'Não tem saída pra mim, não', diz mulher ameaçada pelo marido

Mesmo preso, marido de mulher faz ameaças e impede que ela fuja; delegada recomenda identificar relação violenta no começo

Denise Motta, iG Minas Gerais |

Thinkstock/Getty Images
Agressões em casa
Joana (nome fictício), de 24 anos, caixa de um supermercado, carrega o peso de um relacionamento complexo aliado à dificuldade de criar três filhos, sendo dois do marido que está preso por assalto e o outro de um homem que não reconheceu a criança, hoje com sete anos.

Os dois filhos mais novos de Joana, de 5 e de três anos, acabam envolvidos em uma trama de violência protagonizada pelos pais. A mulher, que trabalha para criar os filhos e sem nunca ter problema com a justiça, está em um ciclo como o citado pela delegada Margaret.

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“No começo, quando ele começou a me bater, trancava as crianças fora do barraco. Depois, pouco antes de ser preso, já me batia na frente dos meninos. Ele me dava tapas na cara, cuspia e tinha mania de apagar cigarros na minha mão. Também jogava bebida na minha cara, enquanto puxava meus cabelos. A coisa foi piorando e eu até achei bom quando ele foi preso por um assalto. Mesmo preso, faz ameaças. Como eu tenho amigas que também tem maridos na cela dele, chegam os recados. Há dois anos ele está preso e eu vou visitá-lo porque tenho medo. Ele fala que vai me matar e matar os meninos também”, contou Joana ao iG , que mora em uma comunidade na região norte da capital mineira.

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Temendo a ira do companheiro, Joana só aceitou contar brevemente sua história, pelo telefone, sob a proteção do anonimato. Questionada se pensava em terminar o relacionamento, ela disparou: “Como? Só se eu fugir. E eu vou fugir pra onde? Sem a família? Com que dinheiro? Não tem saída pra mim, não”. O marido de Joana está preso na Penitenciária de Segurança Máxima Nelson Hungria, em Contagem, na Grande Belo Horizonte. Ela nunca denunciou formalmente o companheiro por agressão, apesar de já ter “pensado muito nisso”.

Divulgação
A delegada Margaret Rocha, especializada em apurações de crimes contra mulheres na capital mineira
Identificar no começo do relacionamento que seu sonho de amor, na verdade, pode se transformar em um pesadelo é a dica da delegada Margaret Rocha. Esta estratégia evita que a mulher se apegue sentimentalmente ao agressor e mergulhe em um ciclo de esperança interminável que o agressor mude de postura.

“O casal fica em lua de mel, depois tem um período de explosão de violência, volta a lua de mel. A mulher precisa identificar este ciclo e realmente tentar sair disso. Muitas vezes ela continua porque o homem se diz arrependido e pede perdão, prometendo não agredi-la nunca mais. A mulher, então, acredita sinceramente naquilo. Mas um tempo depois, acaba novamente agredida”, explica Margaret, trabalhando com ocorrências de violência contra a mulher desde 1997.

A delegada Margaret acredita que a emancipação da mulher causa uma incontrolável fúria nos homens, acostumados com uma sociedade patriarcal e onde as mulheres sempre foram estereotipadas como sexo frágil. “O homem não sabe verbalizar isso, essa coisa da mulher ter o seu trabalho e posição de destaque. O homem se manifesta em alguns casos com a violência”.

Mortes

Entre as capitais do Sudeste, Belo Horizonte é a com maior taxa de homicídios de mulheres, apontou o “Mapa da Violência 2012: Homicídios de Mulheres no Brasil” . A pesquisa, com dados desde 11980, mostra que a cada duas horas uma mulher é assassinada no Brasil, sendo o crime geralmente cometido por um namorado, marido, pai ou outro parente. Também conforme o estudo, grande parte das mulheres é morta dentro de casa e o assassino normalmente já cometeu algum ato de violência anteriormente.

No ano de 2010, 77 mulheres foram assassinadas em Belo Horizonte, taxa de 5,4 por 100 mil habitantes. Vitória (ES) e Rio de Janeiro (RJ) tiveram taxa de 5,2 no mesmo período e, São Paulo (SP), 4,8. A capital com maior taxa de homicídio de mulheres é Porto Velho (RO): 12,4 crimes para cada grupo de 100 mil habitantes. A com menor taxa é Brasília: 1,7. Todos os dados referem-se ao ano de 2010.

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