Ilda Cardoso diz que o filho, Wagner, de 26 anos, morto na saída de uma boate no Rio Grande do Sul, nunca se envolveu em brigas

Última foto tirada por Wagner (à esquerda) no dia da formatura do irmão Vinicíus, de 18 anos
ARQUIVO PESSOAL
Última foto tirada por Wagner (à esquerda) no dia da formatura do irmão Vinicíus, de 18 anos
Enquanto a maior parte das mães que perderam filhos prefere se calar e guardar a dor, a cabeleireira gaúcha Ilda Mar Boeira Cardoso, de 57 anos, grita. “Não vou ficar quieta”. Ela acredita que falando pode fazer com que a morte do filho Wagner Boeira Cardoso, de 26 anos, não seja esquecida e nem passe impune.

Na madrugada do último domingo, 6, Wagner foi assassinado com um tiro na cabeça na esquina das ruas Dr. Timóteo e Tobias da Silva, no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Ele havia acabado de sair da casa noturna Roseplace, onde teria se envolvido em uma discussão com outros clientes. O bate-boca aconteceu na hora de pagar a conta, após supostamente outras pessoas terem tentado cortar fila.

Wagner e o amigo Ricardo Paz Gross, de 28 anos, conhecido como ‘Chanel’, foram retirados da casa pelos seguranças, que, segundo a mãe,  deflagraram uma série de agressões contra os dois. “O que me contaram foi que eles saíram correndo, correndo, por duas quadras, quando foram derrubados com socos e pontapés”, conta Ilda ao iG, bastante emocionada e ainda incrédula. “Quando ‘Chanel’ olhou meu filho já estava baleado”.

O soldado da Brigada Militar (BM) Thiago de Lima Garcia Vieira, segurança da casa e suspeito pelo crime, foi detido pela polícia e está preso. Outro policial que também teria participação no caso conseguiu a liberdade provisória na Justiça. Enquanto isso, Ilda lamenta os planos que o filho não poderá concretizar.

Estudante do 4º semestre de administração na Faculdade Porto Alegrense (FAPA), Wagner trabalhava como auxiliar administrativo na empresa de bebidas Vonpar. “Recentemente, ele tinha passado em dois concursos públicos e estava na expectativa”, diz.

Nem briga e nem multa

Wagner é descrito pela mãe como um filho calmo, amoroso e que “nunca deu trabalho”. “Ele nunca falou uma palavra que me machucasse, nunca se envolveu em brigas, nem com drogas. Tem carta de motorista desde os 18 anos e nunca recebeu uma multa de trânsito”, afirma, com a voz embargada. Quando a família viajava junto e o pai cometia qualquer deslize ao volante, era Wagner quem sempre o repreendia, conta a mãe.

Ilda estava em um sítio a 100 km de Porto Alegre quando foi avisada de que o filho havia sofrido um acidente e estava mal. Na hora, pressentiu o pior. “Eu senti e comecei a gritar, gritar...”, diz, sem conseguir concluir a frase. “Vim ligando para todo mundo, mas ninguém me disse a verdade, só contaram quando eu cheguei”.

Thais Cardoso, de 30 anos, irmã de Wagner foi a última da família a vê-lo com vida. No sábado à noite, ela o ajudou a se arrumar para a balada. “Ele sempre pedia para eu passar gel no cabelo dele. Eu passei e daí ele botou perfume e veio perguntar se não tinha colocado demais. Era muito perfeccionista”, conta.
Já o último momento que Ilda passou com o filho foi de despedida, antes de viajar para o sítio da família. “Ele havia acabado de tomar banho e eu estava saindo de casa, quando falei ‘thau filho, Deus sempre te acompanhe’”.

Protestos

O corpo de Wagner foi enterrado na tarde de segunda-feira no Cemitério Saint-Hilaire, em Viamão. Depois, amigos e familiares, vestindo camisetas com a foto dele, seguiram para a frente da casa noturna Roseplace, onde fizeram uma oração e pediram justiça. “Não tive condições de ir, mas meus filhos disseram que ainda havia sangue no chão”, afirma Ilda.

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