Cachaça em garrafa de ouro é vendida a R$ 1.500 em feira de Minas

Bebida ganha status de produto de luxo e conquista mercado internacional

Denise Motta, iG Minas Gerais |

Dos primeiros alambiques importados por Portugal na época em que o colonizador Martim Afonso de Souza chegou à capitania de São Vicente, em São Paulo, por volta de 1532, aos dias de hoje, a cachaça ganhou status de um produto de luxo. Exemplo é uma cachaça de Araxá, a 367 quilômetros de Belo Horizonte. A Sarau Dona Beja, produzida em 1972 e envelhecida por 12 anos em barril de carvalho, é engarrafada em louça pintada a ouro e tem custo de R$ 1.500.

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Mario Moraes Marques, de Araxá, e a cachaça de R$ 1.500
“Meu pai guardou um barril especial produzido em 1972 e eu guardei dois mil litros. Vendo cerca de 40 garrafas por ano e teve uma delas que foi arrematada em um leilão nos Estados Unidos por US$ 15 mil, em 2007”, conta Mário Morais Marques, que desde 1991 assumiu os negócios do pai no Estado que possui nove mil produtores, sendo no País 40 mil existentes.

Morais diz que exporta cerca de 15% de seu produto especialmente para os Estados Unidos. Ele produz em média cerca de 150 mil litros por ano e comercializa 250 mil litros no mesmo período. De 2008 para 2009, lemba, ouve incremento de 40% na venda de seu produto. “Meu avô materno incentivou meu pai a produzir cachaça porque tinha canaviais e em Araxá temos um diferencial porque, como a cana demora mais para maturar, temos um produto mais suave”. O produtor da cachaça Dona Beja comercializa quatro tipos de marcas da bebida, incluindo o primeiro blend, com uma mistura de produtos envelhecidos por 12, 8 e três anos.

Marques já é presença constante na maior feira de cachaças do Brasil, em Belo Horizonte anualmente, a Expocachaça, que está em sua 15ª edição. A feira reúne centenas de tipos de cachaça feitas artesanalmente e chamou atenção nela um grupo de gaúchos organizados em um dos estandes.

Fernando Andrade, executivo da Associação dos Produtores de Cana-de-Açúcar do Rio Grande do Sul (Aprodecana), explica que a produção de cachaça no Estado começou em 1725, mas há poucos anos eles começaram a se organizar para agregar mais valor ao produto. Geralmente a graduação alcoólica não passa de 40 graus, o que garante um paladar mais suave. Os gaúchos já exportam cachaça para a África, Caribe, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, França, Inglaterra, Espanha e Bélgica.

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Fernando Andrade: "gaúchos não produzem só vinhos"
Estado conhecido pela produção de vinhos, o Rio Grande do Sul investe ainda no turismo aliado à produção de cachaça. O Alambique Flor do Vale fica a poucos quilômetros do centro de Canela. Entre outubro e dezembro do ano passado, recebeu mais de 100 mil visitantes, levados em um ônibus especial. O mote da bebida é o fato de ela ser produzida de forma totalmente orgânica e sem agredir o meio ambiente.

O Rio de Janeiro também marcou presença na Expocachaça, que reuniu cerca de 100 mil pessoas em quatro dias de evento (de 2 a 5 de junho de 2011). O consultor do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) do Rio de Janeiro, Ricardo Zarattini, conta que a tradição de cachaça em Paraty começou por volta de 1630. Ele conta que a cachaça chegou em Minas Gerais na época do garimpo, no século XVII.

“Na região de Paraty, hoje temos oito marcas sendo produzidas, mas no Rio de Janeiro temos cerca de 300 alambiques”, informa Zarattini. Um dos produtos mais antigos no Rio é a cachaça Coqueiro, produzida desde o ano de 1.800. A Coqueiro, destaca o consultor do Sebrae-RJ, é a única cachaça com selo de excelência do Ministério da Agricultura, o que garante um produto de alta qualidade.

Reivindicações da categoria

O diretor executivo do Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac), Carlos Lima, diz que entre as reivindicações da categoria está a modificação tributária na taxação do produto porque pequenos produtores possuem dificuldade em manter seus negócios. “Temos cerca de 90% do setor representado por micro e pequena empresa e o alto índice de clandestinidade pode estar relacionado com a alta carga tributária.”

O Ibrac, lembra Lima, também tem um trabalho de incentivar a negociação com outros países para que a cachaça seja reconhecida como produto genuinamente brasileiro. “Entendemos como uma redundância dizer cachaça brasileira. Para importarmos aos Estados Unidos, nossa cachaça é taxada como rum brasileiro. Precisamos fazer como o México fez com a tequila durante a Copa do Mundo de 1986. Se você fala em tequila, já pensa logo em México”.

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Detalhes da Sarau Dona Beja, cachaça de 1972 que custa R$ 1.500
Organizador da Expocachaça, José Lúcio Mendes é um dos entusiastas do projeto de aproveitar a Copa do Mundo de 2014, no Brasil, para dar visibilidade à cachaça. “A cachaça é o terceiro destilado mais consumido no mundo. Só perde para o soju (bebida coreana à base de arroz) e a vodka. E Minas Gerais é a Escócia da cachaça. Hoje temos 500 milhões de litros sendo produzidos anualmente no país, em alambiques, e 1,3 bilhão de litros de cachaça industrial. Nossa ideia é fazer uma grande parceria entre cidades-sede da Copa do Mundo de 2014 para que a caipirinha seja oferecida como welcome drink (drink de boas vindas)”.

Mendes explica que pela graduação alcoólica a bebida é taxada de cachaça (38º a 48º) ou de aguardente (48º a 54º) e que geralmente a caipirinha, bebida que deve ser a vedete da Copa do Mundo de 2014, deve ser feita com uma cachaça branca. “Precisamos padronizar o modo de fazer caipirinha para que os estrangeiros que vierem no país se transformem em nossos embaixadores. A caipirinha por exemplo, não pode ter um limão macerado no copo, pois provoca acidez na bebida. O ideal é colocar três rodelas de limão nas laterais do copo e no meio colocar gelo. Depois você pega mistura o suco de meio limão com uma dose (40 mililitros) de cachaça e pouco açúcar, porque se ficar demais (açucar) não tem como tirar. O segredo da caipirinha é que seja um drink suave”, ensina Mendes.

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