Em Minas, homem ganha a vida com esculturas em palito de fósforo

"Não tenho como calcular quanto já ganhei porque já vendi em euro, dólar, peso e real", diz o argentino Santiago Calonga

Denise Motta, iG Minas Gerais |

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As luzes da cidade, com um homem tocando violão
É difícil observar um dos delicados trabalhos do artista argentino Santiago Calonga, 31 anos, sem esboçar um sorriso nos lábios ou um brilho nos olhos. Calonga esculpe em palitos de fósforos desde os 13 anos e estima já ter produzido mais de 30 mil peças, a maioria milimétricas. As milhares de pequenas esculturas do argentino estão espalhadas pelo mundo, já que ele comercializa as peças pela internet.

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"Máquina de dormir", uma das preferidas do escultor
Calonga tem carinho especial pela peça “Máquina de Dormir”, que retrata carneirinhos pulando uma cerca, sobre um céu azul, em um espaço de 10 centímetros. Ao girar uma pequena manivela, um carneirinho milimétrico sobe e desce na caixinha, dando a impressão de se preparar para pular a cerca à sua frente. Sobre sua inspiração, ele diz: “Eu gosto de clichês. Sempre faço as esculturas pensando em clichês. Contar carneiros é clichê”, diz Calonga, com trabalhos já expostos na Argentina, Espanha, Portugal e Brasil.

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Santo Antônio, uma das suas peças de arte sacra
“Máquina de Dormir” foi feita há cinco anos em comemoração ao Dia das Crianças promovido por um espaço de exposição em Higienópolis, região central de São Paulo. “Chamaram algumas pessoas para participar de um desafio de criar um brinquedo. Na verdade, eu faço brinquedos para adultos”, brinca ele.

O artista relembra que uma das fases mais curiosas de seu trabalho aconteceu quando ele chegou ao Brasil, em 2002, e começou a produzir peças inspiradas na arte sacra das cidades históricas de Minas Gerais. Ao mesmo tempo, ele criava peças inspiradas no Kama Sutra, livro sobre centenas de posições sexuais. “Houve um tempo em que eu fazia arte sacra e Kama Sutra. Também teve uma época, no começo, em que uma pessoa me pediu alguns bonequinhos destroçados, achei estranho. E teve uma fase que eu fazia muitos personagens de circo”, revela. Atualmente, ele trabalha na produção de personagens da história “Alice no País das Maravilhas”. Grande parte das obras Calonga vendeu ou deu de presente a amigos.

Da Patagônia a Belo Horizonte

O argentino saiu da cidade de Ushuaia, na província de Terra del Fuego, Patagônia Argentina, aos 18 anos. De 1998 a 2002, viveu na Argentina, Espanha, Colômbia e Brasil. Em Minas Gerais, ele se apaixonou e viveu dois casamentos.

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Luta de capoeira, um dos trabalhos do artista: ele já expôs seus trabalhos na Argentina, Espanha, Portugal e Brasil
Os relacionamentos não deram certo, mas ele mantém bom contato com as ex-mulheres. Uma delas é sua sócia em um bar no Edifício Maleta, tradicional ponto de encontro da boemia mineira no centro de Belo Horizonte. O bar era um ateliê, mas a cada dia recebia mais e mais pessoas da área cultural. Calonga servia cafés, depois passou para a cerveja. Decidiu, então, institucionalizar o negócio há um ano e meio.

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Bonequinho ao violino: "Posso dizer que ganho mais dinheiro com as esculturas do que com o bar", afirma Calonga
A arte de esculpir em fósforos, conta ele, é herança da mãe. “Minha mãe me ensinou quando eu tinha 13 anos. Meu avô e bisavô por parte de pai também eram escultores. Meu pai, como hobby, esculpia peças sacras em barro”, lembra.Mas de onde surgiu a arte de esculpir em palitos de fósforos? “Minha família aprendeu com um chileno, mas não existe muito registro sobre isso. Além do Chile, existe registro deste trabalho na França. É difícil dizer. Para esculpir uso linha de costura, resina, tinta, pedaço de papel, madeira de caixas de maçãs. Mas a base é sempre o palito de fósforo. Vivi disso minha vida toda e posso dizer que ganho mais dinheiro com as esculturas do que com o bar”, conta ele.

As peças, emenda ele, tem preços que variam de R$ 50 a R$ 1.000. O valor é calculado pelo tempo de trabalho. “Posso demorar minutos, horas ou dias em um trabalho. Eu dou valor ao meu trabalho pelo tempo. Não tenho como calcular quanto já ganhei porque já vendi em euro, dólar, peso e real. Nunca divulguei muito o meu trabalho e nunca me preocupei em ganhar muito dinheiro”, explica.

Calonga cursa design de produtos na Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG). Mas ele já não é designer? “Sempre fui curioso”, resume o argentino antes de ser interrompido por uma cliente do bar encantada pela “Máquina de Dormir”. E no rosto da moça era evidente o sorriso nos lábios e o brilho nos olhos.

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