Excesso de hotéis já acende sinal amarelo em Belo Horizonte

Em várias partes do País, a pergunta é se o Brasil estará pronto para receber a Copa de 2014. Em BH, a preocupação é com uma bolha pós-Copa

Denise Motta, iG Minas Gerais |

Um evento de pouco mais de 30 dias não pode ser a única justificativa para a construção de novos hotéis

Uma frase-padrão vêm à cabeça, quase sem querer, quando as obras em um aeroporto atrasam ou o prazo para a entrega de um estádio é adiado: como o Brasil vai receber a Copa de 2014? Mas, em algumas cidades, a pergunta já mudou: E depois da Copa?

Belo Horizonte tem 18 mil vagas distribuídas em 107 hoteis, conforme informações da Associação Brasileira da Indústria de Hoteis em Minas Gerais (ABIH-MG). Também conforme a associação, a taxa de ocupação média é de 68%. Dados da Prefeitura de Belo Horizonte indicam que estão em fase de construção e licenciamento 65 novos hoteis na cidade, o que irá gerar mais 13 mil novas vagas até a Copa do Mundo. O incremento no setor hoteleiro significa um crescimento de 60% no número de estabelecimentos e de 72% no número de leitos.O investimento total chega a R$ 2,8 bilhões e a dúvida de quem se envolve com o segmento de hospedagem na capital mineira é: a cidade irá absorver tanta oferta de hoteis após a Copa do Mundo de 2014?

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Pesquisa divulgada pelo Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB) indica que Belo Horizonte recebe cartão amarelo (risco moderado) quando o assunto é superoferta de leitos em hotéis no pós-Copa do Mundo. O problema é que os dados são de março e, de lá pra cá, o número de autorizações para implantação de novos hoteis subiu. E pode continuar subindo. Uma nova pesquisa será divulgada no final de outubro. “Sem dúvida, uma Copa do Mundo torna os mercados mais atraentes para os investidores. No entanto, é importante compreender que um evento de pouco mais de 30 dias não pode ser a única justificativa para a construção de novos hoteis”, destaca Ana Maria Biselli Aidar, diretora executiva do FOHB.

Enquanto a pesquisa não sai, o mercado hoteleiro em Minas Gerais é tomado por especulações. “É preciso sempre ter atenção para evitar um desequilíbrio entre oferta e demanda. As estimativas de taxas de ocupação de Belo Horizonte não são baixas, mas a inauguração de novos hoteis pode levar esse indicador para níveis preocupantes”, alerta a diretora do FOHB. Hoje, BH tem o número suficiente de leitos de hotel necessários para receber a Copa do Mundo.

Problema antecipado

Não temos mercado para este número de leitos. Não existe deficit em Belo Horizonte. Em nenhum mês tivemos a hotelaria com 100% de ocupação”

Para alguns, o problema pode surgir antes mesmo da competição mundial. É o que teme Rafaela Fagundes Vale, presidente da ABIH-MG. Ela diz ser preciso investir não apenas na criação de novos espaços para eventos, mas ainda na infraestrutura de transporte aéreo. O principal aeroporto que atende Belo Horizonte está com seu projeto de ampliação atrasado. As obras sequer começaram. “Não temos mercado para este número de leitos. Não existe deficit em Belo Horizonte. Em nenhum mês tivemos a hotelaria com 100% de ocupação”.

O risco de superoferta existe e é moderado, mas o cenário não é catastrófico, avalia Alexandre Sampaio, presidente da Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação. “Existe um risco moderado para hoteis econômicos e até quatro estrelas. Tem um sinal amarelo, mas não é uma leitura catastrófica”, diz, justificando que a capital mineira tem muita demanda de turismo por causa da atividade mineradora no Estado, que deve ser ainda mais vigorosa nos próximos anos pela discussão de royalties pelo poder público.

O presidente do Belo Horizonte Convention & Visitors Bureau, Roberto Fagundes, destaca que os espaços de eventos na cidade, além de serem limitados, estão com agendas cheias para os próximos anos. “Só temos o Palácio das Artes e o Minascentro para convenções. Cada um comporta cerca de 1.700, quando, para um grande congresso, precisamos de um auditório para 4 mil pessoas. Além disso, as agendas estão lotadas".

Além do turismo de negócios, a presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil de Minas Gerais (IAB-MG), Cláudia Pires, também destaca ser preciso revitalizar a cidade para vocações diferentes, como a do turismo cultural. Ela cita como exemplo a arquitetura da cidade e o museu Inhotim, que fica a 60 quilômetros de Belo Horizonte, maior centro de arte ao ar livre da América Latina.

Os otimistas

No meio de tantos alertas, Paulo Pedrosa, presidente do Sindicato de Hoteis, Restaurantes, Bares e Similares de Belo Horizonte e Região Metropolitana, é otimista e descarta a hipótese de haver superoferta de vagas no pós-Copa do Mundo. “Não vejo qualquer problema. Podemos ter problemas por causa do aeroporto, mas se houver mais vagas disponíveis, usa-se a criatividade. Não podemos julgar pensando que vai sobrar hotel, que vai quebrar hotel. Temos muita área, especialmente no turismo de negócios”.

Não podemos julgar pensando que vai sobrar hotel, que vai quebrar hotel. Temos muita área, especialmente no turismo de negócios. Temos que pensar que o sol nasceu”

É justamente o alto aquecimento do mercado de construção civil envolvido com o de hotelaria uma das principais preocupações do presidente da rede Bristol, José Adalto Silva.

Ele teme, por exemplo, aumento de custos pela grande procura por empregados e mobiliário. A Bristol tem quatro empreendimento hoteleiros em Belo Horizonte em fase de construção e licenciamento, mas Silva diz que a rede não levou em conta apenas a Copa do Mundo para construir novos hoteis. “São muitos hotéis ficando prontos ao mesmo tempo. Vamos ter um boom, nada de crescimento natural. Corremos risco de faltar serviços e bens para hotelaria porque vai ser tudo na mesma época, final de 2013 e começo de 2014. Há muitas redes construindo na mesma região e corremos o risco de superoferta, por isso, a prefeitura deveria ter limitado o número de empreendimentos por bairro”.

A prefeitura

Questionada se planejou a ocupação da cidade por novos hotéis com um estudo, a prefeitura, por meio da assessoria de imprensa da Secretaria de Desenvolvimento, disse que “existia um déficit de vagas há muito tempo, notório”. Também destacou que fez uma “legislação atrativa”, mas a regulação da quantidade de oferta deve ser feita pelo próprio mercado. “A prefeitura vai fazer um monitoramento”, informou também a assessoria.

Porém, a legislação recente incentiva o aumento do número de quartos. Para encorajar empreendedores, a prefeitura editou uma lei que ampliou a área de um lote a ser construída. Se antes poderia se construir pouco mais do que o dobro do terreno, hoje pode-se ocupar até cinco vezes o tamanho de um lote. E o que isso significa? Mais espaço para construir gera exatamente mais leitos. Se a média de quartos hoje para cada hotel fica em 168 apartamentos, com a nova lei este número sobe para 200.

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