Mesmo com tratamento gratuito, 5 mil morrem de tuberculose por ano no Brasil

SÃO PAULO - Apesar de ter cura e tratamento gratuito, a tuberculose mata cerca 13 pessoas por dia no Brasil. A cada ano, o País registra 85 mil novos casos da doença e 5 mil mortes causadas por ela. O Estado do Rio de Janeiro é o que apresenta situação mais crítica, com uma incidência de 73,6 casos por 100 mil habitantes.

Ana Maria Freitas, repórter do Último Segundo |

A média nacional é de 40 casos por 100 mil pessoas, mas em regiões de grande conglomerado de gente este dado chega a ser até sete vezes maior. Este é o caso, por exemplo, da Rocinha, na zona sul da capital fluminense, onde a incidência da tuberculose é uma das maiores do País, chegando a 300 casos por 100 mil.

É lá onde vive desde que nasceu Rita Smith, de 45 anos, que teve tuberculose duas vezes. Na primeira vez, em 89, cheguei a começar o tratamento, mas parei, porque me sentia pior tomando os remédios. Mas em 98 a doença voltou e muito mais forte. Fiquei 3 meses internada e cheguei a pesar 31 kg, conta. 

O caso de Rita é exemplar de um problema com o qual o País ainda tem dificuldade de lidar: o abandono do tratamento. O Brasil avançou muito na capacidade de detecção da doença, que chega a 86% dos casos estimados. Mas ainda precisa reduzir a taxa de abandono do tratamento, principalmente porque a única forma de acabar com a tuberculose é interrompendo a sua cadeia de transmissão, comenta o médico e coordenador do Programa Nacional de Controle da Tuberculose do Ministério da Saúde, Draurio Barreira.

A tuberculose é transmitida pelo ar, portanto, atinge pessoas de quaisquer faixas etárias ou situação econômica. Com apenas 15 dias de tratamento, no entanto, a pessoa contaminada já pára de transmitir o bacilo de Koch, responsável pela doença.

Em algumas cidades, o índice de abandono do tratamento alcança 20% dos casos. Segundo Barreira, isto ocorre porque o tratamento, apesar de gratuito, é longo ¿ mínimo de seis meses. Quinze dias depois de começar a tomar os remédios, o paciente não transmite mais a doença e pode voltar a trabalhar. Alguns acham que estão curados um mês depois, quando, geralmente, não sentem mais os sintomas e interrompem o tratamento, relata.

Moradora da Gávea, também no Rio de Janeiro, Elisângela Rodrigues, de 27 anos, seguiu com os remédios até ter alta completa da medicação, seis meses depois de ter tido o diagnóstico da tuberculose. Em junho do ano passado ela começou a se cansada, com dores pelo corpo, começou a perder peso e tossia muito, tanto que chegou a expelir sangue. Foi o sinal de que podia ser tuberculose. No dia seguinte fui ao médico, mas já tinha certeza de que estava com a doença, lembra.

O diagnóstico de Elisângela foi confirmado com exames de escarro e, mesmo tendo procurado um médico particular, foi orientada a buscar um posto de saúde, uma vez que, no Brasil, o tratamento da doença é oferecido gratuitamente pelo serviço público de saúde. No início eu me sentia enjoada por causa da medicação, mas um mês depois não sentia mais nada, nem os sintomas da doença. 

Por causa da convivência próxima, seu filho de 3 anos também precisou ser medicado por seis meses para evitar o contágio. No caso dele o remédio não apresentou nenhum efeito colateral, conta. Este ano, Elisângela foi convidada a participar de uma  campanha contra a doença pelo Fundo Global Tuberculose Brasil , graças a sua história de adesão total ao tratamento.

Acompanhamento em casa

Rita hoje diz que se arrepende de ter abandonado o tratamento quando teve tuberculose pela primeira vez. Se eu soubesse que abandonar o tratamento me deixaria como eu fiquei nove anos depois, eu não teria parado.

A situação de alcoolismo que enfrentava na época também contribui para o seu desleixo com a própria saúde. No entanto, segundo ela, foi graças a uma segunda tuberculose que ela deixou a bebida. Um grupo de amigos e meu filho fizeram de tudo para que eu me tratasse, eles acreditavam em mim mais do que eu mesma. Sempre que eu pensava em parar, só lembrava que não queria decepciona-los, relata.

De acordo com Rita, o apoio de uma assistente social também foi fundamental para que persistisse com os remédios. Ela me alimentava antes de eu tomar a medicação, ia atrás de mim para não me deixar abandonar de novo, me via como um ser humano completo, não apenas como um pulmão a ser tratado.

O exemplo de acompanhamento que teve fez com que, já curada, Rita se tornasse uma agente comunitária em sua própria comunidade. No ano passado ela fundou o Grupo de Apoio a Ex-Pacientes da Rocinha, o Gaexpa, que une pessoas que já tiveram tuberculose para ajudarem os que agora enfrentam a doença.

Vamos de casa em casa para levar informação e estimular as pessoas a se tratarem. Eu vejo as pessoas passando por todo o sofrimento que também vivi e tento mostrar que é possível superar a doença e seu estigma. 

Tuberculose resistente

Outro problema do abandono do tratamento, segundo o Ministério da Saúde, é que ele pode fazer com que o bacilo de bacilo de Koch ganhe resistência às drogas. A Organização Mundial de Saúde tem alertado aos países para o aparecimento de uma forma de tuberculose extremamente resistente (XDR), cujo bacilo suporta a mais de três dos remédios disponíveis para o tratamento da doença.

De acordo com o coordenador do Programa Nacional de Controle da Tuberculose, apenas um caso deste tipo já foi registrado no Brasil. No entanto, o País tem cerca de 300 casos por ano de tuberculose multiresistente, quando o bacilo resiste a dois dos medicamentos.

A informação sobre o aparecimento de casos tão resistentes da doença foi o que fez Vitor Santos a retomar o tratamento no ano passado. Ele era mais um dos casos que deixou os remédios quando começou a se sentir bem. Quando parei de tossir e de suar a noite, parei de tomar a medicação. Mas ai, li uma matéria em um jornal sobre esta tuberculose super-resistente e que e que é praticamente impossível de tratar e voltei ao médico. 

Os novos exames de Vitor mostraram que ele de fato não tinha se curado e seu tratamento foi retomado com uma combinação de drogas. Demorei quase oito meses para ter alta completa, conta.

Presidiários

A incidência de tuberculose nos presídios brasileiros é ainda maior do que no restante da população. Em 2006, um programa da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo nos presídios paulistas identificou cerca de 800 casos por 100 mil detentos, índice várias vezes mais alto do que o da população em geral, que naquele ano, era de 43 pelos mesmos 100 mil.

Na população carcerária feminina, a proporção é ainda maior - 1.536 por 100 mil ¿ apesar do menor número absoluto de casos. A incidência elevada se justifica, em parte, pelas condições de confinamento, já que a tuberculose é uma doença de transmissão aérea e ambientes fechados, com pouca ventilação e muita concentração de pessoas são altamente favoráveis à sua propagação.

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