Museu da Loucura leva visitantes à reflexão sobre "holocausto brasileiro"

Por Carolina Garcia - iG São Paulo |

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Contato com aparelhos de eletrochoque, algemas e dramas dos pacientes provoca imersão na história do maior genocídio do País entre os anos de 1903 e 1980

“Frio, tristeza, abandono, fome, omissão, exclusão, preconceito... Ninguém morre de loucura.” A frase pode ser lida em um retrato de um paciente do Hospital Colônia de Barbacena (MG), exposto em uma das salas do Museu da Loucura, na cidade mineira, que exibe a história do mais cruel hospital psiquiátrico do Estado. O manicômio foi responsável pelo genocídio de ao menos 60 mil pessoas entre os anos 1903 e 1980. O caso ficou conhecido como o Holocausto Brasileiro.

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Holocausto brasileiro: 60 mil morreram em manicômio de Minas Gerais

Acervo como cela e fotos dos pacientes foram reunidos na década de 70 para exposição. Foto: Acervo Museu da LoucuraFachada do Museu da Loucura, localizado na  BR-265, altura do km 5 . Foto: Acervo Museu da LoucuraAparelho usado em Eletroconvulsoterapia que foi desenvolvida na década de 30 por psiquiatras italianos. Foto: Acervo Museu da Loucura"Pegemas" são apresentadas com a história de João Adão, o paciente mais violento da Colônia. Foto: Acervo Museu da LoucuraAparelhos de eletrochoque expostos em uma das salas do Museu da Loucura. Pacientes recebiam até 130 volts sem anestesia. Foto: Acervo Museu da LoucuraRetratos com frases sobre a loucura entre os pavimentos do Museu da Loucura, em Barbacena (MG). Foto: Acervo Museu da LoucuraPacientes acabavam tendo sede e bebiam urina e esgoto na Colônia, em Barbacena (MG). Foto: Divulgação/Luiz Alfredo/Revista O CruzeiroMuitos dos internados tinham apenas trapos para vestir enquanto outros ficavam nus.. Foto: Divulgação/Luiz Alfredo/Revista O CruzeiroInternados eram obrigados a ficar no pátio das 5h às 19h, sem fazer nada, todo os dias. Foto: Divulgação/Luiz Alfredo/Revista O CruzeiroTodos tinham que dormir sobre capim porque não havia colchão. Foto: Divulgação/Luiz Alfredo/Revista O CruzeiroHomens tinham cabeça raspada, eram despidos e depois uniformizados. Foto: Divulgação/Luiz Alfredo/Revista O CruzeiroNos períodos de maior lotação, 16 pessoas morriam todos os dias. Foto: Divulgação/Luiz Alfredo/Revista O CruzeiroColônia foi inaugurada em 1903 e continua aberta até hoje, mas o auge da barbárie aconteceu entre 1930 e 1980. Foto: Divulgação/Luiz Alfredo/Revista O CruzeiroCerca de 70% das pessoas não tinham diagnóstico de doença mental. Foto: Divulgação/Luiz Alfredo/Revista O CruzeiroManicômio foi criado para deficiêntes mentais, mas acabou sendo usado para colocar pessoas indesejadas socialmente, como gays, negros e prostitutas. Foto: Divulgação/Luiz Alfredo/Revista O CruzeiroO psiquiatra italiano Franco Basaglia visitou o hospício na época e constatou: “Estive hoje num campo de concentração nazista. Foto: Divulgação/Luiz Alfredo/Revista O CruzeiroLivro Holocausto Brasileiro conta história do genocídio de 60 mil pessoas em hospício de MG. Foto: Divulgação/Luiz Alfredo/Revista O CruzeiroHospício chegou a ter 5.000 pessoas ao mesmo tempo, enquanto que a capacidade era para 200 pacientes. Foto: Divulgação/Luiz Alfredo/Revista O CruzeiroHolocausto brasileiro. Foto: Divulgação/Luiz Alfredo/Revista O CruzeiroCom os pacientes nus, clima era de promiscuidade e mulheres foram abusadas por funcionário. Foto: Divulgação/Luiz Alfredo/Revista O Cruzeiro

Aberto ao público desde 1996, fruto de uma parceria entre a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig) e a Fundação Municipal de Cultura de Barbacena (Fundac), o museu revela a história da loucura em cinco ambientes. Aparelhos de eletrochoque (que provocavam descargas elétricas de até 130 volts), sessões de lobotomia, celas e materiais de contenção mostram aos visitantes como os excluídos e doentes mentais eram contidos pelo Estado.

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“Retratamos uma época em que não havia tratamento para os pacientes, mas apenas modos de contenção”, explica o historiador Edson Brandão, apontando ainda o uso das “pegemas”, que eram algemas para os tornozelos. Durante a exposição, o visitante conhece o objeto a partir da história de João Adão, o paciente mais violento da Colônia, que conseguia arrancar as grades de sua cela durante acessos. Ele sofreu uma lobotomia na década de 70. Nas outras salas, são expostos os uniformes, pertences pessoais e fotos da última geração dos pacientes da Colônia.

Ao final do circuito guiado, os visitantes conhecem a sala da Luta Antimanicomial, sobre o movimento de revolução no tratamento psiquiátrico, e a galeria de arte para exposições temporárias com as criações dos próprios pacientes. O passeio termina com a mensagem de que os erros do passado não foram esquecidos e moldaram um novo pensamento na antiga “Cidade dos Loucos”, como Barbacena ficou conhecida. “O museu é um registro muito forte, mas abriu caminhos para se discutir com a comunidade”, diz o historiador. Para ele, a sociedade caminha para a compreensão da loucura clínica e a loucura saudável.

O acervo é pequeno, reconhece Brandão, e foi reunido durante os últimos anos da década de 70 durante um congresso de psiquiatria, em Belo Horizonte. “Foi a primeira denúncia do que realmente ocorria na Colônia. Muito se perdeu, mas é vitorioso perto de outros acontecimentos que acabam entrando ‘debaixo do tapete’, como o período de escravidão no Brasil”, defende.

Divulgação
Capa do livro Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex

O genocídio

“Milhares de mulheres e homens sujos, de cabelos desgrenhados e corpos esquálidos cercaram os jornalistas. (...) Os homens vestiam uniformes esfarrapados, tinham as cabeças raspadas e pés descalços. Muitos, porém, estavam nus. Luiz Alfredo viu um deles se agachar e beber água do esgoto que jorrava sobre o pátio. Nas banheiras coletivas havia fezes e urina no lugar de água. Ainda no pátio, ele presenciou o momento em que carnes eram cortadas no chão. O cheiro era detestável, assim como o ambiente, pois os urubus espreitavam a todo instante.”

A situação acima foi presenciada pelo fotógrafo Luiz Alfredo da extinta revista O Cruzeiro em 1961 e está descrita no livro-reportagem "Holocausto Brasileiro", da Geração Editorial, publicado em julho do ano passado. Apesar de ser uma história recente, o fato de um episódio tão macabro permanecer desconhecido pela maioria dos brasileiros inspirou a jornalista Daniela Arbex. “Eu me perguntei: como minha geração não sabe nada sobre isso?”.

Serviço

Museu da Loucura
Rodovia BR-265, altura do km 5, Barbacena (MG)
Visitação: Segunda a Sexta, entre 8h e 18h
Entrada gratuita
Telefone: (32) 3332-1477

*com reportagem de Renan Truffi, do iG São Paulo

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