidente do Núcleo de Apoio Reviver, em Barão de Cocais (Grande BH) que acolheu Natal e outras tantas pessoas em 10 anos de existência.

“Tem que ter paciência, aceitação, força de vontade e se apegar a Deus. Eu não tenho nem palavras para descrever como estou feliz”, confidenciou ao Natal ao iG , que terá alta no próximo dia 3 de fevereiro, mas passou as festas de final de ano com a família, celebrando a volta por cima.

Muitos que deixam o vício pretendem ajudar quem ainda não enfrentou de frente o problema. Natal diz que o mundo não seria tão ruim se as pessoas conseguissem, como ele se recuperar do vício. E se depender da ajuda dele, o mundo será cada vez melhor: “Agora, eu quero ser luz para as pessoas que estão nas trevas”.

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