Em BH, estudantes que se destacam nos protestos já são alvo de assédio

Por Luciana Lima - iG Brasília | - Atualizada às

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Apesar de resistirem à ideia de serem considerados líderes de um movimento, estudantes mineiros já recusaram convites de partidos para se filiarem

Arquivo pessoal
Estudantes se reúnem em assembleia popular em Belo Horizonte

A resistência em apontar líderes dos protestos em Belo Horizonte é grande e está presente em todos os discursos feitos pelos jovens, na maioria sem filiação partidária, mas que comparecem ao viaduto Santa Teresa, no centro da capital mineira, para as assembleias populares que chegam a durar mais de cinco horas. No entanto, em meio aos discursos, os líderes acabam surgindo.

O estudante de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais Eduardo Gontijo é um dos participantes e rejeita o título de líder, apesar de já ter sido convidado para se filiar a um leque de partidos como PSDB, PT e PHS.

“Sou apenas um participante do movimento. Aqui, o líder é a assembleia popular. Somos líderes quando estamos discursando e somos ouvidos. Mas na última assembleia, tivemos a participação de 500 pessoas e 100 discursos”, ressalvou, apesar de admitir uma certa simpatia por partidos “de esquerda”. O estudante faz questão de pedir inclusive que sua foto não seja divulgada. “Divulgue a foto a assembleia. É melhor”, apelou.

Gontijo tem 20 anos, mora com os pais e não acredita nos partidos e nem no Estado, da forma como estão hoje estruturados. "Na teoria, o Estado é uma maravilha, mas na prática, é criminoso, na medida em que não respeita o cidadão. Temos um Estado que agride as pessoas e seus direitos que estão garantidos na Constituição Federal”, disse o estudante.

Da mesma forma funcionam os partidos, na opinião de Gontijo. “Os partidos são democráticos na teoria. Mas a gente sabe que estão sempre a serviço de uma cúpula, de caciques e a militância é sempre uma massa de manobra dessa cúpula”, destacou.

Esse “desapontamento” com a estrutura partidária, na avaliação de Gontijo, não é presente somente no pensamento dos mais jovens, que não experimentaram o período ditatorial.

“Tenho muitos amigos desapontados e também conheço muita gente ‘velha de guerra’ que também está desapontada com tudo isso”, diz. O motivo apontado por Gontijo para estar nas manifestações é a luta por direitos, da forma mais ampla possível. “A democracia está mudando o seu perfil. Acho que quem criou não esperava por isso. Hoje a luta é para garantir o direitos de ser diferente. Por isso não dá mais para aceitar o nazismo, o fascismo, a homofobia, por exemplo”, destacou.

Erro

Arquivo pessoal
Jorge Afonso Mairink é coordenador do DCE da UFMG

Já o estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Jorge Afonso Maia Mairink (21) pode ser considerado uma exceção quando a questão é a defesa do apartidarismo. Atuante na organização das passeatas, ele é coordenador do Diretório Central dos Estudantes (DCE), participa do movimento estudantil organizado e é filiado ao PT.

“Considero um erro sem tamanho que parte dos manifestantes não admita a organização por meio de partido ou instituições. Para mim, não há democracia sem partido. A última vez que acabaram com os partidos no Brasil foi na ditadura”, lembrou Jorge Afonso, referindo ao Ato Institucional Numero Dois, ou AI-2.

Além de extinguir partidos políticos, o AI-2 abriu processos de cassação de mandatos das pessoas que haviam sido eleitas, tornou indireta a eleição para Presidência da República e permitiu que o Poder Executivo interviesse no Poder Judiciário, fazendo com que os julgamentos das ações dos golpistas deixassem de ser competência da justiça civil.

“As pessoas filiadas aos partidos políticos estão sim participando das passeatas e sempre participarão. Além disso, não é só agora. Desde que cheguei aqui, há três anos, todo ano, em dezembro, quando os contratos de transporte público são reajustados, a gente foi pra rua protestar. Fizemos isso enquanto muitos estavam preocupados com outras coisas próprias do final do ano”, destacou Jorge Afonso, que é de Montes Claros, e mora em uma república em Belo Horizonte. Seu trabalho é como monitor na própria universidade, mas o dinheiro que recebe não é suficiente para seu sustento. Mesmo morando fora, ele ainda depende dos pais.

Para a passeata desta quinta-feira, os estudantes da UFMG decidiram agregar as reclamações do cotidiano da universidade. “Estamos sofrendo um ataque diário às nossas liberdades individuais. A reitoria proibiu festas, tem fotografado e filmado as pessoas sob ameaça de abrir contra elas processos administrativos, não tem admitido “aglomerações” e frequentemente permite a entra da Polícia Militar no Campus. Queremos reclamar disso”, contou Jorge Afonso, antes de entrar na assembleia que seria coordenada por ele com os estudantes.

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